Cafarnaum

0
544
Want create site? Find Free WordPress Themes and plugins.

Esgotamento V: breve ensaio sobre
como Jesus lidou e venceu as ameaças do Esgotamento em seu ministério
intensivo, oferecendo um exemplo a ser imitado por seus discípulos.

Por José Bernardo
Haveria obreiro com mais risco de ser atingido pela
Síndrome do Esgotamento Ministerial do que Jesus, que se encarregou de levar
sobre si os pecados de toda a humanidade? No ensaio ‘Horebe’ mostrei que o zelo
(ciúme) é a causa do primeiro estágio do esgotamento, a euforia. Sobre isso, no
episódio da purificação do Templo, os discípulos entenderam que o verso 9 do
salmo 69 se referia a Jesus: “O zelo
pela tua casa me consumirá”
Jo 2:17. Também mostrei como a carência,
isso é, não receber o resultado esperado provoca a aversão, e podemos ver como
Jesus resumiu seu esforço e o resultado que obteve, no final do ministério: “Jerusalém, Jerusalém, você, que mata
os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os
seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas
vocês não quiseram.”
Mt 23:37. Marcos também nos relata como Jesus
enfrentou o isolamento, “Disse-lhes
Jesus: “Vocês todos me abandonarão. Pois está escrito: ‘Ferirei o pastor,
e as ovelhas serão dispersas’.””
Mc 14:27, e a depressão, “…e começou a ficar aflito e angustiado.” Mc
14:33. Percebendo isso, torna-se mais claro e mais valioso o ensino sobre Jesus
em Aos Hebreus: “…pois não temos um
sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém
que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado.”
Hb
4:15. Depois de haver tomado Elias como exemplo nos ensaios anteriores, olho
agora para quatro eventos na vida de Jesus em que ele lida com os riscos do Esgotamento
e nos dá o exemplo que devemos seguir.

Assine o Blesss
Jesus identificou sua missão. Marcos se propôs a
apresentar a pessoa de Jesus como recurso definitivo para fortalecer a Igreja
em Roma quando Paulo e Pedro foram assassinados. Um dos recursos que usou foi
ilustrar um dia no início do ministério de Jesus (Mc 1:21-39). O relato começa
no início de um sábado, com Jesus ensinando na sinagoga em Cafarnaum,
expulsando um demônio e deixando todos admirados. Segue com a cura da sogra de
Pedro e depois, com o fim das restrições do sábado, toda a cidade reunida na
porta da casa e Jesus curando, expulsando demônios e se tornando muito popular.
Foram todos dormir e Marcos leva os leitores ainda através da madrugada de
domingo. Jesus se levantou sem acordar ninguém e foi a um lugar ermo para orar.
Estimo que tenha orado por pelo menos quatro horas enquanto os discípulos
despertavam, a multidão se reunia, e todos procuravam Jesus até encontra-lo.
Identifico naquele momento em que os discípulos encontraram Jesus três
componentes que poderiam pressioná-lo à euforia e colocá-lo na rota do
Esgotamento: a insistência dos amigos, o sucesso obtido e a necessidade das
pessoas. Quatro horas de oração, no entanto, buscando saber a vontade do Pai,
permitiram a Jesus rejeitar às pressões e dizer: “Vamos para outro lugar, para os povoados vizinhos, para que
também lá eu pregue. Foi para isso que eu vim”
Mc 1:38. Desde o início
Jesus recebeu do Pai os elementos de sua missão: onde ir, o que fazer e que
resultado obter – coisa que Elias reaprendeu somente depois de dois meses de
Esgotamento, sem ouvir a Palavra de Deus. “Foi
para isso que eu vim”
– Jesus venceu um extenuante ministério
concentrando-se em fazer a Vontade do Pai, não o que os amigos queriam, o que o
sucesso demandava ou o que as multidões necessitavam.
Jesus superou as pressões sociais. Esmerando-se em
apresentar Jesus, Marcos relata as enormes pressões de seu ministério. No
capítulo 3, ele apresenta em sequência três dessas pressões e depois mostra
como Jesus lidou com cada uma: ““Então
Jesus entrou numa casa, e novamente reuniu-se ali uma multidão, de modo que ele
e os seus discípulos não conseguiam nem comer. Quando seus familiares ouviram
falar disso, saíram para apoderar-se dele, pois diziam: “Ele está fora de
si”. E os mestres da lei que haviam descido de Jerusalém diziam: “Ele
está com Belzebu! Pelo príncipe dos demônios é que ele expulsa demônios”.”

