Caía a tarde feito um viaduto e o bêbado trajando luto, me lembrou Neymar…

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Por Antognoni Misael
João Bosco e Aldir Blanc gravaram em 1979 uma canção que na voz de Elis Regina marcou o cancioneiro da MPB numa época de intensa repressão ideológica e perseguição política: “O bêbado e o equilibrista”. Numa rápida visitação a nossa história logo se notará que naquele contexto a música nacional, pressionada pela censura ditatorial, utilizava-se de linguagens metafóricas para criticar modelo político e para conscientizar o povo.
A canção é bastante sugestiva para refletirmos sobre o que ocorrera no último dia 03 (quinta-feira) em Belo Horizonte quando um viaduto desabara sobre um ônibus matando duas pessoas deixando 23 feridas na Região da Pampulha, onde se localiza a avenida que é uma das vias de acesso entre Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, e o Mineirão – uma obra relacionada a Copa do mundo, que incompleta, caiu onde não deveria ter caído.
A tragédia passou a ser contraponto de uma outra “tragédia”, a fratura da terceira vértebra de Neymar no jogo contra a Colômbia. “O Brasil” sentiu a dor de Neymar, sentiu a queda do centroavante e a possibilidade de perder a taça, mas devido à pífia divulgação da queda do viaduto por parte da mídia e euforia da Copa, a real tragédia passou meio que despercebido – azar de quem tava lá debaixo, não é?, e como um dia cantou Chico Buarque: “morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego”.
Por isso, então lembrei da Elis cantando “Caía a tarde feito um viaduto e o bêbado trajando luto”. Só que ao cantar não me lembrou mais o ‘Carlitos’ [1] – aquele cara de chapéu-coco, bigode e um paletó muito apertado que, apesar de irresponsável consigo mesmo, agia como um cavalheiro perante os outros e a sociedade. Ao cantar o “bêbado” e o “luto”: a alegria do vagabundo que tenta driblar a situação precária de si mesmo e o estado de luto que o Brasil viveu diante do velório da democracia (64-85), não me lembrei mais daquela conjuntura política dos anos 70, lembrei de Neymar. Talvez o “bêbado trajando luto” ressignificasse a alegria do maltrapilho eufórico pelo momento que vive, mas, que pena, insensível ao luto da nossa terrível crise brasileira quanto à questão social.
Alguns pesquisadores afirmaram que Aldir Blanc, autor da letra, ao escrever esta primeira frase da canção fazia menção ao desabamento do Viaduto Paulo Frontin, no ano de 1971 no Rio de Janeiro, quando estava sendo construído. Naquela época, havia um conjunto de construções que correspondia ao “milagre econômico” cuja ditadura tentava apresentar à população brasileira, para recuperar as antigas euforias dos períodos populistas – o Brasil recém campeão da Copa de 70 e as mirabolantes obras daquele tempo puderam até certo ponto maquiar a face sofrida do Brasil de amores mil.
Viaduto Paulo Frontin, no ano de 1971 no Rio de Janeiro
Mais alguém viu alguma semelhança entre as construções do “milagre econômico” e o desastre de 1971, e o viaduto de BH e a vértebra de Neymar?
Então…também não vou pagar de insensível a nossa seleção. Eu sou brasileiro, amo futebol. Mas penso que isso não pode me fazer de modo algum menos revoltado diante de toda discrepância social e econômica que esta Copa veio revelar a todos nós.
Por fim, a canção citada termina com a seguinte frase:
Azar! 
A esperança equilibrista 
Sabe que o show 
De todo artista 
Tem que continuar…
(Que o futebol continue. Mas que o bêbado acorde no dia 05 de outubro, logo após ressaca)
***
[1] Carlitos era um personagem Charles Chaplin, que era um vagabundo.
 Referência: Blog Redesfigurar.
Antognoni Misael, editor do Arte de Chocar e Púlpito Cristão.
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