Horebe

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Esgotamento III: breve ensaio sobre as causas do Esgotamento do obreiro
cristão, considerando o profeta Elias como exemplo.

Por José Bernardo
O Esgotamento tem causas diversas e recorrentes que
compõem motivações difusas, típicas de uma síndrome. As causas do Esgotamento
potencializam umas às outras, em revoluções cada vez mais intensas até afetar
completamente o obreiro atingido e o Corpo social do qual ele participa. A que se
pode comparar essa dinâmica? Talvez se assemelhe ao moto/ automobilismo, quando
uma motocicleta ou carro de corrida acelera cada vez mais até perder o
controle, começar a rodopiar e depois capotar, destruindo-se completamente sem
que ninguém possa controlar. A peculiaridade está em que o quadro depressivo do
Esgotamento é precedido por intensa euforia. A enorme aceleração do primeiro
estágio incrementa a aversão, o isolamento e a depressão. O controle fica muito
difícil por isso; as urgências e grande dedicação iniciais são vistas e
justificadas como aceitáveis e positivas, até que não seja mais possível reduzir
o ritmo ou evitar a sequência. Os estágios seguintes são impulsionados pelo
primeiro, e cada estágio torna o próximo ainda mais devastador. Então, quero
demonstrar como o ciúme causa a euforia, a carência causa a aversão, a ironia
causa o isolamento e a descrença causa a depressão.

O impulso do ciúme. Um sentimento de preocupação e
cuidado com algo que se possui e que não se deseja perder: no hebraico esse
sentimento pode ser igualmente traduzido como ciúme ou zelo e até como inveja.
Ele é cabível para Deus como zelo, dono de tudo e todos, mas inaceitável para
os seres humanos, escravos despossuídos. O ciúme impulsionou a euforia de Elias
desde o início, como ele mesmo diz: “Tenho
sido muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a
tua aliança, quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada.
Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”.”
1Rs
19:10. Elias toma o lugar de Deus, sente ciúme como se fosse o Todo Poderoso, e
se acha afetado pela rejeição da aliança entre Israel e Deus e pela perseguição
ao culto devido a Ele. Deus é relegado a uma posição secundária, enquanto Elias
toma a dianteira para defende-lo. Muito se poderia dizer sobre esse sentimento
que produz a aceleração para o Esgotamento do obreiro cristão. A raiz é querer
‘ser igual a Deus’, e esse é o pecado original (Gn 3:5). Habacuque, Daniel e
Paulo, para citar alguns grandes homens de Deus, aprenderam que não importa o
que aconteça, Deus está no controle e assim acharam o necessário refrigério.
Ainda que as coisas parecessem muito ruins, aprenderam a descansar e se alegrar
no braço forte do Senhor. É quando se esquecem disso e querem defender Deus,
converter pessoas, mudar a história, que os obreiros intensificam perigosamente
a sua atividade e entram no estágio da euforia. Sobre isso o salmista diz: “Parem de lutar! Saibam que eu sou
Deus! Serei exaltado entre as nações, serei exaltado na terra.”
Sl
46:10. Alguém já disse e eu repito aqui: Jesus chamou testemunhas para si, não
advogados ou juízes. Nosso dever é apenas dizer o que experimentamos em Cristo,
o restante ele se encarrega de fazer. Mas, quando queremos carregar o fardo de
Jesus, pesado demais para nós, nos esgotamos.

