Por que as novas igrejas evangélicas fazem tanto sucesso?

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Colunista da revista época comenta o crescimento das novas igrejas evangélicas e a cultura religiosa de mercado
Por Eliane Brum

Há um vídeo circulando na internet que tem provocado ataques de riso. É bem engraçado mesmo. Mas não é apenas isso. Ele nos dá a possibilidade de pensar algo importante: por que as novas – novíssimas – igrejas evangélicas arrebanham tantos fiéis e fazem seus criadores, sempre um bispo fulano ou apóstolo sicrano, enriquecer com uma rapidez de deixar qualquer capitalista orgulhoso. E em seguida expandir sua igreja para outros países/mercados – ou muito pobres ou povoados por imigrantes de países pobres. Ao mesmo tempo em que passam, como qualquer empreendedor competente, a diversificar seus negócios para outras áreas de atuação. O fenômeno é bem conhecido, mas este vídeo de três minutos pode nos ajudar a alargar a questão para outros pontos de vista.

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O vídeo no YouTube se chama “O milagre da privada”. E, ao terminar de assisti-lo, podemos pensar, com algum senso de humor, que o conceito de onipresença divina acabou de ser ampliado. Nele, uma senhora muito carismática conta ao pastor que Deus fez um milagre com ela. Pelo que entendi, ela usou um travesseiro vendido na igreja através do qual o poder divino se manifesta. No caso dela, colocou o travesseiro na barriga, sobre a região do intestino, e pela primeira vez na vida, segundo seu relato, conseguiu o que lhe parecia impossível.

E aí os leitores mais pudicos que me perdoem – assim como a Época, que com toda razão exige um texto elegante –, mas neste caso é essencial respeitar a linguagem usada, porque ela contém informação. A senhora conta que finalmente, depois de décadas de sofrimento, de passar “de 15 a 20 dias” sentando-se na privada inutilmente, graças à interferência divina obtida através do travesseiro e da igreja, conseguiu dar “uma bela de uma cagada”.

Apesar de termos pudores com esta parte do cotidiano do corpo, a única que nem toda a riqueza do mundo consegue fazer cheirar bem, a compreensão do relato é imediata. E a mulher dá seu testemunho com uma alegria e uma sinceridade que me parece que rimos com ela, por identificação humana – e não dela. O que faz uma grande diferença.

A senhora parece realmente feliz por Deus ter lhe soltado os intestinos depois de uma vida inteira de prisão. Para ela era um grande drama – e todos nós sabemos que pode mesmo ser. “Meu Deus, por que todo mundo caga menos eu?”, relata ela. “Misericórdia, meu Deus!” Era este, afinal, o milagre que esperava de sua fé.

Ela deve ter muitas outras mazelas na vida, mas a maior de todas era esta. E supostamente seus problemas na área acabaram. Porque este ato tão simples para a maioria da humanidade lhe era negado, ela usa a palavra “cagar” várias vezes. Goza com a palavra que nomeia a função a qual finalmente tem acesso. E é por isso que eu a repito aqui. Porque usar “defecar” seria uma traição à sua narrativa.

O vídeo parece genuíno, mas não tenho como comprovar sua veracidade. Se ela é uma atriz, merece um Oscar. Se for uma peça de humor, é ótima. De qualquer modo, “milagres” comezinhos acontecem aos milhares todo dia nessas novas igrejas evangélicas, determinantes para a transformação do Brasil num país cada vez mais multirreligioso. Basta ligar a TV ou acessar os respectivos sites para testemunhar que, se existe um Deus, ele anda ocupadíssimo resolvendo questões as mais prosaicas. Escolho este “milagre”, e não outro qualquer, apenas porque ao alcançar o território da privada ele explicita ainda mais o fenômeno na esfera pública.

