Princípios da doutrina da igreja – parte 1

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INTRODUÇÃO

Falar sobre Eclesiologia – a doutrina da igreja – nunca foi fácil. Articular ideias sobre aquilo que todo cristão comprometido com as Escrituras almeja ver como uma igreja saudável e bíblica é um grande desafio.

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Nestes dias que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman chama de “tempos líquidos”[1], trabalhar com a solidez de instituições pode ser considerado como um desafio quase homérico. E como faz falta pensar sobre a importância dos elementos que garantem a solidez de núcleos e instituições.

Diante deste cenário, este artigo procura trazer um pouco de luz sobre o assunto da eclesiologia brasileira, caracterizada por muitos movimentos e confissões evangélicas das mais variadas vertentes. Serão articuladas ideias baseadas de modo não exclusivo obra de SNYDER (2004). Este artigo pretende discutir e ampliar reflexões para o contexto da igreja brasileira. O choque com modelos pragmáticos é inevitável.

Em seu livro “A Comunidade do Rei” (2004) Howard Snyder procura justamente estabelecer os pontos que caracterizam e definem a igreja como a “Comunidade do Rei”, valorizando as características internas da igreja e impulsionando e motivando para o aspecto missional da mesma. Comunhão interna com infiltração na sociedade, almejando para a igreja uma melhor visão acerca do reino e como se tornar uma comunidade mais autêntica e influenciadora da cultura do reino. O artigo abordará os elos entre a perspectiva de eclesiologia de Howard Snyder com outros pensadores contemporâneos, como Mark Dever, Timothy Keller, John Stott e Ed Stetzer.

A IGREJA COMO A COMUNIDADE DE JESUS

A igreja só poderá ser de fato uma igreja, uma agente do Reino de Deus neste mundo, quando ela for de fato o que deve ser. Ao longo de toda sua obra, SNYDER (2004) explana sobre a igreja como comunidade messiânica, centrada plenamente no Evangelho de Jesus para que possa ser agente funcional num ambiente comunitário. É de suma importância que a igreja seja este agente do reino, a comunidade do Messias que transcende as estruturas institucionais sim, mas que não se faz de modo solitário.

Fazer parte da comunidade de cristãos como servos do reino de Deus, agentes de uma comunidade submetida ao senhorio de Jesus Cristo é estar e ser igreja. A definição apresentada por COMFORT e ELWELL org. (2015, p.842):

A relação entre Cristo e a Igreja nessa imagem de “corpo” leva a um entendimento muito singular da natureza da existência cristã. Paulo fala da vida de fé como vida “em Cristo”. Estar “em Cristo” é ser uma “nova criação” (2Co 5.17). Mas, para Paulo, isso não é apenas uma experiência individual, um tipo de união mística entre o crente e Cristo. Em um sentido real, estar “em Cristo” é, ao mesmo tempo, estar na Igreja. Ser batizado em Cristo (cf. Gl 3.27) é se tornar um com uma comunidade na qual as tradicionais barreiras da sociedade humana são superadas – “pois todos são um em Cristo Jesus (v.28)”. Além disso, estar “em Cristo” é ter sido batizado em um só corpo (1Co 12.12,13), pois os cristãos “são corpo de Cristo, e cada um [deles], individualmente, é membro deste corpo (v.27)”. De acordo com Paulo, portanto, não há algo como ser um cristão isoladamente, alimentando um relacionamento individual com Cristo. Ser um cristão é estar incorporado em uma comunidade de pessoas que estão se desenvolvendo para expressar, na sua “vida do corpo”, a realidade de Cristo, tornando-a substancial em seu trabalho e vida comuns.

Segundo o documento histórico O Catecismo Maior de Westminster, temos o conceito de “sociedade” e/ou comunidade reunida pela verdade e de modo geracional[2]:

A Igreja visível é uma sociedade composta de todos quantos, em todos os tempos e lugares no mundo, professam a verdadeira religião (1Co 1.2), juntamente com seus filhos (Gn 17.7; At 2.39; 1Co 7.14)

Neste sentido SNYDER (2004, p.86) diz que “o Espírito Santo nos ministra, em grande medida, por meio da mutualidade”. Para compreender melhor e tentar definir um norte e tentativa de uma eclesiologia sadia, serão expostos a partir de então alguns pontos importantes conforme definido pelo próprio SNYDER na obra “A Comunidade do Rei”[3].

A NATUREZA DA IGREJA

O ensino sobre a natureza da igreja precisa ser trazido novamente à tona para que haja o entendimento mais amplo e bíblico do que significa ser membro de uma igreja e de modo ainda mais amplo ser igreja como um cidadão do Reino de Deus.

A vida de uma pessoa regenerada (que nasceu de novo – Jo 3.3) deve ter como foco principal o viver para a glória de Deus. O plano de Deus quanto ao revelar de sua glória não está direcionado apenas ao individual, mas também ao coletivo. Deus poderosamente revela-se individualmente salvando pessoas para que estas possam caminhar juntas para um viver da e para glória de Deus. A revelação bíblica mostra isso em diversos momentos:

1) Na criação Deus não fez apenas um ser humano, mas dois indivíduos para multiplicação da raça humana para sua glória (Gn 2.18);

2) No dilúvio Deus não salvou apenas um ser humano, mas pessoas de várias famílias para sua glória (Gn 6.9 – 8.22);

3) A promessa de Deus para Abraão não foi de caráter individual, mas coletivo; nele estava a semente de um povo tão numeroso quanto as estrelas do céu e como a areia do mar para sua glória (Gn 12.1-3);

4) No Livro do Êxodo, ainda que Moisés fosse o escolhido por Deus para cumprir seus propósitos, milhares de pessoas foram resgatadas do Egito, milhares. Este coletivo – a nação de Israel – foi tirado do Egito e em seguida formaram doze tribos para um viver coletivo dentro dos propósitos de Deus e isso para sua glória;

5) Muitos seriam os exemplos ainda dentro do Antigo Testamento para apontar para uma continuidade do povo de Deus, como filho de Deus (Ex 4.22), esposa (Ez 16.6-14), menina dos olhos de Deus (Dt 32.10), vinha (Is 5.1-7), rebanho (Ez 34.4), e tudo isso apontando para o cumprir máximo da vontade de Deus de fazer um só povo em Cristo Jesus, ou seja, por meio de todos os fatos e atos de Deus no Antigo Testamento, Ele apontava para a obra de um caminho aberto através do Sangue do Cordeiro em benefício de sua igreja para sua glória!

