O movimento de plantação de igrejas no Brasil: perigos e desafios

O movimento de plantação de igrejas no Brasil já é uma realidade. Mas precisamos tomar certas precauções, se não queremos ver esta onda "morrer na praia".

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Plantação de igrejas parece ser o tema da moda. Muitos jovens, motivados pelos testemunhos de extraordinários de megapastores que plantaram mega-igrejas, estão procurando saber mais sobre o assunto, e alguns até mesmo estão ingressando em seminários para ser futuros plantadores em suas cidades.

Muitos tem visto com entusiasmo este “movimento de plantação de igrejas” no Brasil. E para mim, que tenho plantado algumas igrejas nos últimos 14 anos, toda essa motivação com respeito ao tema, todas essas conferências sobre o assunto, também são motivo de ânimo. Apesar disso, penso que há alguns perigos que o movimento vai enfrentar, e alguns deles já são uma realidade. Por isso, com muita humildade, gostaria de contribuir com a minha opinião sobre “O movimento de plantação de igrejas no Brasil: perigos e desafios”.

O primeiro problema que o movimento tupiniquim enfrenta é a falta de obras de autores nacionais sobre o assunto.

Praticamente toda a literatura sobre o tema é de pastores europeus, americanos e australianos. E não tenho nada contra nenhum destes autores. É possivel aprender muita coisa lendo Tim Keller [1], Ed Stetzer [2] ou Alan Hirsh [3], mas a verdade é que eles escreveram seus livros tendo em mente outros contextos, outras pessoas e outra realidade.

Plantar uma igreja no Rio de Janeiro pode ser muito diferente de plantar uma igreja em Manhattam. O interior de Minas não se parece nada com os lugares onde Ed Stetzer caminhou, e o sertão nordestino nem de longe lembra as costas australianas.

Eu faço questão de repetir: Não tenho absolutamente nada contra qualquer um destes autores e acredito que eles tem muito a nos ensinar. Muitos deles são como mentores para mim, e são dádivas de Deus à igreja. Porém, vejo hoje no Brasil acontecer a mesma coisa que acontecia no início do século. Missionários europeus e americanos vinham ao Brasil e plantavam igrejas de corte americano e europeu, não levando em consideração a cultura local. Hoje não são os americanos, mas os brasileiros que, influenciados por um modelo de igreja “gringo”, estão plantando igrejas americanas, australianas e asiáticas em solo tupiniquim.

A Mars Hill [4] foi uma benção para a cidade de Seatle por um tempo, mas a verdade é que até lá ela fracassou em vários aspectos. Apesar disso, é muito facil encontrar cópias do Mark Driscoll [5] e igrejas-cópias Mars Hill em solo brasileiro. A Reedemer é uma benção para Nova York e até acho possível implementar muitas ideias do Tim Keller numa capital como São Paulo, por exemplo. Mas quando vejo um missionário no interior da Amazônia lendo Igreja Centrada e tentando implementar aquela visão na sua comunidade, tenho vontade de sentar e chorar.

O segundo problema que nós brasileiros temos que lidar é com o culto à personalidade e a ambição extraordinária.

Quase todos os livros que encontramos sobre o assunto são de pastores de megapastores mega-igrejas, mas é muito provavel que você e eu não sejamos um deles. Se você entrar no ministério achando que você vai ser o Tim Keller brasileiro, o mais provável é que você termine frustrado consigo mesmo.

Me perdoe pela franqueza, mas também é bem provável que você não seja pastor de uma mega-igreja. Agora, se você acha isso ruim, é possível que você não tenha entendido o que significa plantar igrejas. Paulo não plantou mega-igrejas. Em Éfeso, por exemplo, ele passou dois anos pregando a um grupo de 12 pessoas! Jesus não foi pastor de uma mega-igreja. Ele pregou para multidões, mas no final de seu ministério ele estava à mesa com apenas 12 discipulos (e neste mesmo dia um deles debandou). Nem toda igreja está destinada a ser “mega” e nem todo pastor terá um ministério gigante.

Nós precisamos de mega igrejas, mas também precisamos de igrejas pequenas e médias. Precisamos de mega-pastores, mas também precisamos de pastores de rebanhos pequenos e médios. Ed Stetzer jamais plantaria uma mega igreja no interior da Bahia, e a Elevation do Alan Hirsh simplesmente não daria certo em Paranaíba, Mato Grosso do Sul. Precisamos entender que a obra de Deus não é  realizada apenas por gente extraordinária. E mais: 99% do trabalho no reino de Deus é relizado por gente comum como eu e você.

O terceiro problema a ser superado pelo plantador brasileiro é a ausência de mentoria e discipulado real no caminho.

A figura do pastor, retirada do antigo testamento, traz consigo a insigna da solidão: Os pastores de Israel andavam sozinhos pelo deserto, à frente das ovelhas, enfrentando-se à bestas selvagens e outros perigos da vida ao ar livre. E se é comum pastores se sentirem sozinhos, isso é ainda mais comum quando se trata de um plantador.

