Domonte: Vida após o Gospel

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Por Marco Telles

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No último final de semana tive a grande alegria de estar junto com irmãos no Acre (sim, o Acre existe e está cheio de vida, riso e Tereré). Dentro da programação dos dois dias que estaria pregando em uma conferência, os irmãos separaram um momento para conversarmos com músicos e ministros de louvor sobre questões de adoração, conceitos bíblicos sobre louvor e também bater um bom papo sobre o mercado gospel de hoje. Surpreende-meo fato de pessoas ainda se incomodarem pelas críticas direcionadas a este movimento. Quando penso que vamos “chutar cachorro morto”percebo que ele está mais vivo do que nunca.


De tudo o que conversamos pacificamente naquela tarde percebi que uma das preocupações gira em torno da questão: se o mercado está corrompido, aonde poderemos buscar repertório para o louvor da igreja local?
Embora eu saiba que podemos garimpar no meio gospel, acredito que outras alternativas também são validas. Por exemplo, podemos buscar no hinário antigo, nas canções das décadas pré-gospel. Podemos compor nosso próprio repertório de igreja local e, principalmente, podemos nos aventurar no mundo pós-gospel.

Existe vida após o Gospel? 

Muita gente boa, de consciência equilibrada e teologia sã está “correndo por fora” sem pretensões ambiciosas de alcançarem o centro do mercado fonográfico. Alguns até mesmo recusando propostas que os traria das marginais da música cristã para o olho do furacão. Vale muito à pena saltar os muros construídos pelos grandes selos comerciais da música (MK, Sony, SomLivre) e explorar a mata quase virgem dos artistas independentes. As consequências dessa exploração, contudo, podem ser fatais. É possível que você nunca mais olhe com bons olhos para a música de plástico da indústria.
Dentre estes artesanais da música cristã brasileira estão os meus preferidos Stênio Marcius e Diego Venâncio (do “Tanto pra Dizer”), Gladir Cabral, Gerson Borges, Paulo Nazareth, Prumo, Weelington Filho, para citar apenas alguns.
Hoje quero trazer para o texto uma dupla formada por um capixaba e um paraibano que acabam de lançar seu EP “Domonte”. Certamente ouvi-los deixará claro a quem interessar que existe sim vida após o gospel.
DoMonte é formado por Rodrigo Sousa e Tiago Sampaio. Tive a grata experiência de já por três anos consecutivos estar com eles em sua igreja local, no Rio de Janeiro. Conhecê-los tão de perto, especialmente ao Rodrigo, com quem já partilho uma amizade de longas datas, me faz um fã ainda mais convicto de seu lustroso trabalho, que, aliás, já está disponível nas principais plataformas digitais (veja link ao fim da matéria).
O que eu poderia dizer em nível de palavras gerais sobre a obra é que se trata de um folk clássico. Acordes simples, letras diretas e violões patentes. As composições são próprias, exceto “Eis o Amor, Vasto Oceano”, uma regravação de Willam Ress e Maravilhosa Cruz do gigante Isaac Whatts. São canções populares, daquelas que facilmente nos agradamos, contudo, aos ouvidos mais atentos, revelam camadas e detalhes de profunda singularidade. Foi produzido pelo Guilherme Andrade (aquele do Projeto Sola, que também corre por fora). Com toda a certeza não haveriam mãos melhores nas quais Rodrigo e Tiago poderiam confiar suas canções. Guilherme soube extrair o que há de melhor no duo DoMonte. É um EP tão esvaziado, que não consigo ouvi-lo sem pintar este quadro: uma fogueira, violões, casacos de lã e amigos.
Todas as canções são biblicamente claras e teologicamente corretas, segundo a ortodoxia reformada.

PEREGRINO

A canção que abre o EP é daquelas que escutamos em eterno replay. É impossível não sorrir levemente. É de autoria do Rodrigo Sousa.

Peregrino e estrangeiro vou andando para o lar



Nas montanhas e nos vales
És a luz a me guiar

Tempestades e desertos hei de enfrentar
Mas confio nas palavras do fiel
E bom pastor

Sigo avante confiando
Sem temer oque virá
Pois um dia em um instante
Eu irei contigo estar

Ansioso eu espero este dia então chegar
E na pátria gloriosa
Com o Rei irei reinar
Arranjos que nos fazem lembrar prontamente os timbres vintages ultilizados por Gungor na obra “I am montain”. A marchinha empolgante da caixa nos faz ter a sensação de que estamos caminhando ao pôr do sol entre vales alaranjados.
Minha aceitação desta letra foi imediata. Ela me lembra do texto de Hebreus 11, o qual tenho relação visceral já há alguns anos. “Peregrinos, estrangeiros… homens dos quais o mundo não era digno…”. Se tivessem feito apenas esta faixa já valeria o esforço deste texto, com certeza!

MARAVILHOSA CRUZ

Esta canção é uma versão de um dos compositores mais consagrados da história do cristianismo, Isaac Whatts. Não conhecer este nome já é por si só uma ofensa à história do cristianismo. Que esta iniciativa de “contemporanizar” antigas canções seja útil para os mais novos encontrarem os antigos tesouros da música cristã.

Quando entendo a dor da tua cruz



Onde o rei glorioso morreu
Tudo o que tenho eu ponho a perder
Me esvazio prostrado aos teus pés

É impossível não ouvir esta estrofe sensível e harmônica, sem nos lembrarmos do glorioso momento em que o Peregrino, de John Bunyan, alcança o alto do monte, encontra-se com a cruz e sente o fardo pesado soltar-se de suas costas enquanto seus joelhos dobram-se reverentes ao chão.

