O TEMPO DE VIDA E A VIDA PARA ALÉM DO TEMPO

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Por Aurivan Marinho 

No estudo da metafísica, o tempo se constitui num enigma indecifrável. Afinal, as categorias usadas para decifrar o tempo são meros condicionamentos da nossa própria limitação. Passado presente e futuro servem apenas para nos situar num mundo onde tudo está em movimento e em permanente transição.
O tempo passa e com ele a vida se esvai. A juventude passa com a velocidade do tempo presente, e de repente o presente virou passado, e nossa única conclusão é que tudo é vaidade (Ecl 11.10). Todos os nossos dias vão passando… Acabam-se os nossos anos como um conto ligeiro (Sl 90.9). Nossa estimativa de vida é de setenta anos, alguns privilegiados chegam aos oitenta, tendo que conviver com o desprazer da canseira e do enfado decorrentes do próprio tempo (Sl 90.10). A verdade universalmente válida para todos, é que a vida passa rapidamente e nós voamos (Sl 90.10).
Nas palavras de Tiago, a vida é como uma neblina que aparece por um pouco, e logo se dissipa (4.14). Mesmo diante desse alerta, o homem desperdiça a vida no desperdício do próprio tempo. Há uma contabilidade que os especialistas em estatísticas não sabem fazer. Como aprender a contar os nossos dias de modo que saibamos utilizá-los sem desperdício? Que atentemos para a oração de Moisés: “Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos coração sábio” (Sl 90.12).
É com essa sabedoria que podemos fugir da armadilha de pensarmos ou agirmos como senhores do tempo. Com humildade reconhecemos que somente Deus transcende o tempo e que por isso mesmo, “mil anos aos seus olhos são como o dia de ontem que passou e, como a vigília da noite” (Sl 90.4). Quanto ao homem, jamais é sabedor do amanhã e, por isso mesmo não está autorizado a projetar a vida sem Deus: “Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, lá passaremos um ano e negociaremos e ganharemos” (Tg 4.13).
Projetar o amanhã sem a completa dependência de Deus é um ato de insanidade de quem jamais aprendeu a cultivar coração sábio: “Louco ainda hoje pedirão a tua alma e o que tens para quem será” (Lc 12.18-20). O ensino de Tiago é que deveríamos dizer: “Se o senhor quiser viveremos e faremos isto ou aquilo” (4.15). Observe que o viver precede o fazer na visão bíblica. Isso significa dizer que não podemos projetar o fazer sem depender daquele que nos dá o viver. Logo, “se Deus quiser” não pode ser um simples jargão. 
Contabilizar os dias de vida de modo tal que alcancemos corações sábios, significa “lembrar-se do criador nos tempos da mocidade” (Ecl 12.1), significa plantar boas sementes nos tempos de juventude como único caminho de evitarmos que a velhice seja marcada pelo desprazer e ausência de contentamento.
Voltemos à questão das categorias do tempo (passado, presente e futuro), a fim de aprendermos sobre o tempo de vida e a vida no tempo.
Pra muita gente a vida ou o tempo não passam de uma sucessão de instantes. Instantes que se foram, instantes que se esperam. O tempo é a referência que mais usamos pra falar da vida. E quando conversamos com algumas pessoas, temos a imediata percepção que elas vivem presas nos labirintos do tempo.
São pessoas que sempre pensam, agem e tratam a vida na esfera do inexistente. Isso porque, ou estão presas às memórias do passado, ou simplesmente vivem ansiosas pelo futuro. Quase sempre não se dão conta de que o futuro se fez presente, pois alienadas ao passado e angustiadas com o futuro, o presente é sempre uma página virada, sem que seja vivido com o amor, a gratidão e a plenitude que a vida pede. Ou seja, quem vive a vida em torno do passado e ansiosa pelo futuro, sem conseguir viver o presente, vive em função do inexistente. É nesse sentido que Jesus declara: “Basta cada dia o seu mal” (Mt 6.34).
O melhor receituário para isso é o que disse o apóstolo Paulo: “Não que já tenha alcançado ou que seja perfeito… mas uma coisa faço, e é que esquecendo-me das coisas que para trás ficam, eu avanço para as que estão diante de mim” (Fp 3.12-14). Observe que entre o passado que para trás fica e o futuro que ainda não veio, Paulo faz recair sua ênfase no presente: “Uma coisa faço”. Até porque é esse presente, ou seja, é esse “eu faço” que serve como útero que agasalha e dá luz o embrião do futuro.
É a partir dessa lógica que Paulo lida com o contentamento do presente, independentemente das circunstâncias do próprio presente (Fp 4.11-12). O presente é o dia que o Senhor fez, alegrar-se e regozijar-se nele é a maior evidência de um coração sábio (Sl 118.24).
