A invenção do gospel no Brasil

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Por Antognoni Misael

A década de 90 foi sem dúvida a década do crescimento para os evangélicos no Brasil. Crescia uma igreja de face, até então, desconhecida, mas que participava de uma dinâmica fragmentadora inerente do fenômeno da globalização e que assistira o recente triunfo do capitalismo sobre o socialismo. A indefinição evangélica decorria da chegada de vários segmentos religiosos embarcados na chamada Teologia da Prosperidade, dentre eles os grupos neopentecostais e subdivisões dos pentecostais. Apesar disso, o aumento numérico foi estrondoso: de 1991 a 2000, o crescimento dos evangélicos chegou a superar em quatro vezes o crescimento da população do país (estes cresceram em 7,43% enquanto a população 1,63%).

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Essa época viu esse segmento tomar espaços de mídia, fazer aquisições de redes TV, rádios, gravadoras, passando a ocupar um lugar de influência direta na vida social, cultural e econômica dos fiéis. Foi nesta mesma década que grandes gravadoras evangélicas se organizaram e passaram a abastecer e reger um mercado de música gospel, entretanto a própria marca “Gospel” teve sua patente comprada e registrada por um dos grupos neopentecostais (Igreja Renascer), portando assim uma representação imponente e promissora nessa indústria recém-formulada e que ainda hoje se mantém numa crescente espantosa. O impacto dessa indústria cultural evangélica no decênio citado funcionou satisfatóriamente sob o epíteto do gospel que cuidou de imediatamente se aparelhar como uma organização econômica de produtos diversificados: artistas, Bíblias, grifes, livros, etc.

Contrariando qualquer análise denominacional ou fundamentalista, o que discuto aqui é a importação do termo “gospel” para a música brasileira vide música gospel percebendo que enquanto produto cultural, ela pôde ser (re)inventada em outro tempo e espaço dentro de um mercado altamente lucrativo.

Para devido esclarecimento, chamo de “representações” os símbolos que são construídos historicamente e socialmente dentro da sociedade; sendo assim resta-nos resolver esse impasse quanto a significação do gospel no Brasil: sua representação tem a ver com a música spiritual negro, blues, jazz, underground? Certamente não. Veremos.

O termo “invenção” remete a descontinuidades, ao heterogêneo, ele está articulado muitas vezes numa estratégia, num projeto de grupo, e isso se evidencia logicamente quando percebemos uma chegada tardia do gospel na música brasileira sob a estranha composição sonora quanto aos padrões musicais e estéticos inerentes ao Gospel norte-americano. Aliás, aqui já respondo o que indago no parágrafo passado: – O gospel no Brasil tem a ver com spiritual negro, blues, underground? – Não! Primeiro porque não tem absolutamente indícios de elementos musicais negro, segundo porque não porta um passado histórico radicado no sentido cultural da música; afinal nossos negros tinham igrejas protestantes? Faziam algum lundu ou maxixe evangélico?

A música gospel fez parte de um processo histórico e cultural no século XIX nos Estados Unidos através do “Grande Despertar”, um acontecimento que mesclou negros e brancos pobres fazendo com que estes pela primeira vez se unissem sob pano protestante, frenético e igualitário. Interessante notar que este acontecimento ocorrido não foi uma imposição vinda de cima, mas uma conversão em massa vinda de baixo elevando a música religiosa para um status de música do povo. Eric Hobsbawm (historiador) em sua obra História Social do Jazz (relançado em 1989) denota a religião protestante nos EUA como um reduto conservador do gospel, cuja preservação das características rudimentares dessa música recheada de traços de negritude se deu efetivamente: as canções de trabalho, o blues, o coral, etc., dando uma estética própria na então música gospel. Essa formatação se deveu principalmente ao fenômeno de urbanização onde as igrejas forneciam um pólo comunitário isolado importante para o “fazer” musical.

O gospel norte-americano tornou-se comercial? Sim, óbvio. Mas este processo cultural possibilita, entre 1930 e 1950, o gospel expandir-se pelo mundo além de explorar os truques, fórmulas, repetições rítmicas e padrões de canto e resposta. O gospel vide EUA passa a ser um produto elementar, no aspecto folclórico que tinha, porém apropriado, por uma indústria que o sofistica, o ressignifica como produto lúdico co-participante de uma época de forte venda de entretenimento. Mas, veja que isso não significou a anulação dos elementos de identidade desse estilo. Permaneceram, mesmo que moldados a uma fórmula. Particularmente, quando ouço Take 6, ou Mahalia Jackson, por exemplo, grosso modo sei identificar os elementos estéticos do gospel ali.

