Como pode um Deus de amor mandar alguém pro inferno?

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“Ora”, você talvez diga, “combater o mal e a injustiça no mundo é uma coisa, mas mandar gente para o inferno é outra. A Bíblia fala de punição eterna. Como isso pode ser compatível com o amor de Deus? Não consigo aceitar nem sequer a ideia de inferno com um Deus de amor”. Como lidar com essa objeção compreensível?

O indivíduo moderno acha inevitavelmente que o inferno funciona assim: Deus nos dá um tempo, mas se não fizermos as escolhas corretas até o final da vida, ele condena nossa alma ao inferno por toda a eternidade. Enquanto despenca no espaço, a pobre alma implora piedade, mas Deus lhe diz: “Tarde demais! Você teve sua oportunidade! Agora vai sofrer!”.

Essa caricatura interpreta de modo equivocado a própria natureza do mal. A imagem bíblica é que o pecado nos afasta da presença de Deus, que é a fonte de toda a alegria e, com efeito, de todo amor, de toda sabedoria e de todo tipo de coisas boas. Como no início fomos criados para estar próximos de Deus, só diante de sua face crescemos, florescemos e realizamos plenamente nosso potencial.

Perder por completo sua presença é o inferno – a perda de nossa capacidade de dar ou receber amor ou alegria.

Uma imagem comum do inferno na Bíblia é o fogo [1]. O fogo desintegra. Mesmo nesta vida somos capazes de ver a desintegração da alma causada pelo egocentrismo. Sabemos como o egoísmo e o narcisismo levam à amargura aguda, à inveja nauseante, à ansiedade que paralisa, aos pensamentos paranoicos e às negações e distorções mentais que acompanham tudo isso.

Faça agora a si mesmo a seguinte pergunta: “E se quando morrermos não desaparecermos, se nossa vida continuar eternamente?”. O inferno, assim, é a trajetória de uma alma que leva uma vida narcisista e autocentrada para todo o sempre.

A parábola de Jesus sobre o rico e Lazáro em Lucas 16 respalda a noção de inferno aqui apresentada. Lázaro é um homem pobre que mendiga no portão de um rico cruel. Ambos morrem, e Lázaro vai para o céu, ao passo que o rico vai para o inferno. De lá, o rico vê Lázaro no céu, “junto de Abraão”.

“E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim e envia-me Lázaro para que molhe na água a ponta do dedo e me refresque a língua, pois estou atormentado nestas chamas. Abraão, porém, disse: Filho, lembra-te de que em tua vida recebeste bens, mas Lázaro, por sua vez, recebeu males; agora ele aqui é consolado, e tu, atormentado. Além disso, há um grande abismo entre nós e vós, de forma que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem os daí passar para nós. Então ele disse: Eu te imploro, ó pai, que o mandes à família de meu pai, porque tenho cinco irmãos. Manda-o para os advertir, a fim de que eles também não venham para este lugar de tormento. Abraão lhe disse: Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam. Ele respondeu: Não, pai Abraão! Se alguém dentre os mortos for falar com eles, irão se arrepender. Abraão, porém, lhe disse: Se não ouvem Moisés nem os Profetas, tampouco acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dentre os mortos” (Lc 16.24-31).

O impressionante é que mesmo diante da inversão de situações, o rico parece cego ao que está acontecendo. Ele ainda espera que Lázaro seja seu servo e o trata como menino de recados. Ele não pede para sair do inferno, mas dá a entender claramente que Deus nunca lhe deu, nem à sua família, informações suficientes sobre a vida após a morte.

Comentaristas observam a incrível dose de negação, de transferência de culpa e de cegueira espiritual nesta alma no inferno. Observam ainda que o rico, ao contrário de Lázaro, jamais é citado pelo nome, mas chamado apenas de “homem rico”, insinuando nitidamente que já que sua identidade se apoiava na riqueza e não em Deus, uma vez perdida a riqueza, perde-se toda a noção de identidade.

Em resumo, o inferno é a escolha voluntária de uma identidade separada de Deus numa trajetória rumo à eternidade. Vemos esse processo “em pequena escala” nos viciados em drogas, álcool, jogo e pornografia. Primeiro ocorre a desintegração, pois, conforme o tempo passa, o indivíduo precisa cada vez mais daquilo em que se viciou para conseguir a mesma sensação, o que conduz a uma satisfação cada vez menor.

Depois, vem o isolamento, à medida que o viciado culpa cada vez mais os outros e as circunstâncias a fim de justificar seu comportamento. “Ninguém entende! Estão todos contra mim!” é a queixa pronunciada com uma dose cada vez maior de autopiedade e egocentrismo. Quando construímos nossa vida com base em outra coisa que não seja Deus, essa coisa – apesar de boa – transforma-se em um vício que escraviza.

