Novos Evangélicos ou antigos protestantes?

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Lutero, interpretado por Joseph Fiennes

Por Augustus Nicodemus Lopes

A revista Época desta semana (7/8/10) traz reportagem de capa sobre a reação de diversos segmentos da igreja evangélica ao crescimento das igrejas neopentecostais. O artigo pode ser lido aqui.

O título é Os Novos Evangélicos e a capa é ilustrada com uma foto da construção de uma réplica do templo de Salomão que está sendo realizada pela Igreja Universal em São Paulo.

O artigo representa um avanço na maneira como a mídia em geral trata os evangélicos, como se fossem todos farinha do mesmo saco. E farinha imprestável. Ricardo Alexandre, o articulista, reuniu depoimentos de líderes evangélicos de diversos segmentos (incluiu um sociólogo ateu) e mostrou como todos eles concordam numa coisa: sua rejeição às doutrinas e práticas das igrejas neopentecostais e o desejo por uma mudança profunda nos atuais rumos da igreja evangélica brasileira.

Neste ponto, nada a reparar. De fato, de pentecostais a episcopais, reações contrárias a estas igrejas, consideradas como seitas por algumas denominações históricas(*), têm sido veiculadas abertamente por meio de blogs e livros. Já estava na hora da grande mídia ouví-las e entender que nem todos que fazem reuniões onde o nome de Cristo é citado são necessariamente evangélicos ou mesmo cristãos.

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Eu só fiquei um pouco desconfortável com dois ou três pontos da matéria que cito aqui. Estou à vontade para isto uma vez que meu nome foi mencionado no artigo, ainda que de raspão.

1) Achei que o título do artigo na capa é um equívoco histórico, pois “novos evangélicos” se aplica mais exatamente a grupos como a IURD, Renascer e Igreja Mundial e não aos que estão reagindo a estes grupos. Eu não me considero um “novo evangélico” e sim um bem antigo, com raízes históricas na Reforma do séc. XVI e teológicas nas Escrituras Sagradas. Não tem nada de “novo” em nosso desejo de ver o antigo Evangelho ser pregado corretamente em nossa pátria. Estas seitas é que chegaram ontem. Todavia, entendo o autor. Estes grupos neopentecostais cresceram tanto e influenciaram tanto a mídia e a opinião pública que viraram o padrão. Eles é que são os “evangélicos”. Quem não é como eles e quer mudanças é visto como o novo, a novidade.

Num certo sentido foi isto que aconteceu na Reforma. Os reformadores foram acusados pelos papistas de estar trazendo “novidades” na igreja, ao pregar que a justificação era pela fé somente. Lutero e Calvino retrucaram que estavam pregando as antigas doutrinas da graça, encontradas nos Pais da Igreja e nos ensinos de Cristo e de Paulo. Eu entendo que para uma igreja como a de Roma, com vários séculos de existência, os protestantes pareciam nova seita. Mas convenhamos – considerar episcopais, presbiterianos e assembleianos como “novos evangélicos” é passar recibo para a pretensão destes grupos sectários de serem igreja evangélica legítima.

2) Também achei que pode ter ficado a impressão para leitores menos avisados que os reacionários estão unidos entre si e que se aceitam mutuamente, sem problemas. Antes fosse. Mas, nem sempre o inimigo do meu inimigo é meu aliado. Eu entendo que o foco do artigo é as igrejas da prosperidade. Mas não posso deixar de ressaltar que aqueles que se levantam contra os abusos destas seitas não são necessariamente aliados entre si. Na verdade, pode haver entre eles diferenças tão abissais como a que existe entre eles e as seitas da prosperidade.

3) Denunciar o erro dos outros não nos absolve dos nossos. Se por um lado as seitas neopentecostais espalham um falso evangelho deformado pela teologia da prosperidade, há os que também propagam um evangelho distorcido pelo liberalismo teológico e por heresias antigas. As seitas da prosperidade acabaram sendo demonizadas como a própria encarnação do anti-evangelho a ponto de, conforme o artigo de Época, se fazer necessária uma nova Reforma protestante. Não discordo deste ponto, apenas considero que o enfoque nele acaba desviando a atenção de outras linhas de pensamento dentro dos arraiais cristãos que são tão prejudiciais quanto a teologia da prosperidade e que igualmente clamam por uma Reforma.

Por exemplo: e aqueles que destroem a fé em Jesus Cristo e nos padrões morais do Cristianismo? A mídia fica indignada com o mercenarismo dos pastores destas seitas, mas aplaude os evangélicos que defendem o casamento gay, o aborto, a teoria da evolução contra o relato da criação, o relativismo moral, o sexo livre e o ecumenismo com todas as religiões. A mídia não consegue enxergar que liberalismo teológico e teologia da prosperidade são irmãos gêmeos e hipocritamente aplaude um e condena o outro.

