Sete elementos essenciais para uma igreja bíblica

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Por José Bernardo
Acabo de ver um vídeo em que um grupo de ‘animadores de auditório’ no palco de uma conhecida igreja, faz um carnaval sacudindo a Bíblia e gritando com a galera: ‘o poder está na Palavra’. O primeiro pensamento que tive é que, se de fato o poder está na Palavra, o melhor a fazer seria sentarem-se todos para estuda-la e receber esse poder. Mas não! Para essa geração, a Bíblia é apenas um item religioso, uma espécie de patuá. Algo para dar sorte.


Eu me lembro de estar em uma igreja para pregar e passar pelo quadro de avisos para conhecer um pouco de suas atividades. Um cartaz convidando os juniores para a escolinha de futebol estava enfeitado com o versículo “Fazem sair as suas crianças, como a um rebanho, e seus filhos andam saltando.” Jó 21:11. Conhecendo Jó, vi que havia algo errado. Abri a bíblia e quatro versículos acima vi que o texto se referia aos ímpios e três versículos abaixo está escrito sobre eles: “E, todavia, dizem a Deus: Retira-te de nós; porque não desejamos ter conhecimento dos teus caminhos.” Jó 21:14. Outra vez, precisei rejeitar pregar em um grande evento porque o tema escolhido era: “E disse o Senhor a Samuel: Eis que vou fazer uma coisa em Israel, a qual todo o que ouvir lhe tinirão ambos os ouvidos.” 1 Samuel 3:11. Aqueles irmãos esperavam que Deus fizesse coisas maravilhosas mas a promessa de Deus era de um terrível e doloroso julgamento contra o pecado. O que quero dizer é que nem toda a igreja que sacode a Bíblia no púlpito é uma igreja bíblica. É preciso entender que falar sobre a Bíblia não é falar a Bíblia.

