Os dilemas da novidade

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Breve ensaio sobre a fé na adolescência

Mais de três quartos da Igreja Evangélica Brasileira é
formada por pessoas que se converteram antes dos 24 anos de idade, conforme
pesquisa que realizei e validei a partir de 2005. É isso que me levou a
concentrar esforços na pesquisa e desenvolvimento da evangelização para essas
faixas de idade que denominei SUPER20. Um diversificado conjunto de fatores faz
com que o cérebro de crianças, jovens e principalmente dos adolescentes permita
a abertura da porta da fé e da conversão e faça deles os campos prontos para a
colheita. Um elemento marcante dessa realidade é a propensão para a novidade que,
infelizmente, também produz um elevado índice de desvio da fé, principalmente no
início do ensino médio e na entrada da universidade. Entre conversão e desvio estão os dilemas da novidade e aqui apresento cinco deles.

O dilema da experiência. A falta da memória de
experiências significativas não condiciona o adolescente a um apego fisiológico
com as crenças: elas não definem sua história. Por outro lado, há um impulso para
a busca de novas vivências que, então, serão usadas para compor a identidade. O
adolescente se caracteriza por uma grande fome de experiências e isso o leva ao
cristianismo. Olhando assim, é fácil perceber o problema que é levar a geração
que nasceu na Igreja a experimentar a novidade de algo que se tornou rotina. O dilema
está em que que um cristianismo que não possa ser experimentado não será
atraente, mas um cristianismo apenas sensorial não é genuíno.
O dilema do risco. O sistema neurológico de satisfação
exige o risco que se encontra nas coisas novas para obter a gratificação
química que traduzimos como satisfação. A tensão entre o novo e o antigo que
caracteriza todas as propostas revolucionárias oferece essa oportunidade aos
adolescentes e eles a buscam intensamente. Deixar tudo para seguir Jesus,
enfrentar as dores e os desafios de tomar a cruz e segui-lo, sofrer por amor,
enfrentar o desconhecido e buscar uma nova vida pode ser um apelo muito mais
significativo para adolescentes do que para adultos. Quando os adultos
constroem o cristianismo de estabilidade e conforto que eles querem, fazem-no desinteressante
para os mais jovens.
O dilema da contradição. Adolescentes têm o benefício
divino de praticamente zerarem sua identidade infantil e poderem reconstruí-la
com suas próprias opções. Nesse processo, questionam o universo adulto e se
opõem a muito do que os pais têm a oferecer. Os adolescentes querem ser
diferentes e podem até optar por um sistema de crenças ou por uma comunidade de
fé diferente da de seus pais. No passado isso tornou-se uma oportunidade para filhos
de católicos ou espíritas encontrarem o cristianismo bíblico. Hoje, o mesmo
processo de individuação pode estar levando os filhos dos crentes ao ceticismo.
O dilema da tecnologia. A tecnologia é o ambiente da
inovação. Não é exatamente as coisas que fazemos que mudam, mas o modo como as
fazemos. Ainda sem muito conteúdo e sem ter o que inovar nas coisas que devem
ser feitas, os adolescentes se concentram na tecnologia e, por isso, a dominam mais
facilmente do que os adultos. Aplicada à fé, essa configuração vai produzir uma
religiosidade muito mais da aparência do que da essência, mais do processo do
que do resultado, mais do discurso do que do caráter. Infelizmente muitos
líderes têm procurado seduzir os adolescentes para essa novidade da forma, mas
sabemos que ela é inaceitável – é uma figueira sem frutos.
O dilema da aprendizagem. Concordo com que nas
pré-modernidades os mais novos aprendem dos mais velhos; nas modernidades os
mais velhos e os mais novos aprendem juntos; nas pós-modernidades os mais novos
ensinam os mais velhos. Esse é o momento da tecnologia e produz uma grande
suspeita contra os mais velhos e qualquer coisa que eles tenham a dizer. Seus
ensinos parecem, aos adolescentes, retrógados, reacionários, inválidos,
ultrapassados e anacrônicos. A transmissão de conceitos perenes fica
prejudicada e a manutenção das instituições se torna impossível. Esse processo
desconstrutivo ameaça a integridade da família, da escola, do governo e da
Igreja.
Considerando tais dilemas, entendo que na evangelização
de adolescentes, filhos de crentes ou não, a solução tem que estar em que o
cristianismo se refere à novidade, como Paulo o descreveu muito bem: “Portanto, fomos sepultados com ele na morte
por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos
mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova.”
Rm 6:4.
A vida cristã é nova quando comparada com o velho homem e, embora jovens,
adolescentes são ‘velho homem’ e esse é o ponto de partida. No aspecto da
mensagem que pregamos, Jesus traduziu a novidade do Evangelho na fórmula que
utilizou seis vezes no capítulo 5 conforme Mateus: “Vocês ouviram o que foi dito… Mas eu lhes digo…” Mt
5:21-22. A novidade é retornar ao princípio, à essência. As sínteses com que a
vaidade do velho homem corrompe o entendimento das Escrituras fazem a mesmice religiosa
mesmo para os adolescentes, e o verdadeiro Evangelho se opõe a ela como
novidade. Entender isso nos permite oferecer aos adolescentes de hoje o
Evangelho de sempre, novo, nunca herético, nunca outro Evangelho.
………….
José Bernardo é pastor, pesquisador, escritor, estrategista de evangelização e conferencista. Fundou e preside a agência missionária de mobilização evangelística AMME Evangelizar.
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