A Mente dividida, o mosteiro e o mundo

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por Antognoni Misael

Um dos perigos que podem tornar uma igreja infantilizada é quando ela cai no conto da “fuga do mundo” – e aqui se entenda ‘mundo’ como, tanto sua geografia como a sua produção cultural. Ora, se o próprio Jesus pediu ao Pai para que não tirasse os discípulos do mundo, por que nós, por vezes, queremos ser abduzidos dele?
Martinho Lutero motivou-se para viver em um mosteiro a fim de fugir do mundo, mas ao chegar lá se deparou com o mesmo mundo, só que fantasiado de mosteiro.
Eu cresci aprendendo que o mundo é do diabo. Você, não? Eu cresci aprendendo que só as coisas do alto são de Deus, pois as do mundo jaziam no maligno, a saber, que, aqui tudo funcionava do jeito dele. Sendo assim, muitos foram pressionados a escolher entre as duas culturas: a espiritual da igreja, e a carnal do mundo. Ou você vive a favor de uma ou da outra. Ou você é luz, ou é trevas. Se estiver no escuro, trevas será. Mas, não se podia ser luz lá? -” Não!”, respondia-me um lado de minha mente


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A “cultura da igreja” estava comprometida com os cultos de domingo, leitura da Bíblia, as orações, os lugares por onde não se deve andar e os modos de como não se deve se vestir; a “do mundo” estava relacionada basicamente com idolatria proveniente de outras religiões, da prostituição, bebedices, músicas seculares, roda de escarnecedores (os descrentes) e lugares nocivos como cinema, teatro, campos de futebol, etc.
Depois de algum tempo me privando de coisas naturais (do mundo) e mergulhando intensamente na “cultura da igreja” eu acabei por descobrir que algumas coisas no mundo me remetiam as coisas do alto, e algumas coisas da igreja me remetiam ao mundo. Na verdade, assim como muitos, eu tinha a mente parecida com a do medievo, divida entre Deus e o Diabo, Céu e Terra, Sagrado e Profano. Portanto, assim como o mosteiro não livrou Lutero do mundo, a geografia sugerida por minha própria religiosidade também nunca me foi uma bolha protetiva eficaz. 
Quando eu ouvia “All Need is Love”( The Beatles), eu não conseguia diagnosticar tanto mal me ensinado, do contrário, eu ficava maravilhado com aquela sonoridade e orquestração, ao ponto que aquilo provocava a minha espiritualidade dicotomizada e me remetia ligeiramente aos textos de 1 João quando o apóstolo descrevia sobre o amor do Pai.
O mundo então, pra mim, deixou de ser locais e coisas, a saber, que o mundo que Paulo fala em Rm 12.2 está relacionado com o espírito da nossa própria era. Eu despertei quando percebi que, embora eu não adorasse aos ídolos de barro, no meu íntimo altar vez por outra, erguiam-se vários deuses e dentre tantos, eu mesmo; eu podia não me prostituir na cidade, mas o que impediria de desejar uma mulher bela que sentava próximo a mim nos bancos da igreja?; eu podia não me embriagar com bebidas, mas estava totalmente dependente da maldita coca-cola que enfeitava minha geladeira e bombardeava meu corpo com altos níveis açúcar; eu podia não ir ao cinema, mas o trazia para sala de minha casa, de modo que aquelas narrativas cheia de efeitos especiais às vezes embaçavam a minha visão de mundo, e sem que eu percebesse alteravam minhas atitudes; eu podia não ir ao teatro, mas a minha conduta no trabalho durante a semana e a minha adoração na igreja me convenciam de que eu podia ser um ótimo ator; eu podia não ouvir músicas “seculares”, mas colecionava músicas religiosas de bandas genéricas àquelas do mundo, e o pior, com letras que enalteciam mais o homem do que a Deus.
O mundo tão temido estava em todo lugar, inclusive dentro de mim. Não tinha como fugir dele!
Considerando então nossa incapacidade de ser um ser extraterrestre, e que o mundo está tão presente em nossa vida quanto o ar que respiramos, elenquei três formas, que a meu ver, são de suma importância para que nos relacionemos com ele buscando fazer tudo, e viver perante tudo, para a Glória de Deus:
1) Não devemos ignorar o mundo.
O teólogo Karl Barth afirmou, “pegue sua Bíblia, pegue seu jornal, e leia ambos. Mas interprete os jornais a partir da Bíblia”. Afinal, estamos nele e devemos viver buscando sempre compreender o que se passa ao nosso redor. Isto porque o mundo vive a fabricar perguntas, e nós como igreja precisamos estar prontos a dar todas às repostas!