O melhor momento da minha vida é agora, quero vivê-lo com toda força do meu ser. Quero fazer como Maria irmã de Lázaro, que simplesmente fez daquele momento um prenúncio da eternidade. Enquanto Marta andava preocupada com muitas coisas, Maria fez daquele momento uma experiência que nem mesmo o tempo poderia tirar-lhe. Um presente que contraria o tempo, se recusando a ser passado: “Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada” (Lc 10.42). Quando vivemos o presente com a plenitude que lhe é própria, jamais teremos saudades, pois ele há de ser parte intrínseca da nossa própria vida.
Certa vez Jesus disse que devemos ser bons mordomos do tempo, fazendo coisas boas enquanto é dia, antes que sejamos impedidos pela noite (Jo 9.4). Observe que Jesus está dizendo que devemos investir no hoje, antes que a noite que precede o amanhã chegue, tornando o hoje passado inoperante.
Posteriormente João descreve Maria e Marta condicionadas às armadilhas do tempo: “Senhor se tu estivesses aqui meu irmão não teria morrido” (Jo 11.21). Em contrapartida Jesus responde dizendo: “Eu Sou” (Jo 11.25). O problema delas não é apenas com o passado, mas também com o futuro: “Eu sei que ressurgirá na ressurreição do último dia” (11.24). Ou seja, Marta e Maria lamentam pelo passado, esperam pelo futuro, mas não conseguem vivenciar o presente na presença do “Eu Sou”.
A vida é muito curta pra ser desperdiçada com as meras memórias do passado, ou na ansiedade do futuro que nunca chega, pois mesmo quando chega ainda assim deixamos virar passado, sem que tenhamos a percepção do mesmo. Não podemos esquecer que a vida cristã é um constante deixar para trás, afim de que tudo se faça novo. Não negamos a importância nem tampouco desaconselhamos a vida com planejamento. O que, no entanto penso, é que o presente é o que temos de mais provisório e repentino, porém, ainda que pareça paradoxal, é o que temos de mais concreto como dádiva da providência de Deus. 
Se queremos enxergar a vida com coração sábio, é preciso fazer dos “fugitivos instantes” um tempo para além do tempo. É preciso entender que “o tempo nunca para” (Agostinho). Toda criação desde o princípio dos tempos subsiste a partir dos novos e melhores começos que Deus mesmo providenciou na história da salvação.
O que estou dizendo é que não importa as desconstruções ou descontinuidades que o tempo produz na finitude dos nossos sonhos e projetos. Há um Deus criador e redentor que é Senhor do tempo, e que tudo está diante dele como um eterno agora. Ele contempla a nossa vida para além das categorias de passado, presente e futuro, como uma síntese indivisível que envolve o plano eterno (eleição), o governo providencial (salvação) e a consumação eterna (glorificação).
O Deus que nos ensina a contar os nossos dias de modo tal que alcancemos corações sábios, é o mesmo que nos convida a relativizarmos o passado e as experiências antigas, a fim de contemplarmos um novo começo que emerge como sol que nasce, como um rio que jorra no deserto, como intervenção soberana no tempo de vida, afim de que a vida no tempo seja plena de transcendência.
Contabilizar a vida em três tempos é aprender com o passado, é ter esperança do futuro, mas é acima de tudo viver o presente com gratidão e contentamento. Tudo isso é mais do que um sonho que nos ajuda a superar as memórias que nos aprisionam no passado da nossa existência.
Mais do que qualquer coisa, uma coisa é certa, o tempo do homem não é o tempo de Deus. Sem nenhum constrangimento Jesus disse a Maria: “ainda não é chegada a minha hora” (Jo 2.4). A mulher samaritana perdida em meio às especulações religiosas, ele declarou: “Mas vem a hora e já chegou…” (Jo 4.23). Aos seus irmãos ansiosos por publicidade ele declara: “O meu tempo ainda não chegou” (Jo 7.6). Porém, “antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora… tendo amado os seus que estava no mundo, amou-os até o fim” (Jo13.1). Jesus fez do tempo aqui na terra um eterno agora de amor, dando realidade concreta ao que de imediato parece mais abstrato e subjetivo.
A verdadeira esperança não se projeta na realização do amanhã imediato. Afinal, a esperança do verdadeiro cristianismo nos conduz para além do tempo. Pois haverá um “tempo” que o tempo não mais existirá: “Então, já não haverá noite, nem precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol…” (Apoc 22.5).
Numa cultura marcada pelo corre-corre da vida, pela ditadura das agendas, pela ociosidade do entretenimento, pela corrida desenfreada em prol do sucesso, do dinheiro e do prazer; é cada vez mais notório que o homem do nosso tempo, tornou-se refém de um estilo de vida, no mínimo desumanizador, secularizante e destrutivo. O caminho de resgate de um viver com contentamento significa muito mais do que reviver as saudades do passado, e muito menos do que olhar para o futuro com ansiedade. É preciso viver o agora com gratidão no coração e esperança na glória (Cl 1.27).
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Aurivan Marinho é pernambucano, pastor congregacional e colunista do site da Vinacc.
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