Tédio, notícias e tatuagens

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Por Walter McAlister
Uma das pandemias do nosso tempo é o tédio. Estamos entediados. Estamos desesperados por algo que nos faça sentir mais vivos. Muitos associam o tédio a lugares onde nada acontece. Lugares ermos, sem muito para se fazer. Gente que mora no interior, numa fazenda, sem televisão, sem um shopping para frequentar. Aquelas pessoas devem estar muito entediadas – pelo menos é o que imaginamos. Mas a verdade é que o tédio dos nossos tempos é fruto, não de pouco para se fazer, mas de haver demais para escolher. Com a multiplicação de opções de tudo, ficamos como quem se fartou de comida e não aguenta nem mais uma mordida do que seja. Somos gulosos por experiências, por programas de televisão, por notícias, por novidades. Mas ao invés de sermos alimentados pelo que é novo e inovador, apenas nos aprofundamos no tédio moderno. Este tédio nasce do excesso. Nasce de não existir mais novidades que nos interessem.
Vamos dar um passo atrás e pensar sobre isso.
O que é uma notícia? Uma notícia é algo que nos “informa” de uma novidade que não esperávamos. Só que também não é exatamente isso. Uma notícia é algo que interrompe a nossa vida. Interrompe a vida pública. É algo que nos surpreende. Um cachorro que morde alguém não é notícia. Mas se alguém morder um cachorro… Bem, aí temos uma notícia. Notícias, por definição, são fatos que interrompem, que quebram a cadência normal da vida. A vida corre no seu ritmo do dia a dia e, de repente, algo acontece que é inesperado. Isso é notícia. Notícia, transgride expectativas. Notícia, interrompe a paz.
Ah! É isso!!!
Notícias representam uma violação da paz, do Shalom, da ordem pública, da ordem particular. Por isso mesmo, boas-novas não vendem jornais. Pois notícias são aqueles fatos que, no fundo, nos chocam, ou que, no mínimo, que chamam a nossa atenção. É claro que um Ipê Rosa, em plena flor, pode chamar a nossa atenção. É linda, uma árvore gloriosa. Mas, a flor do Ipê Rosa não aparece na primeira página do jornal. O que aparece é o escândalo. O que aparece na primeira página do jornal (ou qualquer outra página do jornal, para dizer a verdade) é algo que nos choca, algo que chama a nossa atenção.
Blogs são assim também. Qualquer coisa que nos chame a atenção acaba sendo lido. Pelo menos, o post com um título instigante ganha a sua atenção por alguns segundos. Mas, nem escândalo mais é novidade. Quantas CPIs não foram instauradas só nesses últimos 12 meses? Alguém se surpreende quando o Senado ou a Câmara convoca uma nova CPI? E no que deu a última? Alguém sequer se lembra?
Numa sociedade midiática, os escândalos também acabam nos entediando. Arte de vanguarda, por exemplo, já não é mais novidade. O abstrato já é apenas um exercício de cores numa tela. Não representa mais a quebra de tabus, de regras da arte plástica. Para chocar temos que mergulhar um crucifixo numa câmara de urina. E, mesmo assim, isso também já foi feito. Temos que cobrir um prédio inteiro com um lençol de látex. Ah, mas isto também já foi feito. Temos que levar uma multidão para deitar completamente nua no meio de uma praça. Ah, mas isso também já foi feito.
Só que essas coisas não foram experimentadas por nós pessoalmente. As vimos em revistas, programas de TV e na Internet. Sim, pela Internet o mundo está ao nosso alcance. Mas será? Será que o que vejo está realmente ao meu alcance? Creio que não. Creio que apenas assistimos, mas não alcançamos. Tornamo-nos abarrotados de informações, imagens, novidades, escândalos e tanto mais, sem nunca realmente experimentá-los. A mídia filtra tudo. Ficamos incólumes, sentados perante as muitas telas da mídia, apenas vendo, talvez ouvindo. Crianças na YouTube que fazem gracinhas. Animais domésticos que fazem algo realmente incrível. Mas, é certo que nada substitui segurar um neném no colo, sentir o seu calor e ouvir a sua respiração.
Como essas coisas nos ocupam mas não satisfazem, achamos que a solução para o nosso tédio se acha em ver cada vez mais. Cremos que se ouvirmos e virmos mais notícias seremos informados. Ligamos a TV, com aquele controle remoto na mão, esperando que alguma coisa, qualquer coisa, nos dê razão suficiente para parar de surfar os canais. Mas… após horas de trocar de pedaço de programação em pedaço de programação, exaustos e frustrados, acabamos caindo na cama, sem conseguir dormir.
Tédio não é fruto de falta do que fazer. Tédio é fruto da falta de algo que alimente a nossa alma. É fruto da falta das verdadeiras emoções que nascem de experiências reais. O amor verdadeiro, o perigo verdadeiro, a dor verdadeira, o carinho verdadeiro, o momento de deslumbre verdadeiro, o encontro verdadeiro, um momento com o Deus verdadeiro. A alma tem sede. A alma desnutrida é fadada ao tédio. É condenada ao vazio que vive a buscar algo real, algo que o alimente.
Li recentemente um artigo de um repórter de Los Angeles. Ele se viu passeando na praia quando notou que ele era a única pessoa lá que não tinha uma tatuagem. De repente sentiu-se deslocado. O que tinha sido considerado uma marca de rebeldia, algo que marinheiros, motoqueiros, prostitutas e encarcerados costumavam fazer com a sua pele tornou-se uma prática comum na nossa sociedade entediada. Quantos jovens já não me perguntaram se podem ou não fazer uma tatuagem? Eu costumo dizer que, aos 55 anos de idade, sinto-me muito jovem para tomar uma decisão que vai me marcar pelo resto da minha vida. O jornalista questionou o porquê de tanta gente tatuada. Afinal, uma tatuagem requer um compromisso de vida. Uma tatuagem doi! Tatuar-se é correr o risco de infecção por hepatite ou pior. Não é barato. Tirar é muito, mas muito caro.
Então por que, só nos Estados Unidos, uma em cada seis pessoas tem uma tatuagem? Por que fazer algo tão radical, doloroso, permanente, arriscado e custoso? Claro que há pessoas que se sentem na necessidade de pertencer a uma tribo. Querem aceitação social e, por força da pressão do grupo, acabam se tatuando também. É como fumar. Claro que fumar é um ato que vai pôr a sua vida em risco. De trago em trago você acumulará veneno no seu sistema que certamente lhe porá em risco de ganhar um câncer e eventualmente morrer prematuramente. Mas, quando a turma está pressionando a fazer parte, você nem pensa nisso. E sei que há muitos que nem pensam no que uma tatuagem implica. Mas a fazem assim mesmo.
Tatuagens, piercings, esportes radicais, drogas e, por que não dizer, eventos gospel e subir o monte – tudo aponta para uma doença social que assola os habitantes deste nosso mundo contemporâneo. Estamos entediados. Não temos paz. Estamos ávidos, desesperados por algo que nos faça nos sentir mais vivos. Ao assistir a vida passar pela tela, nos sentimos anestesiados, vazios e, embora estejamos ocupadíssimos, apressados e estressados, queremos algo, queremos mais. Queremos ….. mas não alcançamos. A alma continua sedenta. Como estômago cheio de capim seco, ainda temos fome. Estamos morrendo de desnutrição embora não consigamos tomar nem mais uma garfada.
“Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus….”. Do silêncio vem algo que todas essas coisas, atividades, experiências, escândalos, notícias e riscos jamais nos proporcionarão: um encontro com a fonte da vida. Só Ele satisfaz. Cristo satisfaz. Satisfaz completamente.
Na paz,
+W
***
Do blog do Bispo Walter McAlister. Divulgação, Púlpito Cristão.