Mc 3:20-22. A multidão achava que Jesus era sobre-humano, a família pensava que
ele estava louco, os mestres da lei diziam que ele estava endemoninhado. Cada
um desses grupos queria que Jesus se enquadrasse em seus critérios e atendesse
às suas reivindicações: que ele fosse um herói, um bom filho e se encaixasse
nos pré-requisitos de um mestre religioso. Todos sofremos, em alguma medida, as
tensões dilacerantes dessas forças. Não vou detalhar aqui cada ação de Jesus
nesses confrontos. Creio que a afirmação que fez sobre seus vínculos de
relacionamento resumem sua postura. Quando Maria e seus irmãos chegaram para
retirá-lo a força do ministério e colocá-lo sob tratamento, Jesus disse: “Quem faz a vontade de Deus, este é meu
irmão, minha irmã e minha mãe.”
Mc 3:35. Concentrar-se em fazer a
Vontade de Deus, apenas aquilo que o Pai houvesse mandado, poupou Jesus das
pressões do ministério, das demandas familiares e das expectativas institucionais.
Ao invés de se isolar, sentindo-se usado e exaurido por aqueles grupos, Jesus
valorizou o relacionamento com outras pessoas também dispostas a fazer a
Vontade de Deus.
Jesus superou as pressões emocionais. “Jesus ia passando por todas as cidades e
povoados, ensinando nas sinagogas, pregando as boas novas do Reino e curando
todas as enfermidades e doenças. Ao ver as multidões, teve compaixão delas,
porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor. Então disse aos
seus discípulos: “A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. 
Peçam, pois, ao Senhor
da seara que envie trabalhadores para a sua seara”. Chamando seus doze
discípulos, deu-lhes autoridade para expulsar espíritos imundos e curar todas
as doenças e enfermidades.”
Mateus 9:35 – 10:1. Jesus estava cumprindo a missão que identificou em oração
no início de seu ministério, como vimos acima. Como muitos de nós, ele percebeu
a necessidade das pessoas e teve compaixão delas, isto é, as entranhas de Jesus
se comoveram, ele sentiu aquele frio na barriga, aquele nó no estômago, perdeu
o fôlego, seu coração disparou. Mas Jesus não se comprometeu precipitadamente,
não se dispôs a aumentar sua carga de trabalho, não esticou seu tempo, não
reordenou suas prioridades iniciais, não negociou sua missão como muitos fazem.
Ele convidou pessoas a orar ao Senhor da seara sobre o assunto, pedindo por
obreiros, e delegou à equipe que estava treinando a responsabilidade de
desdobrar seu próprio ministério. Novamente vemos Jesus submisso à Vontade do
Pai, pois a seara é dele e é Ele quem decide o que fazer. Novamente vemos Jesus
mantendo os vínculos, contando com as pessoas ligadas a si, pensando como Corpo
para fazer mais, enquanto como membro ele mesmo se limitou ao que o Pai lhe
mandou fazer. Dessa forma Jesus venceu às pressões emocionais a que muitos
obreiros cristãos bem intencionados sucumbem. Sobre isso já nos advertiu o
apóstolo Paulo: “ninguém tenha de si
mesmo um conceito mais elevado do que deve ter”
Rm 12:3. Em outras
palavras, ninguém deve querer fazer mais do que Deus lhe determinou para fazer.
Jesus foi além da depressão. É possível encontrar muitos
outros bons exemplos na vida de Jesus para nos ajudar a enfrentar os riscos do
Esgotamento, mas a noite no Jardim do Getsêmani é o mais ilustrativo de todos.
Ali Jesus chegou ao limite, aquele foi o seu Horebe. O estado de Jesus diante
do cálice que devia beber foi de grande depressão, ele estava muito aflito e
angustiado, pelo que disse: “A minha
alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e
vigiem”
Mc 14:34. Então Jesus orou, repetindo, muito provavelmente,
dezenas de vezes o clamor que bem conhecemos: “Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice; contudo,
não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres”
Mc 14:36. Identifico
quatro elementos nessa oração. Primeiro, Jesus revisitou seu relacionamento com
Deus, enfatizando a intimidade que mantinha ao chama-lo pelo vocativo doméstico
usado pelos filhos em casa: Aba. Segundo, o Senhor glorificou ao Pai, exaltando
seu ilimitado poder, o que é uma boa maneira de fortalecer a própria fé, aliás,
um expediente que Davi sempre usou antes de apresentar um problema difícil em
oração; Terceiro, apresentou livremente a sua própria vontade, seu desejo e
sentimento, atendendo o que Paulo também ensinou: “Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e
súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus.”
Fp 4:6.
Quarto e finalmente, Jesus se submeteu completamente à Vontade de Deus, usando
a mesma porta que Elias usou para sair do deserto: fazer a Vontade de Deus.
Funcionou. Cerca de três horas depois de estar aflito, angustiado e triste até
a morte, Jesus se levanta disposto a enfrentar uma multidão com espadas e paus
e prosseguir nas horas seguintes até as profundezas do inferno, vencendo o
pecado e a morte pela completa obediência ao Pai: “Levantem-se e vamos! Aí vem aquele que me trai!” Mc 14:42.