A imprensa tem denunciado a exploração dos fiéis e o enriquecimento ilícito de algumas dessas igrejas – e, principalmente, a locupletação de seus fundadores. Como na ótima reportagem “Milagres e Milhões”, de Ricardo Mendonça e Mariana Sanches, publicada na Época em 2010. Os exemplos são muitos e contundentes. Mas há algo, de outra ordem, que é importante compreender nesse fenômeno. E que a senhora de “O milagre da privada” nos conta muito bem.

O problema que encontro na crítica generalizada que se faz a essas novas igrejas evangélicas, da mesa de bar às discussões mais formais, é o menosprezo da capacidade de discernimento do povo. Supostamente os fiéis que lotam os templos seriam apenas vítimas de estelionatários da fé. Dando um dinheiro que lhes falta para quase tudo em troca de fumaça. Me parece que esta é uma verdade em alguns casos – mas apenas parte dela. É preciso complicar mais a questão.

Primeiro porque a fé, por definição, não pertence à esfera das comprovações científicas. Se fosse este o critério, haveria de se proibir todas as igrejas, inclusive a Católica. Fé é crença, não ciência. Você acredita se quiser ou puder. Alguns têm fé, outros não. A Constituição brasileira acolhe a todos ao admitir a liberdade religiosa. Mesmo que – ainda bem – o Estado seja laico. Isso significa que, se a senhora do vídeo quiser acreditar que o travesseiro ungido libertou seu intestino, é um direito dela. Da mesma forma que outros acreditam que João Paulo II é santo. E outros não acreditam em nada.

O problema maior, em meu ponto de vista, é achar que o povo que escolhe essas novas igrejas e acredita em milagres como esse é apenas uma vítima passiva. Este raciocínio reduz as pessoas e a compreensão do fenômeno. Ninguém dá nada – muito menos o seu dinheiro – se não recebe algo em troca. Quando esta troca se desequilibra e as pessoas se sentem enganadas, como em qualquer negócio, elas ou mudam de igreja ou vão à Justiça – se conseguirem acesso.

O povo brasileiro é bastante pragmático. E me parece que as pessoas entendem claramente que é um negócio, ainda que seja um negócio embrulhado em fé – e por isso a maior parte dos casos na Justiça é dessas igrejas e não das tradicionais. Não me parece que a busca maior nesse caso seja pela transcendência: o que se quer é uma solução prática e imediata, como é o espírito do nosso tempo apressado. Se dessacraliza o sagrado para sacralizar literalmente a mercadoria.

Pensar que os fiéis não sabem o que fazem pode ser arrogância – e até preconceito. Assim como ficar repetindo que o povo não sabe votar quando o resultado do processo democrático é diferente do esperado por determinada pessoa ou grupo político.

E o que essas igrejas oferecem que faz valer a pena dar um dinheiro que fará falta? Algo que possivelmente as pessoas que as procuram não encontram em nenhum outro lugar: acolhimento e escuta. É por isso que pagam. Há uma enorme carência de escuta em nosso tempo. Nunca se falou tanto – e talvez nunca tenha se escutado tão pouco. É este o vácuo que tem sido ocupado pela religião de mercado.

Que outro lugar, neste país, hoje, está de portas abertas e com alguém a postos para escutar o que o outro tem a dizer, ainda que possa ser apenas para avaliar o quanto de dinheiro poderá arrancar de quem desabafa? Se você está doente ou seu marido é alcoólatra, você vai encontrar alguém que o escute no SUS? Se seu filho está mal nos estudos ou agressivo em sala de aula e em casa, ou envolvido com traficantes, você vai encontrar alguém que o acolha na escola ou em outra instituição? Se você está sem emprego ou sua casa foi levada pela enchente porque a prefeitura e o estado deixaram de fazer as obras necessárias, onde você vai encontrar um teto e um banco para sentar e um ombro para chorar, ainda que tenha de dar o último trocado que restou no seu bolso? Em que outro lugar você se sentirá parte, ainda que no meio de uma multidão, mas uma com a qual você se identifica e o reconhece como um igual?