Por outro lado a música religiosa no Brasil contém processos históricos dissonantes com os ocorridos no norte da América. Do cantochão trazido pelos jesuítas aos hinos europeizados vindos nas bagagens do protestantismo, perpassado mais através de fontes orais do que documentais, a música religiosa aqui passa a adotar tardiamente o epíteto gospel (em meados dos anos 1990) – Por que isso ocorreu tardiamente? Por que não se chamava de gospel as produções religiosas dos anos 70/80, por exemplo? De certo esse gospel não significa do mesmo modo um blues ou um jazz brasileiro em seus componentes sonoros, mas sem dúvida, a invenção de uma marca de conotação comercial enquanto integrante de uma recém-indústria de música religiosa.

Temos uma música gospel? Sim temos. Mas vale salientar que ela é uma invenção; ela não participa dos nossos processos históricos. Ela existe por que surge dentro de um momento propício, ela surge dentro de uma estratégia, tendo nós como legitimadores.

Ser gospel no Brasil, lembre-se, não tem nada a ver com o som spiritual da Black music, underground, blues. Gospel aqui atualmente está mais pra Globo, Som Livre.

***
Misael Antognoni é graduado em História e Pós-graduando em História Cultural (UEPB) e Música Popular (UFPB). Editor do blog Arte de Chocar, sempre coopera com suas análises musicais aqui no Púlpito Cristão

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9 COMENTÁRIOS

  1. isto é a pratica secular de "nomear" um objeto/produto, chamando-o pelo nome de marca, como lâmina de barbear de "Gillete" e lã de aço de "Bombril". O que se mistura é o gênero ( não sei se é o nome mais adequado), com o segmento musical.
    No meu entendimento o gospel americano está debaixo de um grande guarda-chuva que é a CCM ( Contemporary Christian music ), segmento de música com tema básico, louvor a Deus/Jesus, onde estão todos os demais estilos /ritmos como pop, rock, etc., inclusive as compostas e cantadas por aqui.
    Aqui em terras tupiniquíns os mais espertos, aproveitando a falta de conhecimento/cultura do público em geral, "patentearam"a marca Gospel, que virou sinônimo de "business" – pôe lá a marca "Gospel qualquer" coisa que vende !

  2. Eu queria saber em se tratando de tanta "gospelidades" rsrsrsrs, existentes hoje em dia se as musicas dos padres são gospel ou não?
    e aquelas tocadas nas rodas de macumbas tambem são?
    Porque hoje em dia tudo é gospel para louvar a deus….
    e eles tambem estao louvando seu deus tambem?
    Sabe porque amados, muito do que se toca hoje em dia não louva Ao Grande EU SOU O QUE SOU…
    no maximo eles louvam a si proprios ou entao a Mamom, pois só pensam no dinheiro quando gravam cds.
    Fiquem na Paz total e Grandiosa de JESUS, O CRISTO.

  3. Exelente e necessária a matéria…quero acrescentar ,além do que já foi dito , o que há muito já sei, pois acompanho tudo desde 1990 quando ví o "movimento " inventado por Estevam Hernandes & CIA invadir a mídia e "revolucionar" a musica e o comportamento da juventude cristã protestante(se isso foi bom ou ruim , avaliem vocês). Vi e participei de tudo pois em plena adolescência as bandas gospel/rock (da Renascer ou não) foram pra mim o que o rock dos anos 80 foi para os adolescentes de então.Catedral era meu legião urbana,com suas letras um tanto existencialistas e com uma rebeldia velada. Oficina G3 sintetizavam tudo que haviam no rock até aquela geração , Katsbarnea era a Blitz(no primeiro disco),boa musica/ mensagens divertidas , e por aí vai. Isso tudo foi mais uma revolução cultural,um movimento um tanto libertário sobre usos e costumes mostrando um "deus" e um "jesus" moderno e ligado no que é essencial ao homem moderno dizendo um não as "caretices" (usando um termo do rock) dos tradicionais. Ponto.Nunca ví nada muito espiritual naquilo,era ,sem duvida uma revolução cultural!