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Nós fomos chamados para sermos servos da Palavra. Lucas disse que foram pessoas assim que transmitiram o Evangelho desde o início: “…conforme nos foram transmitidos por aqueles que desde o início foram testemunhas oculares e servos da palavra.” Lucas 1:2. Ensinando que os pregadores não deveriam ser destacados, Paulo diz: “Portanto, que todos nos considerem como servos de Cristo e encarregados dos mistérios de Deus.” 1 Coríntios 4:1. Em ambas as referências o termo usado para servos é hyperetes, que significa literalmente ‘o remador que fica embaixo’, uma referência aos escravos ou empregados de menor importância que manejavam os remos no piso inferior dos grandes barcos. Lucas e Paulo mostraram que é a Palavra de Deus que deve ser destacada, tanto em que o pregador apenas repita o que ela diz, sem impor suas próprias ideias, como em que a atenção das pessoas se concentre na Palavra e não no pregador.
Percebo que sete elementos são essenciais para que uma igreja possa ser realmente bíblica e não apenas sacudir a Bíblia por ai: a) Lectio continua, b) teologia bíblica, c) estudo indutivo, d) pregação expositiva, e) aplicação bíblica, f) evangelização total e g) discipulado comum.
a) Lectio continua – um dos maiores problemas que a igreja enfrenta é a fragmentação do conhecimento bíblico. É um efeito típico do excesso de informação de nosso tempo, as pessoas saberem de tudo um pouco e nada completamente. Mas, quando isso chega na Bíblia, é como se as pessoas tivessem um caminho para o céu sem as pontes sobre diversos abismos. A leitura contínua da Bíblia deve minimizar essa fragmentação e dar uma visão espiritual sólida e completa. Essa leitura contínua deve ser vista no estímulo à leitura devocional em sequência e ao estudo e pregação de livros inteiros da Bíblia.
b) Teologia bíblica – precisamos reconhecer que a Bíblia não foi escrita com a intenção de gerar sistemas doutrinários e dogmas. As coleções de versículos isolados que compõem a suposta base para sistemas doutrinários são sínteses que geram verdades secundárias, não inspiradas, heresias que iludem, segregam e desviam os crentes da Verdade que liberta. A revelação divina foi dada em cada situação na medida necessária para gerar uma atitude, um comportamento, uma mudança, a regeneração. Portanto, ao lermos a Bíblia hoje, devemos buscar a essência daquele ensino, com a intenção de que nosso próprio comportamento seja modelado por ele. 
c) Estudo indutivo – a alegorização das Escrituras é um vício que escraviza pregadores e igrejas de todas as denominações. As pessoas atribuem significados ao texto que não estão ali, que não fizeram parte da revelação divina. Isso é somente a ponta do iceberg. No fundo há a adoção da metodologia que a ciência privilegia: partir de fatos que se observam para encontrar sua explicação na Bíblia. Desse modo geram-se ideias do tipo ‘o dinheiro é bom, então a pessoa que tem dinheiro foi favorecida por Deus’, e juntam-se versículos para corroborar essa ‘verdade’. No método indutivo, sabendo que a Palavra de Deus é a Verdade, antes de pretender saber qualquer coisa, tomamos cada ensino bíblico sobre o dinheiro para aplicar a verdade à nossa vida. Aprendemos então, por exemplo, a evitar o amor ao dinheiro por ser essa a raiz de todos os males (1Tm 6:10).
d) Pregação expositiva – essa é a melhor forma de apresentar o estudo indutivo das Escrituras. Na pregação expositiva o pregador é dirigido pelo texto, de modo que ele não diz o que pensa ou o que quer, mas apenas o que o texto diz. A principal motivação da pregação expositiva é a reverência ao texto bíblico como a Palavra de Deus. Quando tanto o pregador como os ouvintes reverenciam a Palavra, há um grande prazer em simplesmente ouvi-la e deixar que ela produza seu poderoso efeito libertador na mente através da construção da fé. Um bom exemplo da pregação expositiva está no capítulo 8 de Neemias, e o seguinte versículo descreve bem a função e o propósito do pregador: “Leram o Livro da Lei de Deus, interpretando-o e explicando-o, a fim de que o povo entendesse o que estava sendo lido.” Neemias 8:8
e) Aplicação bíblica – mesmo a pregação expositiva pode se tornar estéril, no entanto. As pessoas podem simplesmente entrar, sentar, ouvir e sair sem deixar que a Palavra de Deus as modifique. É lógico que isso será falta de reverência, antes de tudo, falta de temor. Mas a falta de ênfase e de recursos para a aplicação bíblica também contribuiu para isso. É preciso trazer a Bíblia para o dia a dia das pessoas, mostrar como o texto estudado se aplica nas situações cotidianas. Um instrumento para isso são as chaves de aplicação bíblica que ajudam a extrair a aplicação pessoal do texto. Embora a aplicação bíblica deva estar inserida na pregação de domingo, ela deve se tornar um hábito de todos os crentes, como em Jesus que vivia sob esse lema: ‘Para que se cumpram as Escrituras’. 
f) Evangelização Total – a grande comissão, especialmente conforme Marcos, estabelece a missão da igreja como sendo a pregação da Palavra. Quatro indicadores estão implícitos ou explícitos e medem o grau de comprometimento da igreja com sua missão bíblica: todo crente, indo por todo mundo, pregando todo o Evangelho, a toda criatura. Essa plenitude no cumprimento da missão bíblica de pregar o Evangelho deve ser continuamente estimulada e perseguida como meta de qualidade ministerial. É uma Igreja frutífera que glorifica a Deus.
g) Discipulado comum – o discipulado se formalizou e se resumiu a sequências de estudos bíblicos. Não parece que isso reflete a ordem de Jesus para fazer discípulos e ensiná-los a obedecer. O discipulado que depende de uma revistinha não é suficiente. Precisamos de um discipulado que resulte da vida comunitária, dos vínculos da paz, do relacionamento entre os irmãos. Primeiro é preciso estimular os relacionamentos, ao passo em que se ensina os crentes a importarem-se uns com a santidade dos outros. 
Fala-se muito de sermos como a Igreja Primitiva e cita-se Atos 2:42-47 et al. A Igreja Primitiva foi resultado de uma história e de uma geografia que não podemos repetir, mas a Palavra de Deus tem os princípios que devemos por em prática hoje. O que, sim, podemos fazer é sermos uma Igreja verdadeiramente bíblica.
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