Isso acontece porque no Brasil não existe ainda uma cultura de plantação de igrejas. Houve sim, um movimento estrangeiro no fim do século 19 e começo do século 20. Depois houve um movimento pioneiro nacional, onde denominações enviavam missionários a lugares que eles denominavam campos brancos, lugares onde praticamente não existiam igreja evangélicas. Muitos destes pioneiros eram considerados heróis por suas denominações, desbravadores de campo, e o ministerio do plantador era muito respeitado, embora não fosse chamado por este nome.

Hoje, com nossas cidades alcançadas pelas igrejas evangélicas, o plantador já não é visto como o herói de antes, mas como o concorrente dos outros pastores. E em um momento que igrejas não são pastoreadas, mas gerenciadas, e o culto não é tanto um serviço à Deus, mas um produto oferecido, é normal que pastores temam a novidade que chega em suas cidades e ameaça levar seus “clientes”. Por isso, não é incomum encontrar plantadores que se sentem desprezados até pelos outros pastores da sua localidade, ampliando o problema da solidão.

Para remediar isso, existem algumas redes de plantação de igrejas, e louvado seja Deus por elas! Lá é possível chegar e encontrar outros “sofredores”, lutadores da mesma batalha, e por empatia ficaremos muito próximo deles. Mas, uma vez que o movimento brasileiro é recente, o fato é que poucos daqueles que estão ali tem uma experiência profunda. Todos vão em busca de aprender, mas poucos tem muito a ensinar. Assim, aprendemos uns com os erros dos outros e avançamos pela graça de Deus, mesmo sabendo que isso poderia ser minimizado se houvesse redes de mentoria (falo de mentoria real, não imaginaria!), onde os mais experientes tivessem uma responsabilidade pelos mais novos, respondendo suas dúvidas e auxiliando no caminho.

Considerações finais

Estamos bem próximo de algo grande no Brasil, mas se não queremos ver essa “onda” de plantação morrer na praia do mesmo modo que as “ondas anteriores”, precisamos enfrentar esta problemática urgente. E talvez, a melhor maneira (e a mais sensata) de garantir a saúde e longevidade do movimento seja reconhecer que muito antes de ser uma moda, igrejas já eram plantadas no Brasil ou mesmo na América Latina (que tem um contexto muito mais parecido com o nosso), e que aqui mesmo em nosso solo temos pessoas que podem contribuir de maneira eficaz para o estabelecimento de igrejas no nosso diversificado território nacional.

Talvez seja tempo de ouvir também essa galera que também tem muito para contribuir.

Por Léo Gonçalves
Redação Púlpito Cristão

Notas:

[1] – Tim Keller é um pastor americano, teólogo e fundador da Igreja Presbiteriana Reedemer na cidade de Nova York. Autor bestseller do The New York Times com os livros “Fé cristã na era do ceticismo”,  “O Deus Pródigo” e “Oração: Experimentando intimidade com Deus”.

[2] -Ed Stetzer é escritor, missiólogo, pesquisador, pastor, e plantador de igrejas. Stetzer é uma das figuras que mais contribuiu para a discussão norte-americana sobre igreja missional, plantação de igrejas, revitalização de igrejas e envolvimento cultural.

[3] – Allan Hirsch é um missiólogo australiano escritor de grande influencia dentro do movimento de igrejas missionais. É o fundador da 100Movements, Forge Mission Training Network e Future Travelers. Sua obra “Caminhos Equecidos” é considerada uma das mais importantes no âmbito de plantação de igrejas.

[4] – Fundada em 1996, na cidade de Seatle por Mark Driscoll, Lief Moi e Mike Gunn, a Mars Hill Church (Igreja do Areópago) foi uma mega-igreja cristã, com cultos simultaneos em diversas localidades, que chegou a contar com mais de 14 mil membros. A igreja passou por uma divisão em 2015. As 11 igrejas que podiam se auto-sustentar se tornaram igrejas autônomas e as demais se desfizeram.

Acerca do fechamento e dissolução da Mars Hill Church fez a seguinte declaração: “Foi uma derrota para o evangelho, foi uma derrota para Mark [Driscoll], foi uma derrota para o evangelicalismo, para a Teologia Reformada, para o complementarismo (…) Foi uma vitória satânica colossal.”

[5] – Mark Driscoll é um pastor e autor norte-americano. Foi co-fundador da igreja Mars Hill Church em Seattle, Washington, e da Rede Atos 29. Conhecido por seu estilo bravo e por suas polêmicas, bem como por sua pregação fortemente reformada. Seu ministério influenciou vários plantadores em todo mundo, especialmente no Brasil. Em 2014 enfrentou acusações de plágio e abuso de liderança, que o levaram a pedir demissão da igreja que fundou.

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