Livre exame ou interpretação? (Ou ainda ‘O que determina o sentido de um texto?’)

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Por Jonas Madureira
O processo de interpretação ou de descoberta do sentido do texto possui três elementos fundantes: o autor, o texto e o leitor. O autor escreve um texto, o leitor lê e interpreta. Porém, qual dos três é fundamento último de determinação do sentido? A história da hermenêutica mostrou que a modernidade abraçou o autor e negou o texto como fundamento último de determinação do sentido. Porém, com o passar do tempo, descobriu que Schleiemacher e Dilthey estavam equivocados, o sentido da interpretação não pode ser determinado pelo autor. Hoje, mais uma vez o texto é deixado de lado. E, então, a bola da vez ficou com o leitor. Será que ele dá conta?

O leitor sente uma subversiva alegria em poder produzir ou criar um sentido para o texto original.
Robert Detweiler

Seja por causa de nossas limitações ou de nossa preguiça, frequentemente falhamos em cobrir a distância que nos separa do texto bíblico, e é isso o que nos causa problemas.
Moisés Silva

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Recentemente, uma professora de teoria literária da UNICAMP propôs a seus alunos que produzissem um texto para ser entregue na próxima aula. Como o combinado, os alunos trouxeram seus textos. Então, a professora deu-lhes uma nova tarefa: cada um deveria trocar seu texto com um colega, ler em casa e, na próxima aula, apresentar sua interpretação do texto. Chegado o dia, a professora pediu para que um dos alunos apresentasse sua interpretação. Um deles se levantou e sem nenhuma cordialidade, e também sem nenhuma coerência, começou a criticar cada frase do texto de seu colega, mostrando supostas falhas. O colega, indignado, na mesma hora reagiu, dizendo: “Espera aí! Eu não disse isso! Você está colocando palavras em meu texto!”. A professora imediatamente o interrompeu e lhe disse: “Fique quieto! Ele está interpretando o seu texto. Vamos ouvi-lo até o fim”. Na mesma hora, o rapaz se calou e continuou ouvindo silenciosamente as críticas ácidas de seu colega. Fico imaginando o que se passava em sua cabeça: “Vou esperar ele terminar a interpretação de meu texto e depois mostrarei que sua hermenêutica está completamente equivocada”. Quando seu colega terminou de apresentar a interpretação, ele imediatamente se pôs a refutar, no que a professora novamente o interrompeu, dizendo: “Fique quieto! Você vai aprender hoje que o leitor é soberano. Ele é quem dá o sentido último do texto. O sentido não é dado nem pelo seu texto nem por você mesmo. Meu caro autor, o leitor é soberano”.
Esse caso verídico nos coloca novamente diante do desafio de ter que responder aquela velha pergunta: afinal, o que determina o sentido de um texto? Pense bem antes de responder essa pergunta, pois a sua resposta inevitavelmente revelará o tipo de hermenêutica que você pressupõe. Por exemplo, se você disser que o que determina o sentido de um texto é algo que está inexoravelmente atrelado ao texto, então, seus pressupostos correspondem com os de uma hermenêutica realista. Agora, se você disser que o responsável pela determinação do sentido de um texto é o leitor, então, sua maneira de interpretar um texto corresponde com os pressupostos de uma hermenêutica não realista, uma vez que o ônus da interpretação recai sobre o sujeito que interpreta. Em outras palavras, aqueles que defendem uma hermenêutica realista acreditam que há algo que antecede ao intérprete; algo que está atrelado ao texto e que deve ser conhecido, captado, apreendido pelo intérprete. Já aqueles que defendem uma hermenêutica não realista acreditam que o sentido de um texto é um construto da mente, é algo fixado, produzido, dado pelo leitor, e ponto; portanto, não é possível afirmar a objetividade do sentido, pois tudo depende da perspectiva do leitor.
O modo que escolhi para interpretar – não só os textos que leio mas o mundo em que vivo – está respaldado em uma hermenêutica realista. Portanto, você já sabe que resposta eu daria a pergunta “Afinal, o que determina o sentido de um texto?”. Entendo que o fundamento do conhecimento de qualquer coisa está além do sujeito que conhece. De fato, não tenho nenhuma inclinação para crer que o mundo é minha representação ou um construto de minha mente. Por isso, não posso aceitar que o sentido de um texto seja apenas um artefato produzido pelo sujeito que interpreta. Ora, negar a realidade ou objetividade do sentido é, ao meu ver, negar toda e qualquer possibilidade de se advogar a verdade sobre o que se lê, o que se diz e o que se faz. Ou seja, uma opção hermenêutica tem implicações não só linguísticas, mas também éticas. Você já pensou o que seria de nós se o código civil ou penal fosse arbitrado pelo sentido dado pelo leitor? Não mais haveria aquilo que finaliza um processo jurídico: a “coisa julgada”. Imagine outro contexto. Por exemplo, imagine se essa moda pega na igreja “evangélica” brasileira? Se hoje o povo “evangélico” já interpreta os textos sagrados com enorme desleixo e falta de rigor, quem dirá se argumentarmos a favor de um livre arbítrio do sentido?
Minha gente, livre exame não é livre interpretação! Os teólogos da reforma não pregavam uma espécie de “vale tudo” na leitura da Bíblia. Pelo contrário, eles diziam que agora que temos o texto em mãos, i.e., em nossa língua, podemos nos atrelar mais do que nunca ao texto para alcançarmos nele o sentido verdadeiro que a palavra de Deus quer comunicar. Não sou um teólogo liberal, ou seja, não advogo o pressuposto de uma leitura neutra ou cientificista das Escrituras. Pelo contrário, não acredito que esse pressuposto seja justo e verdadeiro com a Bíblia ou qualquer outro livro. E o motivo é bem simples: é impossível ler um texto sem que, de alguma forma, nossos pressupostos influenciem nossa interpretação. Portanto, não dá para interpretar a Bíblia neutralmente, mas daí dizer que o subjetivismo do leitor deve determinar o sentido de um texto é demais da conta.
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do site do autor, Jonas Madureira.
Título original: O LEITOR E O SENTIDO DO TEXTO
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