Para a grande maioria dos cristãos é difícil pensar em igreja e remontar o assunto ao Antigo Testamento. Já é por si um atestado da confusão quanto a natureza da igreja como um povo. DEVER (2015, p.46-47) explica:

Etimologicamente, existe uma conexão entre a palavra do Antigo Testamento que expressa a ideia de “assembléia” – qahal – e a palavra traduzida por “igreja” – ekklesia – no Novo Testamento. Em Deuteronômio 4.10 e outras passagens, a versão grega do Antigo Testamento, a Septuaginta, traduz qahal por ekklesia (p.e. Dt 4.10; At 7.38). E esta palavra que significa assembléia – qahal – está intimamente ligada, no Antigo Testamento, ao distinto povo do Senhor, Israel. A rica associação entre a assembléia de Deus e o povo de Israel, expressa por qahal no Antigo Testamento, é transportada para ekklesia no Novo Testamento. A igreja é, literalmente, uma assembléia (ver Hebreus 10.25). É a assembléia de Deus, porque ele habita nela. E a igreja é constituída de pessoas que estão começando a conhecer a reversão dos efeitos da queda no pecado. Portanto, membros tanto de Israel como da igreja recebem um vislumbre da glória que aguarda o povo de Deus.

Entendida a natureza da igreja de modo bíblico que somos um povo resgatado vivendo para a glória de Deus, um povo que recebe um pouco do vislumbre dEle colhendo e vivendo os benefícios de seu favor em nossa regeneração, fica a pergunta: como ensinar esta pauta? Como levar a clareza da natureza da igreja e apontar o caminho bíblico? SNYDER (2014, p.193-194):

Muitas congregações locais poderiam ser revolucionadas com um ano de estudos sobre a igreja. A pregação e o ensino poderiam ser coordenados com estudos bíblicos individuais e em grupos pequenos. O tópico seria a igreja e sua missão. Os holofotes estariam em livros como Atos, 1 Coríntios, Efésios e Colossenses, com atenção voltada também ao desenvolvimento do plano de Deus no Antigo Testamento (em especial, os conceitos de aliança, povo de Deus e reino de Deus) e aos materiais relevantes nos Evangelhos. Os livros de Hebreus e Apocalipse também tem rico conteúdo eclesiológico.

Os fundamentos da Escritura tornam-se claros pelo ensino da palavra (2Tm 3.16). Colocando-o em prática, alimentando a igreja (1Pe 2.2) para que possa compreender a natureza da igreja e ser, de fato, instrumento de Deus para um reformar.

NOTAS

[1] BAUMAN, Zygmunt. Tempos Líquidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
[2]O Catecismo Maior. Assembleia de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2013. O Catecismo Maior de Westminster, formulado pela Assembleia de Westminster (Inglaterra), no século XVII.
[3]SNYDER, Howard A. A comunidade do Rei. São Paulo: ABU Editora, 2004. Em toda a obra “A Comunidade do Rei”, Snyder procura estabelecer um modelo de eclesiologia muito prático no sentido do Reino de Deus, uma igreja imanente no sentido da atração do “de fora” para “dentro”, bem como no sentido de transcender as estruturas alcançando os “de fora, lá fora”. No capítulo 11 ele estabelece quase um epílogo da obra, tratando naquilo que ele mesmo chama de “Sete passos para a renovação” um modelo para que a igreja aumente a visão do reino tornando-se uma comunidade mais autêntica para o próprio reino de Deus.

REFERÊNCIAS

O Catecismo Maior. Assembleia de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2013.
COMFORT, Philip W.; ELWELL, Walter A. Dicionário Bíblico Tyndale. Santo André: Geográfica, 2015.
DEVER, Mark. Igreja: o Evangelho visível. São José dos Campos: Fiel, 2015.
DEVER, Mark; ALEXANDER, Paul. Igreja Intencional: edificando seu ministério sobre o Evangelho. São José dos Campos: Fiel, 2015.
GIBBS, Eddie. Para onde vai a igreja: mudanças na maneira de conduzir ministérios. Curitiba: Esperança, 2012.
HECHT, Susan. Relacionando-se fielmente com não cristãos em uma era relacional. InCARSON, D.A. (org). A verdade: como comunicar o Evangelho a um mundo pós-moderno. São Paulo: Vida Nova, 2015.
KELLER, Timothy. Igreja centrada: desenvolvendo em sua cidade um ministério equilibrado e centrado no evangelho. São Paulo: Vida Nova, 2014.
SNYDER, Howard A. A comunidade do Rei. São Paulo: ABU Editora, 2004.
STETZER, Ed. Plantando igrejas missionais: como plantar igrejas bíblicas, saudáveis e relevantes à cultura. São Paulo: Vida Nova, 2015.
STOTT, John. A Igreja autêntica. Viçosa: Ultimato; São Paulo: ABU Editora, 2013.

 

Por Jonas Ayres
Fonte: NAPEC
Imagem: reprodução

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