    No entando antes disso eu já conhecia a verdadeira musica gospel pois desde criança por acompanhar em filmes e em todo tipo de musica os elementos da cultura afro-americana que é muito calcada na cultura protestante deste grupo etnico em especial- Pra quem não sabe os africanos ,que são um povo muito musical, ao serem evangelizados criaram sua propria maneira de louvar usando seus elementos culturais somados aos aprendidos com os europeus ,o uso do piano,violão,caixa e percussão militar (o que viria a ser a bateria) e teoria musical nos moldes ocidentais.
    O "gospel" brasileiro em quase nada tem elementos do verdadeiro Gospel, que é um estilo definido,com melodias ,harmonias e ritmos típicos.Na verdade é um estilo forjado de maneira natural por seculos de vivencia e é folclore tipicamente norte-americano.Aos curiosos recomendo que pesquisem no site Amazon o termo GOSPEL MUSIC e lá encontrarão muita coisa boa .

    Por outro lado existe a nossa musica popular cristã que é calcada (em parte pois isso depende da denominação, pois há um componente cultural em cada denominação) na nossa musica popular brasileira e por mais contradições que existam acho bom esse tipo de musica (geralmente pentecostal) que é baseada em baiões ,sambas, guaraneas ,toadas sertanejas,cirandas,marchinhas,frevos,tudo enfim que foi forjado pelo nosso povo brasileiro e indubitavelmente o nosso povo negro/mestiço/branco …Essa é nossa experiência, esse é nosso gospel!

  4. A questão é que Hernandes quis pegar o bonde andando! O gospel nos E.U.A é produto da vivencia de um povo por seculos , tem questões históricas e culturais assim como é com o samba no Brasil. O 'gospel' da Renascer é sub-produto da cabeça "publicitária" de Estevam Hernandes calcada numa visão de mercado e numa "teologia" (furada pra mim) inventada sei lá por quem que diz que : Se o gospel (o original) é o estilo que influenciou todos os outros (jazz,blues,rock) a igreja os poderia usar e não somente isso tinha que resgata-los das "mãos do diabo". Com todo respeito a quem concorda ,pra mim é pura balela de demagogia religiosa.Um papo fabricado pra impactar cabeças que não pensam.
    Primeiro por quê musica é resultado da experiência humana, a musica entre os povos transformasse de povo a povo resultado de novas experiências humanas ,de choques culturais e se há musica no céu (e com certeza há) ninguém sabe como é.Logo, penso que se pode usar os vários estilos musicais mas não precisa justificar com teologias furadas que dão poder de criação ao diabo ,alimentando inclusive o folclore idiota de que o diabo é o pai do rock (risos).

  5. Ou seja: contemporary Christian music (musica cristã contemporânea) Aí já é mais coerente com o que se faz no Brasil…Uma musica popular evangelica.Popular pois é calcada em estilos musicais bem "FM' , BEM RADIOFÔNICOS com intuito de fazer sucesso de massa mesmo.São musicas pop romanticas, rocks lentos, soul/funks típicos de jingles de comercial de tv. Pois a população em geral (não só a cristã) não é educada a houvir musica boa.Provavelmente mucias com uma construção mais complexa não faria o tão procurado sucesso!!!!

  6. O Silvio Santos já sabe, se der zebra na sua conta bancária Gizuz não vai permitir que ele sofra qualquer dano.
    Porque???
    É só vender os horários do SBT para os cartolas da fé e coçar o saco na sua linda casa na Flórida.
    Com o crescimento do movimento emergente triunfalista financeiro, com as profecias de Baal na pessoa do Cirola e o cara mais esperto dos EUA Merdock, dá pro dono do Baú rir até se urinar na sala de jantar do do rei do 171 Benny Hinn.
    Em país onde bicheiro manda, safado vira apóstolo e quem não gostou recalme com o bispo Geazi…

  7. MUSICA GOSPEL E MUSICA DO MUNDO É A MESMA COISA,,TODAS SE FAZEM PRA VENDER E OBTER LUCRO,,E O PIOR A GOSPEL VENDE A PALAVRA DE DEUS , A QUAL JESUS CRISTO DECLAROU SE R DE GRAÇA…. E SAO DIFERENTES DE HINOS QUE SAO TIRADOS CEM POR CENTO DA BILBLIA, E NAO PODEM SER VENDIDOS SAO DADOS DE GRAÇA E TAMBEM NAO TEM IDOLOS CANTORES PARA SE IDOLATRAR

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