A desintegração pessoal ocorre em uma escala mais ampla. Na eternidade, tal desintegração prossegue indefinidamente. Crescem o isolamento, a negação, a ilusão e auto-obsessão. Quando se perde por completo a humildade, perde-se o contato com a realidade. Ninguém jamais pede para sair do inferno. A própria ideia de céu passa a parecer tapeação.

Em sua alegoria The great divorce, [2] C. S. Lewis descreve um ônibus cheio de gente que, vindo do inferno, chega à fronteira com o céu. Os passageiros são instados a deixar para trás os pecados que os condenaram ao inferno, mas se recusam a fazê-lo. As descrições das personagens são impressionantes, pois nelas reconhecemos o autoengano e o narcisismo presentes em “pequena escala” em nossos próprios vícios.[3]

O inferno começa com um humor ranzinza, sempre queixoso, sempre imputando culpa aos outros […] mas você ainda consegue se distinguir no meio disso, pode até criticar esse comportamento em si mesmo e desejar livrar-se dele. No entanto, talvez chegue o dia em que isso já não seja possível. Então, não existirá mais este você para criticar o humor ou até para desfrutá-lo, restando apenas as queixas, repetidas indefinidamente como uma máquina.

Não se trata de “sermos mandados” por Deus para o inferno. Em cada um de nós existe algo que está crescendo, que virá a SER o inferno, a menos que o cortemos pela raiz. [4]

Os seres no inferno sofrem, mas Lewis nos mostra por quê. Tão destruidoras quanto chamas incontroláveis, vemos sua arrogância, sua paranoia, a autopiedade e a certeza de que todos os outros estão errados, todos os outros são idiotas! A humildade se perdeu por completo, assim como a sanidade. Eles estão encarcerados para sempre na prisão do egocentrismo, e seu orgulho cresce aos poucos até se tornar uma nuvem em forma de cogumelo cada vez maior. Para sempre continuarão a se despedaçar, culpando qualquer um que não seja eles mesmos. Em grande escala, isso é o inferno.

Portanto, a imagem de Deus lançando seres humanos em um abismo onde eles imploram: “Sinto muito, me deixe sair!” não passa de uma imagem caricata. Os passageiros do ônibus do inferno na parábola de Lewis preferem ficar com sua “liberdade”, conforme eles próprios definem, a obter a salvação. Têm a ilusão de que, se glorificassem a Deus, de alguma forma perderiam poder e liberdade, mas em uma suprema e trágica ironia, a escolha que fizeram arruinou o potencial de grandeza que detinham. O inferno, como diz Lewis, é “o maior monumento à liberdade humana”. Como se lê em Romanos 1.24, Deus “os entregou […] ao desejo […] de seus corações”. No final, Deus está apenas concedendo aos seres humanos o que eles mais desejam, incluindo a liberdade em relação a ele próprio. O que poderia ser mais justo? Lewis escreve:

Existem apenas dois tipos de indivíduos – os que dizem a Deus “seja feita a vossa vontade” e aqueles a quem Deus diz no fim “seja feita a vossa vontade”. Todos os que estão no inferno escolheram estar lá. Sem esse livre arbítrio não haveria inferno. Uma alma que, com seriedade e constância, deseje a alegria jamais deixará de tê-la. [5]

Por Tim Keller

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NOTAS:

1. Todas as descrições e imagens de céu e inferno na Bíblia são simbólicas e metafóricas. Cada metáfora indica um aspecto da experiência do inferno (por exemplo, “fogo” subentende desintegração, ao passo que “trevas” nos falam de isolamento). Isso não implica de forma alguma que o céu e o inferno em si mesmos sejam “metáforas”. Eles são reais. Jesus subiu (com seu corpo físico, não esqueça) ao céu. A Bíblia afirma claramente que céu e inferno são realidades, mas também indica que a linguagem que os descreve é alusiva, metafórica e parcial.

2. Edição em português: O grande abismo, tradução de Ana Schäffer (São Paulo: Vida, 2006).

3. Veja mais detalhes sobre a semelhança do pecado com o vício em Cornelius Plantinga, “The tragedy of addiction” (cap. 8), in: Not the way it’s supposed to be: a breviary of sin (Eerdmans, 1995).

4. Compilação de citações de Lewis a partir de três fontes: Mere Christianity (Macmillan, 1964), p. 59 [edição em português: Cristianismo puro e simples, tradução de Álvaro Oppermann e Marcelo Brandão Cipolla (São Paulo: Wmfmartinsfontes, 2009)]; The great divorce (Macmillan, 1963), p. 71-2 [edição em português: O grande abismo, tradução de Ana Schäffer (São Paulo: Vida, 2006)]; “The trouble with X”, in: God in the dock: essas on theology and ethics (Eerdmans, 1970), p. 155.