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6 COMENTÁRIOS

  1. Acertou na mosca !

    São os tempos, onde se você não estiver fazendo 3 atividades ao mesmo tempo é "desconectado", ultrapassado, incapaz.

    Todos estão como uma máquina que vai cada vez mais subindo, subindo, subindo a rotação. Mas uma hora estoura.
    Aí você, se tiver cérebro ( possivelmente esgotado ao extremo ) ainda, vai pensar a insanidade em que esteve envolvido, sem sentido. Entrar na na roda viva têm seu preço.

  2. Mto Bom!

    Leitura gostosa! Eh engracado que se ficarmos 'fora' desse mundo, parece que seremos seres estranhos. Necessitamos estar 'online' para ser 'aceito'.

    Tem muita coisa boa que tira o tedio, principalmente aquelas citadas no texto.

    Show!!

    mulasdebalaao.blogspot.com

  3. Acho incrivel como um lugar como o PULPITO CRISTÃO dá espaço para opinião generalistas e tendenciosas como esta.

    "Tatuagens, piercings, esportes radicais, drogas e, por que não dizer, eventos gospel e subir o monte – tudo aponta para uma doença social que assola os habitantes deste nosso mundo contemporâneo. Estamos entediados. Não temos paz."

    O fato de eu ter tatuagens, surfar e ir num show de uma banda cristã quer dizer que eu não tenho paz interior?

    Caso o cristão estiver em comunhão com o Espirito Santo, e resolver se tatuar, usar piercings, cabelo grande, usar uma havaina pra ir ao templo qual o problema disto? Quem convence o homem do pecado é o Espirito Santo que habita em nós e não opiniões religiosas fundamentadas em achismos.

    Chega a ser engraçado: nós tatuados não vemos nenhum problema em pessoas que não tenha tatuagens, já o contrário não ocorre. Porque será?

    "O que tinha sido considerado uma marca de rebeldia, algo que marinheiros, motoqueiros, prostitutas e encarcerados costumavam fazer com a sua pele tornou-se uma prática comum na nossa sociedade entediada."

    Considerado por quem? Por uma sociedade hipócrita em crise de existência?

    Acho incrível este tipo de coisa! Gostaria de saber o que o Dignissimo Bispo Walter McAlister e sua Denominação fizeram contra a segregação racial nos EUA… Pelo visto ele estava mais preocupado com o periogo que as tatuagens, piercings e esporte radicais representam às pessoas, rs.

  4. Ao Dallas,

    Talvez você tenha se esforçado para entender o texto de forma tendenciosa, mas o ponto central da problemática do autor é a questão do tédio e de práticas culturais fincadas não numa autenticidade, mas numa estranha forma de ser visto, aceito ou identificado na sociedade. Se a pessoa busca suprir esse tédio cortando o cabelo diferente, colocando um piercing no nariz ou uma tatoo, certamente se enquadra num grupo inautêntico e que anseia de sentido para o existir. Agora se a sua tatoo não é proveniente de uma superficialidade social, tranquilo, isso significa que és um cara autêntico e que sabe o que faz e o que quer – ao contrário dos muitos, cujo texto foi direcionado.

    OBS: O púlpito não coloca textos para todos concordarem, mas para também pensarem juntos, debaterem e crescerem no conhecimento de uma forma geral. E nem sempre um texto de outrem significa a concordância total do Leonardo ou minha.

    Antognoni Misael

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