Pode vir alguma coisa boa da favela?

Em resposta ao pastor Marcos Granconato, por suas polêmicas e absurdas declarações sobre cristianismo e favela

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Nos dias de Jesus, Israel estava dividido em três regiões principais. Havia Samaria, no centro, uma terra conhecida por sua miscigenação e sincretismo, que era odiada pelos judeus. No sul ficava a Judeia, região nobre, onde estava o templo, o sinédrio, os mestres da lei, as melhores faculdades, as pessoas ricas e influentes. Era ali que estava Jerusalém, cidade onde aconteciam as festas judaicas, e outras cidades importantes, como Jericó, Hebrom e Cesareia.

A terceira região ficava ao norte e se chamava Galileia. Esta era a região dos pobres, dos iletrados, dos menos favorecidos, dos pescadores, dos trabalhadores braçais. Os galileus eram desprezados e marginalizados pelos importantes habitantes do sul. É por isto que quando alguém mencionou que Jesus era da Galileia, os líderes religiosos logo retrucaram: “Da Galileia não se levanta profeta”. Tal foi a surpresa de Natanael quando ouviu falar de um profeta galileu, que disse: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (Jo 1.46). Todos questionavam a legitimidade de um profeta galileu. Se Deus tinha uma mensagem importante para a nação, ele não a enviaria por meio da gentalha, correto? Errado.

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Embora tenha nascido em Belém da Judeia, Jesus foi criado em Nazaré e fixou residência em Cafarnaum, ambas cidades da Galileia. Ele começou seu ministério público num casamento em Caná da Galileia e o concluiu em um certo monte da Galileia. Além disso, mais da metade do seu ministério foi desenvolvido na Galileia e de seus doze discípulos, onze eram daquela região. Apenas um discípulo era da Judeia: aquele cujo sobrenome, “Iscariotes”, significa “homem de Keriote”, uma pequena cidade ao sul de Hebrom.

Mas o que isso tem a ver com Marcos Granconato?

Questionado sobre a atuação das igrejas pentecostais nas favelas e pouca expressão das igrejas tradicionais nestas localidades, o pastor atacou novamente o pentecostalismo, dizendo que o liberalismo teológico que destruiu igrejas na Europa iniciou-se no pentecostalismo, o que é uma mentira enorme, já que o movimento pentecostal foi justamente uma reação ao liberalismo, algo que ele saberia se realmente estudasse o movimento ao invés de atacar espantalhos construídos por ele mesmo. E como se não bastasse, ele ainda sustentou que as igrejas históricas tradicionais não trabalham em favelas porque quando ocorrem verdadeiras conversões, as pessoas vão embora da favela.

Será que morar na favela é uma evidência de ausência de conversão?

Aqui há uma tripla injustiça: Primeiramente, com o movimento pentecostal que nada tem a ver com o liberalismo teológico, sendo antes, uma reação à aridez espiritual dele decorrente (e Granconato saberia disso se dedicasse mais tempo em estudar o movimento do que em atacá-lo sem provas). Segundo, com os pastores de igrejas batistas e presbiterianas que trabalham em favelas, que aliás, não são poucos e tem feito um excelente trabalho. Terceiro, com os moradores das favelas e os crentes que congregam nestas comunidades e que, segundo o pastor, permanecem ali porque não são convertidos.

Mas Marcos Granconato não é o tipo de pessoa que volta atrás facilmente. Ele é conhecido por causar debates infrutíferos na internet, ora atacando presbiterianos cujo batismo, na opinião dele, se assemelha à ministração do sacramento a um equino; ora atacando as igrejas pentecostais, as quais segundo ele mesmo deu a entender neste comentário, nem sequer são igrejas de verdade.

Porém, diferente do que Granconato pensa, o cristianismo não cresceu por causa da elite. Durante a ascensão do cristianismo, grande parte do império Romano era constituida de simples escravos. Foi a força e a voz dos pequeninos e desprezados que revolucionou o mundo. O cristianismo jamais foi um movimento de maioria aristocrata ou burguesa, pois como o próprio Jesus disse, “é mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” (Lucas 18:24-25).

Uma das tentativas do pastor, de “arrumar” o dito, deixando-o ainda mais mal-dito.

Respondendo portanto a pergunta inicial, “pode porventura sair alguma coisa boa das favelas?” Bem,pergunte a Jesus, que embora tenha nascido na Judeia, escolheu viver e ministrar aos pobres da Galileia, que comissionou ali o seu colégio apostólico, seu grupo de elite e futuros porta-vozes de seu movimento. Pergunte a Jesus, que alimentou os pobres e anunciou a eles o Reino de Deus. Pergunte ao Cristo, quais foram as circunstancias sociais e econômicas o levaram, junto com Maria e José, a viver naquela terra tão desprezada de Israel.


Por Léo Gonçalves
, pastor da Igreja Cristã da Aliança em São Lourenço e missionário na Urban Grace International.
Imagem: Damázio Filho

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