Não me entendam mal. A reportagem está correta. É preciso deixar claro que estes grupos neopentecostais estão deturpando o Evangelho de Cristo. Porém, é tendenciosa. Retrata os neopentecostais como a raiz de todos os males no meio evangélico, esquecendo o dano feito pelos liberais, pelos defensores de outro deus e pelos libertinos.

4) Por último, acho que faltou mencionar que os chamados “novos evangélicos” concordam apenas que é preciso uma mudança, mas discordam entre si quanto ao modelo de igreja que deve ocupar o lugar desta seitas. A Reforma do séc. XVI, em que pesem as diferenças entre os reformadores principais, tinha uma mensagem relativamente uniforme e praticava um modelo de igreja que era basicamente o mesmo. É só comparar as confissões de fé escritas por presbiterianos, batistas, episcopais, congregacionais e independentes para se verificar este ponto. Já os tais “novos evangélicos”… bem, há entre eles desde os “desigrejados,” que desistiram completamente de qualquer coisa que se pareça com uma igreja, até aqueles que desejam apenas expurgar o modelo tradicional de igreja dos acréscimos indevidos em sua doutrina, culto e prática, mantendo a pregação, o batismo e a ceia e o exercício da disciplina para os membros faltosos.

E no meio ainda temos os emergentes, as igrejas em células sem liderança oficial, igrejas com liturgia inclusiva e por aí vai.

É aquela velha história. Grupos contrários se unem contra um inimigo comum e após vencê-lo começam a brigar entre si. A luta comum contra as igrejas da teologia da prosperidade está longe de representar uma nova Reforma. Quando esta luta terminar – se é que vai terminar um dia – teremos de continuar a outra, mais antiga, que é contra o liberalismo teológico fundamentalista, o relativismo moral, o pluralismo inclusivista e o libertinismo que assolam os evangélicos no Brasil muito antes de Edir Macedo abrir seu primeiro templo. Para mim, estas coisas são até mais perniciosas, pois enquanto que as seitas neopentecostais criam suas próprias igrejas e comunidades, os liberais se infiltram nas estruturas e igrejas criadas por conservadores e drenam seu vigor até deixar somente a carcaça.

***

Augustus Nicodemus Lopes é pastor e teólogo calvinista. Junto com Solano Portela e Mauro Miester, edita o excelente blog O tempora, O mores!. Título original: Novos Evangélicos?!

(*) A Igreja Presbiteriana do Brasil, por exemplo, passou a considerar a IURD e a Igreja Mundial do Poder de Deus como seitas desde julho de 2010, exigindo que membros destes grupos sejam rebatizados ao ingressarem nas igrejas presbiterianas locais.

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19 COMENTÁRIOS

  1. Quero parabenizar o pastor Augustus Nicodemus pela brilhante análise da realidade vivenciada pela Igreja Evangélica. Ratifico em tudo suas considerações, pois também sou um antigo protestante.

  2. Hoje vemos o que mais vemos é um evangelho antropocêntrico (que o homem é o centro), do que voltado para Jesus. Com hinos que servem somente para massagear o ego dos chamados “cristãos” e palavras de auto-ajuda, que mais servem para manter a vida de religiosidade, do que exigir uma mudança de vida. E indo muito mais além disso, vemos que a igreja está se tornando somente uma instituição, preocupada muito mais com os “números”, com os gráficos de crescimento, do que com a vida e a espiritualidade cristã. Como dizem, “somos apenas números para o sistema”, estamos nos tornando apenas números para esta chamada igreja da atualidade.

    Blog Emunah: http://falandoemunah.blogspot.com/

  3. Maravilhoso texto!
    Com certeza a questão é muito mais profunda do que apenas combater os neopentecostais.
    A igreja precisa muito mais viver o evangelho verdadeiro do que simplesmente se posicionar contrária ao falso.