5. Extraído de C. S. Lewis, The problem of pain (Macmillan, 1961), p. 116 [edição em português: O problema do sofrimento, tradução de Alípio Franca (São Paulo: Vida, 2006)]; The great divorce (Macmillan, 1963), p. 69.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Senhores, Marcio C.S. Oliveira e Edvaldo Sales, continuem lendo As Sagradas Escrituras, Pois Nelas vocês podem obter a vida eterna,leia João Cap, 11: Verss,25,26,- João Cap, 3: vers, 5, João Cap, 7: Verss, 37,38. Que Deus Em Cristo Jesus os abençoe poderosamente, os senhores e todos os seus familiares Amem. Meu whatsApp é (88) 9-96102372.

    • Srs, Marcio C.S. Oliveira e Edvaldo Sales, Que Deus Em Cristo Jesus os abençoe poderosamente, os senhores e todos os seus familiares, repito Amem. A Bíblia afirma genuinamente que há dois caminhas eterno,Um leva ao céu e o outro ao inferno Onde o bicho nunca irá morrer. Será que depois de ler este duro recado continuarás nesta dúvida quanto ao pecado e a salvação não interessar. Desculpe eu G.G.S, não tenho nada com o viver dos senhores Estou cumprindo ordens este é o meu dever A dura Verdade ao senhores falar. Muito obrigado pela a atenção no meu whatsApp.

  2. E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo. Ap 20.15

    Deus é justo e assim como exerceu Seu juízo com gerações passadas como nos tempos de Noé é Sodoma e Gomorra ,todos que forem achados seus nomes no livro da vida serão da mesma forma condenados ao lago de fogo eternamente onde o fogo não se apaga e o bicho nunca morre como escreve o evangelho de Marcos cap 9.44 – 48

    44 Onde o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga.
    45 E, se o teu pé te escandalizar, corta-o; melhor é para ti entrares coxo na vida do que, tendo dois pés, seres lançado no inferno, no fogo que nunca se apaga,
    46 Onde o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga.
    47 E, se o teu olho te escandalizar, lança-o fora; melhor é para ti entrares no reino de Deus com um só olho do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno,
    48 Onde o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga.

    A Bíblia também nos mostra que Seu juízo é sem misericórdia Tg 3.12,13 Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade.
    13 Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo. Deus e sua palavra através do Espírito Santo nos convence do pecado , justiça, juízo.
    Em várias menções do texto sagrado a palavra “fogo”🔥 é em sentido literal e não caricata como o autor do texto em análise se posiciona ,ficamos então com a inerrante , infalível ,viva ,eficaz , penetrante e eterna palavra de Deus que quando Deus propõe alguma coisa Ele vela para a cumprir, Jr 1.12
    E disse-me o SENHOR: Viste bem; porque eu velo sobre a minha palavra para cumprir,Jó 42.2 Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido.

    Deus é justo juiz Sl 7.11Deus é juiz justo, um Deus que se ira todos os dias, e como um justo juiz não faltarão provas para a condenação eterna daqueles que negligenciaram a verdade de Deus,hoje temos Jesus Cristo como nosso advogado, e justiça de Deus para salvação de todo aquele que crê , não se tornarão inescusaveis no dia do juízo final 2 Pe 2.4-9
    4 Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo;
    5 E não perdoou ao mundo antigo, mas guardou a Noé, pregoeiro da justiça, com mais sete pessoas, ao trazer o dilúvio sobre o mundo dos ímpios;
    6 E condenou à destruição as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinza, e pondo-as para exemplo aos que vivessem impiamente;
    7 E livrou o justo Ló, enfadado da vida dissoluta dos homens abomináveis
    8 (Porque este justo, habitando entre eles, afligia todos os dias a sua alma justa, vendo e ouvindo sobre as suas obras injustas);
    9 Assim, sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados.

    Portanto Deus é justo e julgará com justiça através da sua ETERNA PALAVRA, Mt 5.18 Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido, 1 Jo 5.7 Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um.

    Por mais que na ótica humana o inferno é um lugar horrível incompatível com a natureza de Deus mas é real e não foi criado para os homens( que são a coroa da criação de Deus ) mas para o diabo e seus anjos e este lugar está reservado para todos aqueles que não deram crédito as boas notícias de salvação ,como diz o escritor aos hebreus “como escaparemos nós se não atentarmos com mais diligência para uma TÃO GRANDE SALVAÇÃO .

    Portanto dê crédito a palavra de Deus.O inferno é lugar de chamas que nunca vão se apagar…

    E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Lc 16.24

    Cornélio dos reis

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