Por mais fraudulento que possa parecer – e em muitos casos é –, há algo que funciona nesses espaços. Há uma mercadoria que é entregue – ou os templos estariam vazios. E é entregue em geral não por um pastor ou bispo ou apóstolo ou irmão fulano qualquer, mas um fulano com um nome, sobrenome e rosto parecido com o do fiel. Este acolhimento e esta escuta fazem diferença na vida dessas pessoas ou elas não estariam lá. Deveria ser diferente? Acredito que sim. E lamento que não seja.

Mas as pessoas, todas e especialmente as mais pobres e desamparadas, têm de se virar com a realidade que está aí. Hoje, agora. E estas são as portas que estão abertas – quando quase todo o resto parece falhar. Ou está fechado. Ou não tem vaga.

Onde mais a senhora do vídeo poderia contar no microfone, ser ouvida e ser abraçada por aquele que está no lugar da autoridade porque deu “uma bela cagada” pela primeira vez na vida?

Pois é.

***
Época / Púlpito Cristão

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11 COMENTÁRIOS

  1. O "apóstolo" não precisou "peidar em púlpito" para que a "cagada milagrosa" ocorresse. O travesseiro poupou o suor milagroso, normalmente usado para a "cura e libertação" e especialmente o milagre da multiplicação…dos $$$$$$$$. Brincadeiras à parte, considero oportuna essa abordagem por advertir os apressados de sempre em literalmente desqualificar as pessoas que acreditam em milagres desses e outros tipos. Fidelidade e incredulidade são dois atributos completamente opostos, como se vê no diálogo entre o Cristo Ressurreto e o discípulo Tomé que não acreditou na ressurreição do Crucificado. Tanto a fé quanto a descrença precisam ser explicadas no contexto em que se insere. E, nesse ensaio, Eliane Brum esclarece muito bem qual é o contexto por meio do qual as igrejas "evangélicas" fazem tanto sucesso. Muitos falam, poucos escutam. Nas famílias pais e filhos travam diálogos de surdos, pois a fala (ou os berros) sempre prevalecem em relação ao ouvir. Nas escolas (sou professor) docentes e discentes são seres estranhos que não ocupam o espaço do diálogo que é a sala de aula. Idem as instituições públicas. As únicas opções são as igrejas que realmente escutam os clamores do povo oprimido, ainda que essas escutas são seletivas, mas aí é tema para outros artigos.

  2. O que me chamou a atenção no vídeo aos 2:46s, foi a quem ela clamou no momento de aflição quando correia para o banheiro "Valha minha nossa senhora".
    Pensei que ela era evangélica.
    Em Cristo.
    Gilberto

  3. Crer ou não crer: Eis a questão.
    A ciência será que poderia explicar como acumular tanta m…e não ser hospitalizada?
    Sinto muito mas tem testemunhos que devem ser analisados em sua totalidade. Deus não deixava ela ser hospitalizada com tanta m… dentro, mas deixava ela ter a prisão de ventre eternamente? O porquê disso eu não sei. Mas posso dizer a vocês que fui curado de hemorróidas (rs, rs) fazendo uma oração. Também fui curado de uma micose na unha do pé orando durante a aplicação do remédio que segundo me indicaram ia demorar meses para curar. E olha que já tinha usado o mesmo remédio antes, mas parei porque estava demorando muito. Minha tia que me indicou a dermatologista, até hoje tem a mesma micose e ainda não curou. Disse a ela que a diferença foi porque eu orei enquanto aplicava o remédio. Mas ela ainda não decidiu crer no Deus que pode o que nos é impossível.

  4. " E estas são as portas que estão abertas – quando quase todo o resto parece falhar. "
    Realmente quase todo o resto parece falhar, principalmente quando o foco de textos e palavras são as críticas às outras denominações; imagino que esses textos sejam estritamente para os "cristãos".

