Graça Comum: Deus limita a maldade dos homens, extraindo até mesmo o bem do mal

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Tecelã faz arte com os fios em Cochabamba. Exemplo da Graça Comum

Por Rodrigo Ribeiro

Bem sabemos que depois da queda, o homem foi dominado pelo pecado(Rm 3.23), tornando-se escravo de suas próprias paixões e morto espiritualmente, sendo esta a doutrina já discutida aqui em outro texto, a Depravação Total. No entanto, tal perspectiva nos deixa diante de um sério dilema: em meio à tamanha corrupção espiritual, como pode haver uma sociedade ordenada com princípios éticos, e relações de afeto? Como as estruturas da sociedade não foram devoradas pelo desejo insano do coração dos homens? A resposta dada pelo Calvinismo é só uma: a graça comum de Deus.

Essa questão me foi esclarecida durante a leitura do excelente livro Calvinismo de Abraham Kuyper, teólogo holandês do século passado, onde ele afirma que assim como o homem domestica os animais, e prende ou controla seres selvagens, assim também Deus limita a maldade dos homens, extraindo até mesmo o bem do mal, para que se preserve a criação, entendido neste conceito não somente as coisas naturais, mas também toda a criação intelectual que também vem Dele.

É tal pensamento que nos explica a retidão moral de alguns incrédulos, que apesar de caídos espiritualmente, tem uma conduta séria e comprometida com suas causas, ao ponto de causar admiração. Isto nada mais é do reflexo da graça comum de Deus, que é a interferência mínima Dele para garantir que o mundo não seja destruído pelos corações pecaminosos dos homens. Esta graça é diferente da especial, sendo esta a que conduz a salvação por colocar a fé no caminho do escolhido.

A graça comum é um conceito rico e que nos dá amplas possibilidades de contemplação por caminhos muitas vezes negligenciados por separações equivocadas que foram construídas com base em premissas erradas, como a separação do sagrado e do profano. Neste mesmo livro, Kuyper prega que a cosmovisão calvinista, que nada mais é que a exposição clara e fiel das Santas Escrituras, deve permear todas as esferas do conhecimento humano, e  que restringir este pensamento ao ciclo religioso (como temos feito) acaba  isolando-o e entregando as ciências, a política e as artes nas mãos das vãs filosofias, desperdiçando uma ótima oportunidade de glorificar a Deus através destas áreas da convivência humana.

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Paulo afirma em colossenses que: “Pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. E ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste.” [1] Assim, é uma posição falha o isolacionismo do pensamento cristão que deve abranger com completude o ser humano, já que tudo foi feito por Deus e tem como fim Cristo. Muda-se o paradigma: não me afasto do mundo, mas somente daquilo que é pecaminoso nele..

Mas, dentro do campo vasto onde podemos notar o agir de Deus em lugares onde dogmas infundados nos impediam de ver, gostaria de limitar a análise e deter-se na questão da arte, citando o também holandês Hans Rookmaaker, e sua defesa de que a arte não precisa de justificativa: Assim, a arte deve abrir os olhos das pessoas, ou servir como decoração, ou louvor, ou ter uma função social, ou expressar uma filosofia em particular. A arte não precisa de desculpas. Ela possui seu próprio significado que não precisa ser explicado, assim como o casamento ou o próprio ser humano, ou a existência de um pássaro ou flor ou montanha ou mar ou estrela. Todos eles detêm um significado porque Deus os criou. Seu significado é que foram criados por Deus e são por Ele sustentados. Assim, a arte tem sentido como arte porque Deus considerou bom dar arte e beleza à humanidade. [2]

Esta conclusão é bela e instigante: a graça comum de Deus nos agraciou, em meio a tanta corrupção, com a beleza da arte. Ao visitar o museu da língua portuguesa em São Paulo, não pude ter outra afirmação em mente se não esta, e vi verdades eternas em muitas obras de homens que não a conheciam, e esta é a beleza do agir de Deus como maestro na criação, se revelando até mesmo através daqueles que não o conhecem. Este texto é na verdade uma introdução a uma série que pretendo fazer nos próximos meses, analisando sob a ótica da graça comum concepções em canções e poesias sobre a criação, a morte, o amor, o sentido da vida e etc. Além de introduzir, este artigo também nos dará o aporte teórico para esta viagem. Aguardo sugestões para incrementar este trabalho, com indicações de até mesmos outras manifestações artísticas como artes plátiscas e cinema, assim como temáticas para serem tratadas. Termino com um nítido exemplo de verdade de Deus que brota fora dos celeiros eclesiásticos:

Três âncoras deixou Deus ao homem: o amor da pátria, o amor da liberdade, o amor da verdade. Cara nos é a pátria, a liberdade mais cara; mas a verdade mais cara que tudo. Patria cara, carior-Libertas, Veritas carissima. Damos a vida pela pátria. Deixamos a pátria pela liberdade. Mas pátria e liberdade renunciamos pela verdade. Porque este é o mais santo de todos os amores. Os outros são da terra e do tempo. Este vem do céu, e vai à eternidade. (Rui Barbosa) [3]

***
UMP da quarta / Púlpito Cristão

Notas:

[3]PAULO: In: A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, São Paulo, 1993. Epístola aos Colossenses, capítulo 1, versículo 16 e 17. 1060p.
[2] H. R. Rookmaaker, Modern Art and the Death of a Culture, 2nd ed. (Londres: Inter-Varsity Press, 1973), 229-30.
[3] BARBOSA, Rui. A inprensa e o dever da verdade. São Paulo: Com-Arte; Editora da
Universidade de São Paulo, 1990, 80 p. (Clássicos do Jornalismo Brasileiro; 2)