Alguém disse que o que Deus tem para realizar em nossa
vida é maior do que o que ele vai fazer através de nós. Tenho que concordar.
Embora nossa natureza humana esteja sempre nos puxando para fazer coisas que
deem significado à nossa vida, não é o que nós mesmos fazemos, mas o que Deus
faz em nós que nos torna valiosos. Para esclarecer ainda, permito-me aqui a
imitar Jesus e apresentar uma parábola de atividade estranha ao tema. Uma das
tarefas mais complexas no ballet clássico é o rodopiar rapidamente. A maioria
de nós estaria tonta já no primeiro giro, afetando o labirinto pela falta de
referência visual. As bailarinas, no entanto, recorrem a um recurso
relativamente simples: ‘marcar cabeça’. Elas escolhem um ponto fixo e olham
somente para ele. Ignoram, por assim dizer, 359 graus de visão a cada volta,
concentrando-se somente naquele ponto mínimo. Elas não olham para centenas de
pontos interessantes no teatro, nem se deixam atrair por qualquer de tantos
estímulos no cenário, assim podem girar perfeitamente, sem perder o equilíbrio.
Infelizmente há muitos obreiros tontos de tanto olhar para cada necessidade,
cada sofrimento, cada problema ao seu redor, cada sentimento ou desejo em seu
próprio coração. Para manter a estabilidade no ministério, temos que ignorar
todas as outras coisas e nos concentrar em um ponto fixo: a vontade de Deus. O
que Deus quer? Eis a questão! Pensando assim, Maria de Betânia executou um
ótimo ‘pas de deux’. Jesus elogiou sua escolha dizendo: “E Maria escolheu
a boa parte, a qual não lhe será tirada.” Lc 10:42. 
…….

Leia todos os artigos da série:

Carmelo: as características do Esgotamento

Cafarnaum: a prevenção do Esgotamento
Breve
Nazaré: o questão relacional do Esgotamento
Roma: terminando bem
…….
José Bernardo é pastor, pesquisador, escritor, estrategista de evangelização e conferencista. Fundou e preside a agência missionária de mobilização evangelística AMME Evangelizar.
Did you find apk for android? You can find new Free Android Games and apps.

SUA RESPOSTA

Por favor, faça seu comentário
Por favor, coloque seu nome aqui