Agostinho e o problema do mal – da conversão ao neoplatonismo

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Por Matheus Negri

No ensaio passado vimos como o maniqueísmo influenciou Agostinho em sua resposta ao problema do mal. Certo que esta influência não foi necessariamente positiva, mas o ajudou a combater tamanha heresia. Hoje veremos sua conversão e o encontro com os autores neoplatônicos.

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As respostas dos maniqueus não saciaram completamente as dúvidas e anseios de Agostinho. E depois de um encontro decepcionante com Fausto, notável líder maniqueu, que não se mostrou apto para responder as questões que tanto o perturbavam. Como cita o próprio bispo de Hipona: “logo que transpareceu com suficiente clareza a imperícia de Fausto nestas ciências que o julgava eminente, comecei a desesperar de sua capacidade para me esclarecer e desfazer as dificuldades que embaraçavam meu espírito” (AGOSTINHO, 2004, p. 130). A partir deste momento começou a se desiludir da seita maniqueísta. E a questão do mal ainda não se dava por satisfatoriamente resolvida, e é neste momento que o bispo de Hipona tem contato com a doutrina neoplatônica e com Bispo Ambrósio de Milão.
Agostinho assume a cátedra na cidade de Milão e lá conhece o bispo Ambrósio, que era muito famoso por sua capacidade intelectual e piedade cristã. O filósofo africano se pôs a ouvir os sermões do bispo e a partir deles começou seu caminho para a cristandade, pois o método alegórico usado por Ambrósio parecia satisfatório para o estudo e compreensão das Sagradas Escrituras. Nas palavras do próprio Agostinho (Ibid., p. 141):

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Enquanto abria o coração para receber as palavras eloquentes, entravam também de mistura, pouco a pouco, as verdades que ele pregava. Logo comecei a notar que estas se podiam defender. Já não julgava temerárias as afirmações da fé católica, que eu supunha nada poder retorquir contra os ataques dos maniqueus. Isto conseguiu-o eu por ouvir muitíssimas vezes a interpretação de textos enigmáticos do Velho Testamento, que, tomados o sentido literal, me davam a morte. Expostos assim, segundo o sentido alegórico, muitíssimos dos textos daqueles livros, já repreendia o meu desespero, que me levava a crer na impossibilidade de resistir àqueles que aborreciam e troçavam da lei e dos profetas.

Ao ouvir os sermões e conversar com Santo Ambrósio o autor das Confissões pode se aproximar cada vez mais do cristianismo católico e também foi despertado o seu interesse em uma questão que até o momento lhe era desconhecida: o conceito de substância espiritual. Ponto que lhe foi muito importante para refutação do maniqueísmo. Assim Agostinho (2005, p. 142) se põe como um catecúmeno na Igreja católica e refuta o maniqueísmo. Como apresenta o santo:

Determinei abandonar os maniqueístas, parecendo-me que não devia, nesta crise de dúvida, permanecer naquela seita à qual já antepunha alguns filósofos. […] Por isso, resolvi fazer-me catecúmeno da Igreja católica, à qual os meus pais me tinham inclinado, até vir alguma certeza e elucidar-me no caminho a seguir.

Porém, mesmo aprendendo de Ambrósio a existência de uma substância espiritual, Agostinho, não conseguia responder as questões que incomodavam seu coração, não havia resolução para todas, inclusive ao problema do mal, que até este momento já o perturbava por anos. A questão se tornará por de mais complexa, pois segundo a fé católica Deus é o criador de todas as coisas, a única fonte ontológica de tudo, e criador ex nihilo, do nada (Cf. AGSOTINHO, 2004, p. 140, 172). Contrariando o argumento herege dos maniqueístas de duas forças ontológicas o bem e o mal. Então seria possível Deus ser o criador do mal, já que todas as coisas provem Dele? Esta era a questão que perturbava o bispo de Hipona, “Ele é bom e, por conseguinte, criou boas as coias. […] Onde está, portanto o mal?” (Ibid., p. 177).
Nesta época, em Milão, Agostinho entra em contato também com o neoplatonismo, e afirma deste modo: “deparastes-me por intermédio de um certo homem, intumescido por monstruoso orgulho, alguns livros platônicos, traduzidos do grego em latim” (Ibid., p. 183). Que serviu de alicerce para muitas de suas doutrinas inclusive para responder ao problema do mal.
Para Agostinho, seu encontro com tais doutrinas é decisivo para a sua construção de uma resposta ao problema do mal, já que o que lhe faltava era um conhecimento em metafísica, que adquiriu com os neoplatônicos. Destes o que mais lhe influenciou foi Plotino, que teve sua obra, Enéada, traduzida para o latim por Mario Victorino. O encontro que Agostinho teve com esta tradução foi fundamental para a formulação de todo o seu pensamento, continuando a o influenciar após sua conversão. Agostinho (Ibid, p. 183) chega a dizer que deve aos neoplatônicos a compreensão do Verbo e sua iluminação:


Neles li, não com estas mesmas palavras, mas provado com muitos e numerosos argumentos, que ao princípio era o Verbo e o Verbo existia em Deus e Deus era o Verbo: e este, no princípio, existia em Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada foi criado. O que foi feito, n’Ele é vida, e a vida era a luz dos homens; a luz brilha nas trevas e as trevas não a compreenderam. A alma do homem, ainda que dê testemunho da Luz, não é, porém, a Luz; mas o Verbo – Deus – é a Luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo.

Gilson coloca Plotino como o autor que mais influenciou o neoplatonismo latino, e desta forma o próprio Agostinho que é tido como um influente pensador neoplatônico (Cf. GILSON, 1965, p. 119). Sobre Plotino sabe-se que nasceu em Licópolis, no Egito, no ano de 205. No ano de 244, com quarenta anos, funda em Roma uma escola de filosofia que teve funcionamento por vinte e cinco anos, falece no ano de 270. Seu trabalho é reunido por Porfírio, do qual foi mestre, num conjunto de nove tratados denominados Enéadas. Sua academia tinha por objetivo ensinar os homens a libertar-se deste mundo com a finalidade de unir-ser ao divino e nele deleitar-se até a união completa. O que parece, ao contrário das academias formadas pelos grandes filósofos que o precederam, a academia de Plotino possuía um caráter muito mais religioso e místico (Cf. REALE, 2008, p. 14,15,18).
Segundo Gilson (Cf. 1965, p. 120), a influência de Plotino no pensamento de Agostinho se dá principalmente pela definição do ser humano, que já se encontra em Platão, no diálogo Alcebíades, a qual demonstra uma hierarquia onde a alma é superior ao corpo, é a alma que vivifica o corpo lhe proporcionando vida. Definindo assim que da relação entre alma, corpo e mundo exterior as sensações são ações que a alma exerce sobre o corpo, que tem por objetivo informar e julgar as necessidades do corpo e sobre o mundo que o rodeia.
Sobre a relação entre alma e corpo, Plotino segundo Reale (2008, p. 105, 109), afirma uma tripartição que são nada menos do que potencias da alma, onde o primeiro homem é a parte da alma que tangencia Espírito, o segundo homem é o pensamento discursivo que faz o meio entre o inteligível e o sensível, e por fim o terceiro homem é a parte da alma que vivifica ou anima o corpo. Das funções da alma, alma aqui a que anima os corpos, atribui também a faculdade da imaginação e memória. Onde somente a alma é capaz de recordar, e não o corpo, pois este é a causa do esquecimento, assim a memória possui uma relação com a temporalidade.
Ainda sobre a alma, o filósofo diz que ela encontra em si mesma o conhecimento sobre os objetos. O aprendizado da verdade não se dá pelo conhecimento empírico, mas sim a priori. A mais alta atividade da alma está na sua liberdade, segundo indica: “No Absoluto a liberdade (absoluta) coincide com a volição do Bem (absoluto) ou com o querer ser com o Bem (absoluto)” (REALE, 2008, p. 111). Assim deve ser a liberdade para o ser humano, espelhando a liberdade do Absoluto. A liberdade humana consiste em se por na direção do Bem, a liberdade então se torna a mais alta virtude. Dirigir-se ao Uno, ou correr em direção ao Bem, é a reunificação com o Uno, que só será possível quando a alma se despojar de todo desejo. Este ato de purificação tem por significado separar a alma de todas as outras coisas que possam intervir neste caminho, deixa-la só (Cf. PLOTINO, 1948, p. 185).
Quanto à questão do mal desenvolve seu pensamento seguindo Platão que considerava o mal um não ser. Plotino (2006, p. 331) afirma que o mal é uma deficiência total do ser, uma corrupção, e o identifica com a matéria que é um não ser. Nas palavras do filósofo:

O mal não consiste numa deficiência parcial, mas em uma deficiência total: a coisa que falta parcialmente ao bem é má e pode também ser perfeita em seu gênero. Mas quando há deficiência total, como na matéria, então existe o verdadeiro mal, que não tem parte alguma de bem. A matéria não tem sequer o ser que lhe torna possível participar do bem: pode-se dizer que esta exista somente e um sentido ambíguo; na verdade a matéria é o próprio não ser.

A matéria, pelo filósofo, é tida como a negação absoluta de toda a forma, uma realidade indeterminada e indeterminável, esta matéria é uma imagem do inteligível, e como cópia se afasta do ser do original, desta forma está mais no mal do que no bem. Como dito por Plotino (Ibid, p. 189):



Nem alma, nem intelecto, nem vida, nem forma, nem razão, nem limite, (já que é ausência de limite), nem potência (pois o que poderia criar?). Privada como é de todos os caracteres, não pode sequer ser-lhe atribuído o ser no sentido, por ex., em que se diz que há movimento ou repouso; a matéria é verdadeiramente o não ser, uma imagem ilusória da massa corpórea e uma aspiração à existência.

Em Sobre o que são e de onde vêm os males, Plotino, identifica a matéria como à essência do mal, um não ser, e de forma alguma uma contra força, um ente, contrário a natureza do bem. De maneira alguma sendo um oposto com efeitos contrários ao ente (Cf. PLOTINO, 2006, p. 334). Vimos até o momento o mal em sua composição metafísica, mas devemos nos perguntar como o filósofo identifica o mal no agir humano, o mal moral.
Quanto ao mal moral, para Plotino, ele está na relação entre alma e matéria. De que o desejo da alma em se relacionar com a matéria, de se autoafirmar a afastaria do inteligível e tornaria cada vez mais próxima da matéria. Nas palavras de Plotino (2006, p. 698)

Assim, a alma parcial é iluminada ao voltar-se para o que é anterior a ela – porque se encontra com o ente -, ao passo que, voltando-se para o que vem depois dela, volta-se para o não-ente. Faz isso quando se volta para si mesma; porque, querendo voltar-se para si mesma, cria o vem depois dela como imagem de si mesma, corno se adentrasse o vácuo do não-ente e se tornasse mais indeterminada. E a imagem totalmente indeterminada dessa imagem é obscura: pois é totalmente irracional e ininteligível e muito afastada do ente. Voltada para a região intermédia, está onde lhe é apropriado, mas, olhando novamente sua imagem, como num segundo relance, a formata e, regozijando-se, a adentra.

E desta forma ainda Plotino (2006, 120) afirmava:

As almas, então, como não veem àquele [deus] nem a si mesmas, menosprezando a si mesmas por ignorância de sua estirpe, prezando as outras coisas e admirando a todas mais do que a si mesmas, […]; desse modo, resulta que a causa do sua completa ignorância daquele é seu apreço pelas coisas daqui e o menosprezo por si mesmas.

Demonstrando de maneira clara que a origem do mal moral se dá pelo movimento contrário da alma, a qual não se dirige para o Uno e sim para as coisas matérias desta vida, não cumprindo com a sua liberdade que foi apresentada acima.
Depois de conhecer suas influências, o maniqueísmo e o neoplatonismo, vamos agora verificar como o filósofo africano desenvolveu sua resposta ao problema do mal e sua relação com a vontade humana.
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