Ao ver tua face, tuas mãos e teus pés
Dor e amor derramados por mim
Por minha vida que tanto sofreu
Uma coroa então recebeu
Maravilhosa cruz!
Maravilhosa cruz!
Faça-me morrer para saber como viver
Maravilhosa cruz!
Maravilhosa cruz!
Pela graça vou me aproximar e te adorar

Só um cristão pode relatar a tragédia do madeiro e em seguida bradar: “Maravilhosa cruz!” Isto seria inconcebível para qualquer um. A cruz é horrenda e cruel para os olhos sem graça. A menos que o Evangelho faça sentido para você, a cruz jamais terá o sinônimo de “Maravilhosa” em sua oração. Qualquer pessoa preferiria nunca mais se encontrar com a cena terrível da cruz, mas o cristão não consegue abandonar este cenário, não há nada mais belo para ele do que a maravilhosa cruz.

Tudo o que tenho nas mão eu te dou
Pequena e simples oferta de amor
Amor divino, amor sem igual
Enche minh´alma e tudo o que sou

Os efeitos delay da guitarra misturados com o rudimentar toque dos xilofones fazem a canção implorar por uma explosão, o que finalmente acontece. Vontade de sair correndo nessa hora. Vocês precisam colocar essa canção no repertório da igreja de vocês, é sério!

EIS O AMOR, VASTO OCEANO

Canção do hinário tradicional inglês, de Willam Ress, singela, sensível, agradabilíssima! Conta com a participação da voz de Guilherme Andrade. Ficou muito puritana essa canção! Poucos instrumentos. Destaque para os dedilhados dos violinos e cellos! Arranjos de cordas, de forma geral, ficaram top! Eu só queria que esse pessoal independente tivesse grana pra não precisar samplear… de qualquer forma, é o que tem pra hoje, né?!

Eis o amor, vasto oceano



Doce fonte a jorrar
Quando o príncipe da vida
Sangue deu pra nos salvar

Desse amor, quem não se lembra?

Seu louvor, quem cessará? 
Pelos céus, dias eternos
Ninguém dele esquecerá

Sobre o monte do calvário

Larga fonte se abriu
Mar de graça e piedade
Dos portões de Deus fluiu

Graça e amor qual vasto rio

Flui do alto sem cessar
Paz de Deus, pura justiça
Os perdidos veio amar

REINO DO AMOR

Composição do Rodrigo Sousa. A mim, que sou seu amigo já há bastante tempo , fica muito óbvio que ele é o compositor desta canção. Se foi intencional, não sei, mas o autorretrato pintado é inquestionável! Foram incontáveis as vezes que Rodrigo conversou comigo sobre suas crises existenciais… “E eu, perdido e sem direção…” até que um dia tudo foi se encaixando pouco a pouco, pela graça de Cristo. É uma enorme alegria para mim, como brother dele, ver o seu crescimento, amadurecimento artístico que, com certeza, teve bastante influência do Tiago Sampaio, seu novo companheiro de estrada.
Todas as crises se resolvem no fato de que Ele é o Rei. Tudo vai bem, afinal, porque Ele reina sobre nós, com amor.

Há tanta gente buscando um alívio pro seu coração
Muitos na beira da estrada gritando a quem possa escutar
Outros que encontram o caminho e seguem outra direção
E os que gastaram a herança estão retornando ao lar

E eu perdido e sem direção

Tua graça os meus olhos abriu
Teu amor me quebrou e refez
E agora não vivo na escuridão
Eu vivo no reino do amor
Com a vida que Ele me deu

Os xilofones dão todo o ar da graça na ponte. Fazem o arranjo se tornar ainda mais delicado. Mais uma vez influencias de Gungor e, obviamente, Mumford and Sons.

És o Rei
Majestoso (Poderoso)
E outro igual não há

SUA BANDEIRA

Mais uma canção de Rodrigo. Um folk empolgante, violão ritmado, arranjos de palmas e xilofones deixam claro mais uma vez as suas influências. Refrão chiclete e bumbos pulsantes. É o que há de mais empolgante, da perspectiva rítmica, no EP. Umaexcelente forma de encerrar este EP de estreia!

Seu amor se derramou
Lá naquela cruz
Pra que eu possa viver

O seu sangue me lavou

Lá naquela cruz
Pra que eu possa viver

Maravilhosa graça

Tão preciosa graça
Seu infinito amor
Se revelou a mim

Para finalizar minhas palavras, deixo aqui meu apelo para que vocês, líderes de louvor, se arrisquem mais para procurar canções impopulares, porém bíblicas e teologicamente preocupadas. Rogo para que vocês se arrisquem menos com as canções radiofônicas desse pessoal que já cansou de demonstrar sua arrogância e deu provas mais do que o suficiente de que estão nesta pela grana. Poderíamos tocar uma música gospel que seja bíblica? Claro, porém por que se arriscar tanto neste terreno pedregoso e lamacento para achar alguma coisa boa? Vamos buscar nos campos verdes da arte artesanal cristã!

Existe vida após o gospel.
Marco Telles Belohuby
Igreja Presbiteriana do Brasil (Em João Pessoa, bairro dos Estados)
Músico cristão independente que pensa dia sim, dia não, em parar.
DOMONTE
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 domontecontato@gmail.com 
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