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6 COMENTÁRIOS

  1. Sempre ‘briguei’ pela discussão da Graça Comum entre os cristãos. Acho de alta relevância…A Bíblia nos ensina por inferência e quer que saibamos nos envolver com o mundo de forma sadia (1Co 10.31; Fp 4:8)
    Quando não atentamos para os dons e talentos exercidos com excelência por não-cristãos, ignoramos os traços da graça divina na terra.
    Por fim, já perceberam que muitos dos que ignoram o tema, acabam não sendo educados pra lidar com o ‘secular’ rejeitando muitas vezes as ‘artes seculares’, mas se deleitando em entretenimento, ciência, lazer e até em vícios.
    Tiago 1.17 nos faz entender como Deus freia o mal na terra e faz a sua criação ainda existir, mesmo em meio ao pecado, com certa harmonia.

    Ótimo Post do meu conterrâneo.

    Viva a graça Comum!!

    Quer ler Mais sobre Graça Comum? Vejam tmb:

    * Deus: o poeta da vida: http://pulpitocristao.com.br/2011/05/deus-o-poeta-da-vida/
    * O agir de Deus na vida Secular: http://artedechocar.blogspot.com/2011/07/o-agir-de-deus-na-vida-secular.html

  2. Se Deus é um propiciador de benefícios desordenados para homens sem afeto como Kennedh Haigan, Sila$ Malafaia, Cerullo, Jyce Mayer, Valdomiro Santiago, Renê TerraNova, Edir Macedo,Infeliciano, Gondim e outros semi-due$e$, como pode a igreja estar no centro da vontade de Seus , em meio as hipócriatas pregações que levam o povo a crer num deu$ capacho e dissimulado, egoista e fermentado?
    Que versículos são estes?
    Mt 06:24 – Mt 10:08 – Gl 06:07,08 & Tt 01:11???

  3. Graça e paz Querido João Ferreira.

    N entendi bem seu comentário.

    Pra começar, Deus não é propiciador de benefícios desordenados. Deus é fonte de conhecimento, dom e talentos e distribui Sua Graça em igual aos homens. (Tg 1.17, Sl 145.1-21, Tg 1.16-18, Lc 6.32.36, Atos 17.28)

    Sobre ter citados a turma da heresia, te pergunto: De qual igreja vc está falando ao refletir sobre o centro da vontade de Deus?

    Talvez vc esteja confundido a Igreja invisível com os templos da turma da heresia.

    Abraço
    Fp4.8

  4. Pr João Ferreira, se o senhor concordar em me dar o seu endereço para correspondência eu vou lhe enviar alguns livros do Pr Kenneth Haigin. Por favor, não tenha preconceitos. Depois da leitura o senhor tira as conclusões. KH não têm nada a ver com os outros ministérios dos irmãos citados pelo senhor. Abração.

  5. É interessante sabermos que a graça comum apesar de advir da benevolência de Deus, age nesta terra apenas como regulador social, pois afinal, se ela não existisse seria impossível viver aqui. Mas ela não passa de algo realmente comum, como o ar, o sol, a água, o alimento, a ordem social, a gravidade, que são dados a todos, e recebemos de maneira tão natural e sem maiores considerações.
    Não sou a favor que a igreja viva encapsulada com medo do mundo, pelo contrário, devemos ser luz no mundo, iluminando-o com toda a Palavra, a Verdade, e a vida que é propiciada pelo Espírito Santo e que só os regenerados tem. Devemos priorizar a proclamação daquilo que é indubitavelmente Divino, ou seja, a PALAVRA e o testemunho Cristão.
    A questão da arte, por mais bela que seja, se não teve a motivação consciente e clara de glorificar o Deus que criou todas as coisas, não passará de talento, competência, trabalho, dedicação e resultado. Esta é a receita de sucesso em tudo que se faz, em qualquer ramo de atividade da vida humana. Por isso, a graça comum não serve como referência para edificação da igreja ou para iluminação do mundo espiritualmente falando.
    O fato da graça comum ser dada pela benevolência de Deus não significa dizer que devemos adotá-la em nossas vidas ou admirá-la a ponto de indica-la, ou que deva ser referência em alguma coisa na vida do Cristão. Numa comparação grosseira, Deus criou Lúcifer, e não vamos amá-lo por isso.
    Alguns "intelectuais" da igreja, ou cabeças "pensantes", tem se abstido da questão da motivação principal na elaboração da arte "comum". Volto a dizer, esta motivação para o Cristão verdadeiro faz total diferença, uma vez que a Bíblia determina ao homem que devemos fazer tudo para a glória de Deus. Portanto, por mais que seja bom e belo, por mais que seja nobre e sábio, por mais que seja sadio e de necessidade indiscutível, talvez até seja bom para a sociedade na qual nos inserimos, mas ainda será graça "comum" e não servirá como referência para a vida da Igreja.
    Lamento que atualmente vejo em muitas igrejas, mesmo nas consideradas de sã-doutrina, em artigos de cunho de ensinamento teológico, e mesmo nos púlpitos, homens de Deus citando trechos de músicas e de poemas de artistas consagrados, mas que, até onde se sabe, ainda não foram atingidos pela graça redentora. Estes irmãos, formadores de opinião, devem repensar suas responsabilidades e conseqüências de seus atos diante do Corpo de Cristo.
    Que a "graça especial" de Deus ilumine os nossos pensamentos, e que a nossa "visão pessoal" diminua ante a sublimação da Palavra de Deus e do poder do Espírito Santo. Grande e Fraternal abraço. Célio Linhares.

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