Jesus desafiou os fariseus e saduceus com relação a sua inabilidade de entender os tempos: “Vocês sabem interpretar o aspecto do céu, mas não sabem interpretar os sinais dos tempos!” (Mt 16.3). Portanto, entender o nosso mundo é fazer a leitura correta do tempo em que estamos vivendo. Concorda?
Em relação a música, por exemplo, a igreja estaria mais preparada para lidar com os vexames da música gospel em relação a sua mercantilização em detrimento do conteúdo teológico se tivesse levado mais a sério a instalação de uma Indústria Cultural interessada em estandardizar a arte como mercadoria e adoradores em consumidores. O mercado da música gospel surgiu de forma insidiosa, e quando demos conta, ele já estava nos balcões de nossas igrejas!
2) A cultura do mundo pode nos trazer coisas boas. Aceitar essa afirmação para alguns não é fácil, imagino, porém, isso é resultado de uma compreensão do Senhorio de Cristo, onde tudo foi feito por Ele e para Ele. Ou seja, ainda há uma graça comum de Deus que refreia o mal, de modo que até os ímpios podem abençoar os salvos com seus dons e talentos, viabilizando, por assim dizer, a vida na polis.
Há um leque de opções na área da medicina, tecnologia, engenharia e artes, por exemplo, que são naturalmente demandas de um mundo contemporâneo, e que podem nos servir e nos edificar sem que sejam necessariamente áreas celestiais, ou preenchidas por profissionais cristãos – isto é o mundo! Seria insensato de nossa parte acreditar que Deus não tem nada a nos dizer através de uma cultura externa a “cultura da igreja”.
Steve Turner em seu livro Engolidos pela cultura Pop comentou que, Deus “demonstra o seu amor não só com fervorosos sentimentos internos, mas também através da família, amigos e estranhos. Ele nos cura não só por imposição de mãos, mas também por procedimentos cirúrgicos, remédios e seções de fisioterapia”
Quanto às artes, eu sempre ando atento com ela, eu a observo porque gosto de mapear os reflexos do coração do homem. Às vezes observo só corrupção, às vezes vazios, à vezes graça! Daí eu sempre penso numa frase: “Pablo Picasso moldou Guernica[1], mas Deus moldou Picasso”. E dou Glórias a Deus!
3) A cultura do mundo possui uma agenda perigosa. Ela nem sempre está disposta a edificar os seus consumidores. Cuidado, nem tudo é Graça Comum! Muita coisa é uma des-graça comum! A cultura do mundo está corrompida, e por assim dizer, na sua esfera também ocorre uma espécie de “guerra espiritual”. Mas, lembre-se, a cultura do mundo (secular) não é um rio totalmente contaminado! Assim como não é uma savana onde posso passear despreocupado com a beleza dos felinos. Por isso Paulo disse aos tessalonicenses, “fiquem atentos com o que é bom” (1Ts 5.21), ou seja, “testem as coisas”, “tenham discernimento”. Grande parte da produção de entretenimento feita por ímpios tem um objetivo ideológico!
Steve Turne escreveu em sua obra já citada acima:As coisas que lemos, ouvimos e assistimos por prazer sempre influenciam nossas atitudes, mesmo que não estejamos cientes das mudanças. Talvez nos incomodemos na primeira vez que vemos um filme em que pessoas corruptas são recompensadas. Na segunda vez, menos. Na décima ou décima primeira vez, talvez estejamos tão impassíveis que passamos a aceitar o que vemos como normal. Ou seja [grifo meu], nossa indignação foi progressivamente calada”.
Ative o seu filtro!
O grande poeta T.S. Eliot acreditava que a cultura consumida apenas por diversão, sem envolvimento algum filtros e critérios, é a que tem mais perigo para nós. Quer um exemplo? Quando ouvimos alguma canção apenas por passatempo é comum desarmarmos o nosso sistema de alarme crítico permitindo que influências entrem despercebidas. Bem, se eu já faço isso com as ditas canções evangélicas, quanto  mais com aquelas escritas por não cristãos.

Concluímos que, se o Senhorio de Cristo envolve todas as áreas da vida, e se o mundo não é apenas o lado de fora do mosteiro, o que importa então não é dividir a mente, e sim, usá-la integralmente no mundo onde todas as áreas da vida podem ser vividas, observadas e deleitadas, visando exclusivamente a Glória de Deus.

“Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da vossa mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. [Rm 12.2)
***

[1] Guernica é um quadro famoso pintado por Picasso em 1937.

Antognoni Misael é professor, músico e blogueiro. Edita o Púlpito Cristão e escreve sobre temas relacionados a cultura, música e apologética.

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