  5. O suposto "milagre" pode ser explicado como um simples efeito psicossomático.

    Por que essas pessoas não procuram algum grupo religioso que, em vez de dízimos e ofertas, pede aprendizado bíblico e mudanças cristãs no modo de pensar e agir?

    * * *

  6. Os sinais e maravilhas são as credenciais do evangelho também. Eu sei que está havendo embuste no nosso meio, mas também acontecem milagres. Já fui várias vezes beneficiada na saúde pelo ministério Deus é Amor. Só quem tem prisão de ventre conhece a alegria na liberação dos choquitos. Deus age conforme lhe apraz. Podemos ser curados em lugares e maneiras diferentes. Aí vai um testemunho meu: certa vez, fiquei muitos dias com uma dor de cabeça que não parava. Orei, os outros oraram, néca. Pensando já em ir ao médico, para minha surpresa, quando estou sentadinha no sanitário, e muito irritada com a dor de cabeça, então eu fiz a oração mais curta e estranha da minha vida: "Deus, o Senhor vai me deixar morrer com esta dor de cabeça?
    Pasmen! Imediatamente vi uma treva se afastando de perto de mim, dando o fora. Fiquei totalmente curada. A igreja do Senhor deve ensinar muito a Palavra, mas ela não deve ignorar os dons do Espírito. Deus quer perdoar, Deus quer edificar em sabedoria, Deus quer curar e libertar, mas muitas vezes não deixamos. O que está acontecendo nas igrejas, é que: quando se dedicam a Palvra, não buscam o poder para os sinais; quando se dedicam somente a oração e a buscar o poder, os pentecostais acabam relaxando no primordial, que é o ensino da Palavra – o que traz problemas: as heresias, modismos e meninices – um perigo para a igreja. Temos que nos aperfeiçoar na Palavra e nos dons também. A igreja apostólica cresceu por causa da unidade e amor que eles tinham, mas também pelos sinais e maravilhas. O nosso Deus também é Deus de milagres. Outro dia, uma irmã começou a orar por um rapaz que ela conheceu na infância. O rapaz ficou tão doente a ponto de não mais sair da cama. Essa irmã ligou para os pais do jovem doente – a família é igreja tradicional – a irmã disse que sentia que o Espírito queria curá-lo, e indicou uma igreja onde o ministério é de cura. A família destratando a irmã recusou porque achavam ser aquela a vontade de Deus. Viram a incredulidade? Por outro lado, temos também outros erros: dessa vez dos pentecostais: estando eu em uma oração de fogo, chegando na hora da pregação, o pastor convidado nos deu uma coça de Bíblia. Pregava ele muito bem. Sabem o que aconteceu? A maior parte cochilaram pesadíssimo, inclusive a liderança do trabalho. Já pisei em igrejas(muito poucas, há anos) que pregavam a Palavra como ela é, que se dedicavam ao ensino, e no entanto, buscavam os dons. É isso aí. Nem oito e nem oitenta. Abs.

  7. Porque a maioria é carnalidade pura, só tem mentira, venda de votos, promessas que deus nunca vai realizar, mas o povão adora uma profecia safada, uma visão agradável e enfiar dinheiro nos comerciantes de bençãos, os chamados traficantes de glória.
    Se Deus estiver nesses antros de perdição, melhor seria que todos abrissem igreja que dá mais dinheiro que trabalhar em troca de salário mínimo.
    Pra que trbalhar se vc pode decorar a Bíblia e se auto denominar pastor, bispo ou para ficar milionário apóstolo.
    No Brasil nada é sério mesmo, só vão presos quem deve pensão pra filho, a maioria dos pastores querem tem programinha na TV, carro importado, garotas gostosas sentadas nas primeiras filas, tudo sem o menor esforço já que vem tudo na molesa com o dinheiro dos "amados"…

  8. 1- Pessoas que não sabem mais o que fazer com os problemas.
    2- Pessoas que não aceitam um evangelho curto e grosso.
    3- Pessoas simples e sinceras que acham firmeza na pregação dos líderes.

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