  4. Acredito que a supremacia de Deus transcende a estas questões que perante a sua glória se tornam temporal, sazonal.
    Evidentemente sei da necessidade de reverberar a hegemonia das sagradas escrituras como ela o são, mas a própria igreja na idade media chafurdou em sua ambigüidade, em lideres que lutavam entre si, o que promoveu um grande cisma no inicio do segundo milênio, onde chegou a ter que conviver com dois papas ao mesmo tempo.
    Porém é sabido que já naquele tempo homens subservientes as sagradas escrituras manifestavam sua idoneidade, haja visto John Yglif entre tantos….
    O que eu quero dizer é que ainda que impérios virtuais tentem de todas as formas dirimir a das sagradas escrituras!…
    Elas sempre subsistirão, pois é a palavra de Deus, e sempre haverão remanescentes dispostos a salvaguardarem a sua hegemonia…
    Passarão os seus e terra mas a palavra de Deus é sempiterna, e a consubstanciação se dá no corpo místico de Jesus.
    Não este deturpado pela igreja católica, mas o intrínseco mover do Espírito Santo consolidando a superlatividade interativa daquilo que nos levará de volta a eternidade com Deus…

  5. Paz irmãos
    Este assunto é muito complexo, uma vez que há muita diversidade de credos envolvidos, cada
    um com suas peculiaridades próprias, contudo, temos que ressaltar os efeitos maléficos que resultaram por décadas de constantes desserviços prestados por essas "seitas da prosperidade". Causa-nos revolta porque no inconsciente popular as pessoas nos colocaram numa vala comum, de sorte que ao tentarmos evangelizá-los, acabamos pagando por um crime que não cometemos, isto porque a grande maioria das pessoas têm um amigo, um parente ou um conhecido que foi assediado, sofreu um processo de "lavagem cerebral", acabou por "doar", "por livre e expontânea pressão psicológica", tudo o que tinham a essas seitas, no afã de ficarem ricos e acabaram se dando mal. Estas seitas são compostas por pessoas iludidas, que, com o tempo, acabam caindo na real de que foram enganadas, quando acabam abandonando-as, num circulo vicioso. Dessa forma, tornou-se difícil hoje em dia se pregar o evangelho, porque as pessoas ficam arredias, "de pé atrás", temendo por estarem caindo numa nova "arapuca evangélica". Daí não adianta argumentos de que somos diferentes e etc… e etc…

  6. Pensei a mesma coisa que vc ao ler o texto.
    Muito bom gostei de seus argumentos.
    Porem é um bom começo termos esse evangelho enganoso exposto, e expor e que existe pluralidade de pensamentos dentro do meio evangélico, como nos relacionamos entre nós é um outro ponto a se pensar, mas já fico feliz ao ver a mídia divulgando nossas diferenças, e as coisas com as quais não comungamos.

    Abraços

  7. Gostei da matéria da revista *****
    Gostei dos comentarios…

    Mas não me cai bem a ideia de Lutero – Um homem que começou muito bem, mas terminou muito mal. Desejando qe todosos jdeus focem eserminados (o material escrito por ele foi usado por Hiler).

    Eu me considero um evangelico bem mais antigo – Que luta pela reforma de Neemias cap. 13 e que tem o snge de Cristo Jesus na veiaespiritual.

    Marcos M. Burgese

  8. Certas igrejas novas tem interesses, muito além do que dizimo e evangelho,voto de cabresto é um deles e favorecimento de politicos para construir templos é outro. Existem muitas pessoas que foram criados nas igrejas históricas e apesar de não frequentarem mais ,aprenderam a exercer a cidadania e serem honestos e eticos e são muito gratos a estas. Que movimento religioso fez paises como os paises de maior IDH do mundo, por exemplo?
    Quem quiser assista o filme O Ultimo Espirito. Esse filme mostra o que supertiçoes fazem com uma comunidade, imaginem com um país.
    As explicações do irmão Augustus é convincente.

    Protestante por um Brasil melhor

  9. Interessante ver os protestantes "protestando" contra supostos "novos evangélicos" que se auto denominam protestantes.Alguns se sentem envergonhados por que as atitudes de certa ala "protestante" é tão falsa e mentirosa como uma nota de 3 reais.
    Que dilema ,não?
    Como classificar essa "nova" ala evangélica?
    Lutero é por alguns elogiado por outros execrado, e assim caminha o protestantismo, ou seria povo evangélico?
    Que salada confusa
    esse protestantismo evangélico, não é?
    Luiz Carlos Santana Teixeira

  10. Enquanto isso, as seitas continuam trabalhando: com estrutura e organização impecável, aparencia de piedade, sem escândalos, ambiente familiar, "coerência" dogmática, boas literaturas enfim.

    Jesus avisou que a prudência era qualidade em maior destaque entre os filhos das trevas!

  11. bla bla bla … bla bla bla … bla bla bla

    A letra mata só o Espirito vivifica … garanto q a maioria de nós não tem dedicado 30 mim de nossas orações por tais denominações criticadas.