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O gatilho da carência. O estágio da aversão é desatado
por um sentimento de carência do apreço, admiração e elogio de que o obreiro se
acha merecedor. Não ser devidamente reconhecido em seu esforço provoca um
sentimento de perda, de raiva, que logo se converte em aversão. Essa carência
pode ser sentida também na falta dos resultados esperados e pode ser díspar da
realidade, dependendo da equação entre o que se acha que merece e o valor que
se dá ao que recebeu. Fazer o trabalho de Deus ao invés do seu, dormir pouco,
comer mal, deixar coisas importantes de lado… qualquer obreiro poderia
continuar com isso por muito tempo se não fosse o demérito recebido em troca.
Elias realizou uma obra de proporções tão grandes que deixaria qualquer um
admirado, mas ao invés de elogios recebeu ameaças, ao invés de verdadeira
conversão recebeu perseguição. Esse foi o gatilho que disparou a aversão. O
primeiro problema aqui é que Elias estava tão concentrado no povo de Israel e
na percepção de que as pessoas agiam sempre em relação a ele próprio, que a
aprovação de Deus deixou de ser importante: o fogo sobre o altar, a chuva
depois de três anos, até mesmo os anjos servindo-o no meio do deserto não
tiveram tanta importância como a rejeição que sentia por parte do povo. Anotei
essa frase de autor desconhecido: não importa quem diz que está errado, se Deus
diz que está certo, então está certo! – e vice-versa. Quando a aprovação de
Deus é suficiente, o Esgotamento não se instala. Mas, quando buscamos a
aprovação das pessoas, quando esperamos sua apreciação, então nos tornamos um
alvo fácil para esse mal.
O disparo da ironia. De origem grega, a palavra ‘ironia’
significa originalmente dissimular, dizer uma coisa quando se quer dizer outra.
Como causa do isolamento, nos interessa a atitude da pessoa irônica, quando
assume um ar de superioridade e crítica mordaz, intolerante, que afasta as
pessoas de si. Tomar o lugar de Deus e sentir a responsabilidade pela redenção
do mundo, sentir necessidade da aprovação e apreciação das pessoas pelo que se
faz, é assim que o obreiro se coloca indevidamente no centro de tudo. A solidão
apenas confirma a soberba e arrogância dessa posição. O obreiro se vê tão
especial, tão capaz e dedicado que os outros se tornam inúteis e indesejáveis,
alvos de ironia. Então, amigos, irmãos, líderes e liderados são deixados para
trás, o obreiro se afasta para o deserto deixando as pessoas perplexas, sem
saber o que fazer.  Isolado, concentra-se
de tal modo em si mesmo e em sua dor, que acelera a tristeza e o desânimo.
Quanto mais se coloca no centro, mesmo com aparente altruísmo e desprendimento,
mais depressa é destruído. O Evangelho do Reino é que, em Cristo, Deus
considerou governar novamente a nossa vida. Quando nossas necessidades, nossos
planos e ações se evidenciam, e não a vontade de Deus, estamos longe do
Evangelho e da salvação. Por isso Jesus indicou as crianças como modelo para o
caráter que herda o Reino (Mc 10:13-16), não porque sejam mais puras ou
sinceras, mas porque não estão no centro, não se consideram autossuficientes,
não andam sozinhas. As crianças são dependentes de outros, precisam de ajuda,
necessitam de socorro. A solidão desmente esse pré-requisito e é impulsionada
por um sentimento de desprezo pelos outros.
A impacto da descrença. No grego, a palavra fé tem o sentido
literal de ‘estar convencido’. Portanto, a fé no Novo Testamento implica em um
processo racional de considerar argumentos até convencer-se de uma verdade.
Contudo, ciúme, carência e ironia colocam o obreiro atingido pelo Esgotamento
em uma rota de desconfiança. O processo tem o poder de oferecer argumentos
ilusórios que pervertem a fé. Elias achava que valia a pena se esforçar, ser
alimentado por corvos, comer da mesa de uma viúva, ser perseguido por Acabe,
enfrentar centenas de profetas pagãos, orar com perseverança e até correr mais
do que uma carruagem. Ele acreditava que fazendo essas coisas obteria algum
resultado. Agora, ali no Horebe, apenas repetia que o povo de Israel quebrara a
aliança, destruíra os altares e perseguira os profetas. Não havia mais
esperança, justamente porque não havia fé. Não havendo fé e esperança, também
não havia amor, e Elias já não estava disposto a fazer o seu melhor por Deus.
No estágio mais profundo de sua depressão, Elias tinha uma percepção equivocada
da realidade ao seu redor: ele era incapaz de ver com os olhos da fé os sete
mil fiéis que Deus via. A depressão distorce a visão espiritual e cega o
crente. Agindo conforme essa visão deficiente, Elias falhou completamente. O
judaísmo relembra esse episódio, mantendo nas sinagogas uma cadeira de Elias,
para que simbolicamente ele acompanhe as circuncisões, símbolo da aliança, e
veja a fidelidade do remanescente de Israel. Assim aprendemos que, se nos
deixarmos arrastar pelo Esgotamento, chegaremos também a esse ponto de já não
vermos as coisas como Deus vê, e isso afetará totalmente a nossa capacidade de
agir.
No Horebe vemos uma marca comum nas quatro causas que
examinamos para o Esgotamento: seja o ciúme que coloca o obreiro no lugar de
Deus, seja a carência de reconhecimento pelo esforço, ou ainda a ironia que
afasta a todos, e mesmo a descrença que ilude e desvia – todas as causas são
egocêntricas, em todas o obreiro está no centro. Minha visão, meu direito,
minha capacidade, meu entendimento – não há espaço para Deus no Esgotamento. Nesse
ponto é válida a distinção entre egoísmo e egocentrismo. Embora o obreiro
atingido pela Síndrome do Esgotamento Ministerial não seja necessariamente egoísta,
mesmo que dê tudo o que tem aos outros, até a própria vida, faz isso de modo
egocêntrico, ocupando uma posição que não é sua, tomando um cálice que não pode
suportar. O Esgotamento é consequência de querer ser igual a Deus, ir além do
que Ele manda, fazer mais do que Ele quer. O Esgotamento é acompanhado de um
sentimento de que Deus não está fazendo tudo o que poderia fazer, um pensamento
soberbo de que o Senhor precisa ser ajudado, de que as coisas estão fora de
controle. Esgotamento é tocar a arca e ser fulminado (1Cr 13:9-11); é acelerar
ao máximo, perder o controle, rodopiar, capotar e se destruir. 
…….

Leia todos os artigos da série:

Carmelo: as características do Esgotamento

Horebe: as causas do Esgotamento
Breve
Nazaré: o questão relacional do Esgotamento

Roma: terminando bem
…….

José Bernardo é pastor, pesquisador, escritor, estrategista de evangelização e conferencista. Fundou e preside a agência missionária de mobilização evangelística AMME Evangelizar.
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