Conhecendo Nietzsche: Introdução e niilismo – Ensaio 01

0
841
Want create site? Find Free WordPress Themes and plugins.

Por Matheus Negri

Nos quatro próximos textos de minha coluna passarei a apresentar, de maneira simples e direta, um breve esboço introdutório sobre Nietzsche. São meus apontamentos da matéria de Ética que leciono. Não farei juízo de valor sobre o pensamento de Nietzsche, deixo isso a cargo do leitor. Hoje veremos uma introdução biográfica e o niilismo.

Assine o Blesss
Nietzsche nasceu em Röcken, Alemanha, em 15 de outubro de 1844, filho de uma família de pastores luteranos, foi criado em um ambiente rodeado de mulheres, pois seu pai e irmão faleceram em 1849. Iniciou seus estudos em teologia, mas orientado por Ritschl mudou seus estudos para filologia, principalmente o grego clássico. Devido à originalidade de seus trabalhos foi nomeado, em 1869, professor de filologia na Universidade de Basileia. Ocupou o cargo por 10 anos, sendo aposentado prematuramente devido a uma doença mal diagnosticada.

Receba nossos posts em seu e-mail

Informações relevantes sobre o cotidiano, segundo a ótica cristã. Insira seu email:

Delivered by FeedBurner

Seu interesse por filosofia se deu pela obra O mundo como vontade e representação de Schopenhauer (1788-1860). Em Schopenhauer, Nietzsche encontra as bases para sua crítica à racionalidade e a primazia essencial da experiência estética da música. Seu primeiro livro foi publicado em 1872, O nascimento da tragédia, que o colocou como um pensador importante de sua época. Porém não viveu para ver sua popularização, em 1889 devido a sua doença encerra seus trabalhos acadêmicos e falece em 25 de agosto de 1900, em Weimar.
Sua obra literária é dividida em três períodos:
  • 1870-1876, Pessimismo romântico.
  • 1876-1882, Positivismo cético.
  • 1882-1888, Reconstrução da obra.

Sua forma usual de escrita se dá por meio de aforismos, que são basicamente pensamentos soltos sobre um determinado assunto, que giram em torno de uma frase ou parágrafo. Nietzsche faz parte de uma linha de pensadores que acredita que se deve escrever o que aparece nos pensamentos, pois julga-se que o inconsciente ilumina a razão. Por isso a dificuldade de se entender seu pensamente o motivo de o porquê parecer que o autor fala de todos os assuntos em todos os seus livros. Assim se deseja encontrar ou debater um determinado conceito em Nietzsche a dificuldade se dá em ler todos os seus livros. Outra dificuldade é o caráter “Cult” e “pop” deste pensador, pois após sua morte muitos fragmentos póstumos foram lançados e hoje tem se tudo o que ele escreveu compilado por Giorgio Colli e Mazzino Montinari.
Então devido à complexidade de sua leitura a sugestão mais simples para lê-lo não é em ordem cronológica e muito menos a partir de Assim falou Zaratrusta, esta obra escrita em forma de um evangelho é de extrema complexidade, sugere se começar por Crepúsculo dos ídolos, ou como filosofar com um martelo (1888), para entender sua forma de compreensão do niilismo e da filosofia geral. Depois Para além do bem e do mal e Para a genealogia da moral, onde podemos aprender sobre sua percepção sobre a moral ocidental, para compreender sua visão sobre Cristo e o cristianismo O Anticristo (1888), sua última obra.
Seus interpretes mais famosos são Heidegger, obra chamada Nietzsche escrita em 4 volumes. Foucault, obra chamada Nietzsche, Freud e Marx. Deleuze, Nietzsche e a filosofia. E Derrida, Esporas – estilos em Nietzsche. No Brasil temos vários interpretes de Nietzsche e ele se tornou conhecido devido às leituras de autores franceses. Então a partir dos anos 50 é lido e relido como um profeta da pós-modernidade, um arauto de um novo tempo.
Os polos USP e UNICAMP possuem bons interpretes e no Paraná temos um de renome internacional, Rogério Miranda de Almeida, sua obra sobre Nietzsche já está na 10ª edição na França e 7ª no EUA. Edmilson Paschoal, pesquisador da UFPR e PUC-PR, pesquisa ressentimento e amizade em Nietzsche e Jorge Viesenteiner, professor da PUC-PR pesquisa o niilismo.
Como o pensamento de Nietzsche é denso e complexo precisamos entende-lo por meio de chaves, isto é conceitos principais e a partir deles ler a sua obra. Podemos selecionar o niilismo, a morte de Deus, ressentimento, eterno retorno e vontade de potência. Para nossa classe de ética e teologia vamos nos concentrar em três: niilismo, morte de Deus e ressentimento.
Niilismo
“Niilismo: falta o alvo, falta as resposta ao ‘por quê’?; o que significa niilismo? – que os valores supremos se desvalorizaram”.[i] Niilismo nada mais é do que o esvaziamento dos valores, ou melhor, a perda do sentido primeiro das coisas. Uma vida niilista é uma vida sem um norteador dos valores, um ponto fixo de onde todos os valores provém, uma vida sem sentido. Um exemplo de uma vida niilista seria de alguém que faz o que quer sem se preocupar com nenhum padrão moral, seja para o sexo, vida ou qualquer coisa. Ou como prefere Viesenteiner[ii] a condição niilista é de um desamparo, alguém perdido e sem a ajuda de ninguém. Isto não quer dizer a negação da vida, mas o esvaziamento dela.
Porém na compreensão de Nietzsche é exatamente o contrário. Ele entende o niilismo como deixar de viver a vida em toda a sua potência por um ideal maior. Um exemplo seria a de um cristão que deixa de praticar a poligamia por causa de seu amor a Deus e o cumprimento de sua palavra que o levará para o céu, um lugar que não existe. Em outras palavras o niilismo em Nietzsche é uma crença em um mundo ou ideal futuro e devido a esta crença deixar de viver o momento. Aqui estaria o esvaziamento dos valores.