  12. Olha, é para isso que existe inumeras igrejas. Cada qual se identifica com uma. Eu particularmenete não gosto das pentecostais por causa de decepções, agora há inumeras pessoas que se não for igreja pentecostal não serve outra.

  13. Boa tarde! Entendi o seu ponto de vista caro irmão e pastor,porém lembremos o que diz lá em Galatas 3,4 e 5 e em especial galatas 5:1-4 que fala sobre a Lei e a pregação da fé.A maioria das denominações que ai estão independente ser tradicional ou "reformada" ainda estão na Lei e como diz em galatas 5:1-4: Capitulo 5

    1 Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e näo torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidäo.
    2 Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará.
    3 E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei.
    4 Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído.
    . Vekam separados da graça muitos estão ,porque ainda guardam a Lei.E não adianta criticar os "desigrejados" como diz,porque as "igrejas" prédios são invenção do homem para o seu deleite,porque os discipulos eram livres e se reunião em todos os lugares é só ler Atos.Perdoe-me mas isso não é minha interpretação das coisas,porque muitos por aí já tornaram a Biblia um livro de opiniões e não a Palavra de Deus.Fica aqui o meu forte abraço e fique na Paz.

    LAURO QUADROS

  14. Agora sim um comentário coerente sobre este texto da Época, bem pensado e escrito, abrangendo e comentando o todo possível, com ética cristã. Isto é reforma. O resto, como a "apologética com humor" como Genizah, Pavablog et al… é barulho e confusão do braço humano, com carnalidade, sem espiritualidade, como de alguns grupos de camponeses da época de Lutero, os quais o reformador desaprovou a conduta e maneira de fazer reforma (guerreavam com as mesmas armas da igreja que era alvo de crítica), e Lutero os questionou "vocês são cristãos? Isto é ser cristão? Isto é forma de proceder para um cristão?" Ao sr. Danilo, sr. Sergio, e outros do conluio, eu faço os mesmos questionamentos do reformador.

    Leandro Hüttl Dias
    http://leandrohdias.blogspot.com

  15. Augustus Nicodemus, senti firmeza no papo de Jaime Alves, Borrego Lanudo e Lauro Qaudros. É isso meu mano. Volta lá no profetismo israelita (ex Hulda e Jeremias mais os extáticos contrários a Miquéis), passa pelo período que se chama por muitos de interbíblico quando o sacerdócio estva todo corrompido, saduceus, fariseus, essênios etc. e vem Jesus com a msg do amor que não foi compreendido, mas o deuteronômio já falava da prática desse amor. Chega na era cristã, no momento da reforma, idem, atravessa os séculos e na pós modernidade não quer que aconteça o mesmo? Com certeza foi Bastante util e esclarecedor o post. Espero que não se entenda que só ortodoxo via Nicodemus tá com a verdade? O joio está junto com o trigo no campo.

  16. No início, a igreja era um grupo de homens centrados no Cristo vivo.
    Então, a igreja chegou à Grécia e tornou-se uma filosofia.
    Depois, chegou à Roma e tornou-se uma instituição.
    Em seguida, à Europa e tornou-se uma cultura.
    E, finalmente, chegou à América e tornou-se um negócio.
    Chega do show é hora de voltarmos ao Evangelho!

  17. É um tanto rasoável a preocupação de tantos, em eleger uma protestante ao maximo poder legislativo.lembrando as raízes culturais presentes na nação desde sua colonização.em minha análizes, creio eu, que , a eleição de uma candidata protestante,equivaleria a conflitos etnicos e culturais na sociedade,lembrando a presença holandesa em terras pernambucanas no século XVI, estes de maioria compostas por protestantes, tentaram influenciar em problemas ligados á fé,visto que que em sua administração insana e herege,o governo holandes em pernambuco, impôs, a proibição da celebração da santa missa e das procissões e autos religiosos culminando assim em uma guerra sangrenta e a eminente expulsão destes protestantes de terras pernambucanas. É válido afirmar que a presença cristã sempre manteve-se atuante em todos processos de evolução da nacionalidade brasileira, impor a nação, um poder legislativo protestante, seria , ao meu ver, virar as costas ao passado, lembrando que as raízes profundas da cultura brasileira confunde-se com o próprio cristianismo,visto que sua colonização se deu perante o apoio de nossos irmãos jesuítas que incansavelmente lutaram para a formação de nossas bases culturais e nacionais. Eleger um protestante é ir contra aos principios e bases da cultaralização e formação da nacionalidade brasileira e portanto um fato a ser previamente analizado.

    ass: Helton Duarte de Perón

    email- helton.anjonegro@hotmail.com

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