Não se faz mais hereges como antigamente

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Por Jonas Madureira
Título original: Pastores Hereges

Não se fazem mais hereges como antigamente. Pode parecer um absurdo o que vou dizer agora, mas é a mais pura e cândida verdade: os hereges de hoje não têm mais a mesma hombridade que tinham os velhos arqui-inimigos da ortodoxia cristã. O mais engraçado é que não estou dizendo nenhuma novidade. No início do século XX, G. K. Chesterton já ironizava a picaretagem dessa figura surtada e carismática do neo-herege. Se não me falhe a memória, esse admirável inglês fanfarrão certa vez disse algo mais ou menos assim:

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No passado, o herege se orgulhava de não ser herege. Ou seja, ele odiava ser taxado de herege. Na verdade, gabava-se de ser um ortodoxo legítimo, pois tinha a convição de estar certo em sua compreensão doutrinária. Nenhuma tortura, por mais cruenta que fosse, poderia fazê-lo admitir que era um herege. Mas infelizmente um novo mundo surgiu, e com ele veio o neo-herege: uma personagem excêntrica, que vive dizendo, com distribuição aleatória de sorrisos, “Sou o herege da vez!”, e, é claro, sempre correndo os olhos à procura dos aplausos e bajulações. Assim, nessa atual conjuntura, a palavra “heresia” não somente significa estar provavelmente certo como praticamente agrega os qualificativos de lucidez e coragem a essa figura um tanto curiosa do neo-herege. Por inicrível que pareça, nesse novo contexto, a palavra “ortodoxia” não só deixa de significar “estar certo”, mas denota justamente o contrário: os ortodoxos estão sempre errados.

Pois é, pessoal, não se fazem mais hereges como Berengário de Tours, Pedro de Bruis, Pedro Abelardo, Arnaldo de Brescia, Pedro Valdo e outros tantos “digníssimos” hereges do medievo escolástico. Talvez seja esse o motivo que explica a saudade que sinto dos hereges do século XI e XII, quando leio os hereges de hoje, sabe?! Tá certo que é uma saudade um tanto mórbida, concedo, mas você há de convir comigo que é de certa forma uma saudade justificável, principalmente, quando vemos os neo-hereges defendendo o ateísmo de forma “capital” e, ao mesmo tempo, se autoafirmando como pastores.

Pastores hereges. Que contradição dos termos, meu Deus! O pior é que, como não bastasse o ateísmo pastoral, ainda temos de ouvir que “a decadência do protestantismo na Europa, na verdade, é a realização do próprio protestantismo, i.e., a consumação do ideal protestante é o esvaziamento de suas próprias igrejas”. É o fim da picada! Ou seja, o objetivo do protestantismo é tornar os cristãos cidadãos cada vez mais cidadãos, menos preocupados com a ortodoxia cristã e cada vez mais preocupados com a questão dos direitos humanos, da dignidade humana e do meio ambiente (como se essas coisas fossem antitéticas!). E o pior, meus caros, é que o marco final dessa pseudoevolução protestante atinge o clímax com a pretensa alforria dos cristãos, i.e., a “desigrejação” dos que são oprimidos pelo Deus títere e infantilizador da ortodoxia protestante.

Quanta péssima heresia, Senhor! Perdoe-os, ó Pai santo, porque já não sabem mais fazer heresias como antigamente!

***
Jonas Madureira é teólogo, filósofo, editor de Ediçoes Vida Nova e pastor da Igreja Batista Fonte de Sicar

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5 COMENTÁRIOS

  1. Curioso, este texto me faz imaginar um soldado reclamando da qualidade atual dos seus inimigos. Soldados são assim, vivem pela sua espada; sua armadura e estão preparados para adversários a sua altura, sem guerra resta o saudosismo ficam como perdidos, mas… Não é o final da guerra que almejamos?

  2. Que isso, esse texto foi pra mim.
    Li uma reportagem hoje da Carta Capital de um cidadão que é exatamente o que está no texto.

    Ótimo!!!!

  3. Sim, Jairo! Embora seja apresentado como um reformador evangélico, Pedro Valdo foi CONSIDERADO pela igreja como um herege pelas mesmas razões que Arnaldo de Brescia. Vale a pena ler a tese de Michel Rubellin "Na época em que Pedro Valdo não era herege: hipóteses sobre o papel de Valdo em Lyon (1170-1183)". Citei Pedro Valdo entre os hereges do medievo pelo fato de ele jamais ter admitido ser CONSIDERADO como um herege. Sacou?!

    Um forte abraço!
    Jonas

  4. Muito bom, adorei o artigo.

    Vejam, eu sou anglicano, e com as recentes decisões do STJ sobre relações "homoafetivas" (sic) não fiquei nenhum pouco surpreso com as declarações favoráveis da IEAB, a mais tradicional Igreja Anglicana do Brasil. Pois bem, hoje estou levando este artigo ao conhecimento de meus amigos anglicanos para que possamos refletir. Rejeitamos e não fazemos parte da IEAB (alguns ainda fazem), e precisamos sempre estar alertas contra tais heresias insinuantes que querem reconfigurar a Fé Cristã.

    Faz tempo que não comento aqui, mas esse artigo realmente me surpreendeu.

    +Rev. Marcelo Lemos

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