Nas palavras de Nietzsche, “O niilismo como estado psicológico ocorre, em segundo lugar, quando se tiver colocado uma totalidade, uma sistematização, ou mesmo uma organização, em todo acontecer e debaixo de todo acontecer […]. ‘O bem universal exige o abandono do indivíduo’… mas, vede, não há um tal universal”.[iii] 

E ainda, “A crença nas categorias da razão é a causa do niilismo, – medimos o valor do mundo por categorias, que se referem a um mundo puramente fictício”.[iv]

Desta forma então as filosofias gregas, cristãs e modernas seriam manifestações deste niilismo, pois todas elas implicam em um mundo ideal. Em Platão há o mundo ideal, uma separação radical entre o material e o imaterial. Um deus do meio, Demiurgo, contempla as coisas perfeitas no mundo das ideias e cria no mundo material, imperfeito, sombras do que é perfeito. Assim o bem, o belo, a verdade estão no mundo das ideias e ao homem cabe impor a si mesmo duros padrões para que o que é imaterial em si domine o corpo material, que é mal.
Mesmo Aristóteles que é materialista e, contrariando seu mestre Platão, não concebe um mundo ideal, mas somente o cosmos onde o ser humano está inserido mantém o mesmo esquema. O cosmos é ordenado e tudo o que existe deve se acertar conforme o que está predeterminado, e basta ao homem tomar o seu lugar. O cristianismo cairia no mesmo problema, o marxismo e a luta das classes e o ideal de uma única classe também. Tudo o que acredite em abrir mão no presente por um ideal futuro é nada mais nada menos do que o niilismo.
Heidegger assevera ainda que o niilismo não só um estado ou momento, nem a crise de alguma coisa, como uma substância ou algo criado, mas é parte da história do ocidente, engendrado nela. Serio o niilismo a própria história do ocidente, ou melhor, o ocidente é a história do niilismo. O niilismo é o motor que move a nossa história.

Alguns fragmentos de Crepúsculo dos ídolos:
“Sócrates foi um mal-entendido; a inteira moral-da-melhoria, também a cristã, foi um mal-entendido… A luz do dia mais crua, a racionalidade a todo o preço, a vida clara, fria, cautelosa, consciente, sem instinto, oferecendo resistência aos instintos era, ela mesma, apenas uma doença, uma outra doença – e de modo nenhuma um caminho de retorno à ‘virtude’, à ‘saúde’, à felicidade… Ter de combater os instintos – eis a formula para a décadence: enquanto a vida se intensifica, felicidade é igual a instinto”.[v]

“Os fundamentos, em vista dos quais ‘este’ mundo foi designado como aparente, funda, em vez disso, sua realidade – uma outra espécie de realidade é absolutamente indemonstrável”.[vi]
“Dividir o mundo em um ‘verdadeiro’ e um ‘aparente’, seja ao modo do cristianismo, seja ao modo de Kant (de um cristão capcioso, em última instância) – é somente uma sugestão de décadence – um sintoma de vida declinante…”.[vii]
“Denominar o amansamento de um animal a sua ‘melhoria’ é, ao nossos ouvidos, quase uma piada”.[viii]

NOTAS
[i] NIETZSCHE, Fiedrich. Fragmentos Póstumos 1885-1887, V.6. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013, p. 16 (27).
[ii] VIESENTEINER, Jorge. Nietzsche e o niilismo como diagnóstico da crise da ética. In: CANDIOTTO, César (Org.). Ética: abordagens e perspectivas. Curitiba: Champagnat, 2011, p. 114.
[iii] NIETZSCHE, A vontade de potência (1884-1888), 12 A.
[iv] NIETZSCHE, A vontade de potência (1884-1888), 12 B.
[v] NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos (1888), I 11.
[vi] NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos (1888), II 6.
[vii] NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos (1888), II 6.
[viii] NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos (1888), II 2.

***
NAPEC

Did you find apk for android? You can find new Free Android Games and apps.

SUA RESPOSTA

Por favor, faça seu comentário
Por favor, coloque seu nome aqui