Sincretismo Evangélico: Absorção ou Retenção?

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Por Humberto Ramos

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São fascinantes as pesquisas que se dedicam com esmero em explorar as nuances do sincretismo religioso, em especial o sincretismo na esfera da Cristandade.

Em se tratando do panorama nacional, pode-se dizer que desde cedo, ao passo em que se construía uma sociedade genuinamente brasileira – um povo resultante de uma série de misturas étnicas, culturais e religiosas –, a fé cristã (especificamente a Católico Romana) teve de duelar com crenças de diversos matizes.

Conquanto a cristianização do Brasil tenha sido inicialmente agressiva, solapando a cultura e as crenças dos índios e, logo depois, dos negros trazidos para trabalharem como escravos, não pode-se falar em vencedor neste duelo. Basta olhar para o cenário religioso brasileiro para perceber a existência de dois tipos de catolicismo. O catolicismo clerical, teologicamente elaborado e dogmatizado, e o catolicismo popular, eivado de superstições e elementos originários dos cultos afroamerindios (não é conveniente tratar aqui o catolicismo liberal, que tem crescido no seio da Igreja Romana).

Sem dúvida, houve uma absorção dos elementos das crenças indígenas e africanas, fundindo-se com o catolicismo português (que já veio com sua parcela de sincretismo). Para verificar tal afirmação, vale a pena dar atenção às celebrações religiosas dos povos do norte e nordeste – não que nas outras regiões também não ocorra o sincretismo, contudo nos Estados que compõem essas regiões nota-se mais fortemente a mistura religiosa gerada.

Na Umbanda, Cristo é Oxalá e Satanás, Exu; São Jorge (Santo Católico), tido como Ogum. Iemanjá e a “Nossa Senhora” (apenas Maria para os protestantes) compartilham o mesmo altar que uma série de divindades. Ao olhar fervoroso dos fiéis, não há menor incompatibilidade entre tais personagens da fé.

Do lado protestante, o seguimento que mais se abriu ao sincretismo foi o movimento pentecostal. Propagando-se entre as camadas mais pobres da população, assim como o Catolicismo, absorveu certos elementos das religiões anteriormente seguidas pelos seus adeptos convertidos. Manteve forte ênfase em operações miraculosas e crença na intervenção sobrenatural por meio dos próprios membros da comunidade de fé, busca por revestimentos sobrenaturais, adoração e louvor com gestos extravagantes e incrível liberdade para gritar, pular e saltar nas reuniões da igreja, etc. Certamente, representa a manifestação mais latina do cristianismo, também chamado de Protestantismo Emocional

Neste processo de sincretismo, um novo fenômeno tem ocorrido, e especialmente no seio protestante-evangélico. Se outrora havia a absorção de elementos de outras religiões, agora nota-se claramente uma retenção destes. O primeiro significava uma capitulação, uma rendição à força da cultura religiosa que o converso cultivara anteriormente; já a segunda refere-se a uma postura intencional visando angariar o maior número de fiéis atraindo-os por meio de códigos e símbolos já assimilados por estes em suas crenças precedentes.

O seguimento evangélico que hoje mais cresce no Brasil é chamado de neopentecostalismo, seguimento que, procurando adequar-se ao mundo globalizado e plural, até onde se pode perceber, tem decidido investir em uma gama de ingredientes encontrados nas esferas mais populares da espiritualidade latino-americana.

Amuletos, objetos sagrados, flores, água benzida (orada ou ungida, na terminologia neopentecostal), a concepção dualista do bem e do mal, e a elaboração de uma teologia superficial sem muitas implicações no âmbito social, mas que na dimensão individual funda-se na relação de troca com o divino. De forma que, contribuindo financeiramente com a Igreja, a benção será concedida. Comparecendo sete sextas-feiras em determinada campanha, o sonho será realizado.

Tal direcionamento é tão notório que nem mesmo carece de exemplos. Uma olhada nos programas neopentecostais na mídia televisiva basta para se ter uma noção de como tem-se desenvolvido essa nova manifestação religiosa.

É curioso que os estudiosos ainda o considerem como sendo parte do protestantismo. Embora possam, de fato, ainda ser chamados de evangélicos, tem-se tornado incabível creditar a eles qualquer ligação essencial com o protestantismo, uma vez que as suas ênfases teológicas colidem em tudo aquilo defendido pelos reformadores.

As novas liturgias, em tons de encenações profundamente simbólicas e a mistificação de palavras, gestos e objetos, destoam por completo do caráter iconoclasta das igrejas protestantes. Em outras palavras, o protestantismo inicial posicionou-se radicalmente em relação a qualquer prática supostamente oferecesse ao crente qualquer vantagem diante de Deus ou servisse de moeda de troca para fins de recebimento de bênçãos.

Com base na carta de Paulo aos Romanos, na qual o apóstolo declara que “o justo viverá pela fé”, Lutero e os seus sucessores defenderam a salvação se dá por meio da fé, manifestada pela Graça de Deus, procedendo dela mesma todo e qualquer presente divino.

No que tange exclusivamente ao fenômeno religioso em questão e seu sincretismo, é importante ressaltar a visível rota de ruptura que o neopentecostalismo tem realizado em relação à sua raiz originária.

Para fins de identidade grupal, aos protestantes é conveniente estabelecer-se oficialmente esta distinção, de maneira que não sejam confundidos com estes nem tampouco estes com os protestantes.

Não fazendo juízo de valor bíblico neste ensaio, apenas sugiro atenção à direção tomada pelo neopentecostalismo. Pois, com o surgimento de novas denominações desta linha, e sua formulação de uma estrutura teológica e organizacional completamente nova (e constantemente mutante), certamente pode suscitar aos menos informados uma idéia confusa, até mesmo viciada, do que seja o protestantismo; sem contar que, em não havendo um refortalecimento do protestantismo tradicional, corre-se o risco de que todo ele se capitule à força atrativa e poderosa das igrejas neopentecostais. Se é que este processo já não ocorre silenciosamente.

***
Humberto Ramos edita o blog visao integral e colabora no Púlpito Cristao.

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11 COMENTÁRIOS

  1. Ao afirmar que no Movimento Pentecostal existe sincretismo, o Irmão foi PÉSSIMO, acho que não conhece nada do Movimento Pentecostal.
    Você crendo ou não, irá existir milagres e nós Pentecostais temos base bíblica para isso, é real.
    Você mistura tudo e dá um nome Protestantismo Emocional, ou seja, lá quem foi que dá esse nome, pode ter certeza que essas características não existe na maioria das igrejas Pentecostais, e se isso ocorre em certas denominações, essa denominação não se enquadra como Pentecostal.
    Ao falar do Movimento Pentecostal, Você misturou tudo fez uma salada sem base nenhuma e sugiro que estude um pouco mais sobre o assunto.

  2. Vinícius,

    Obrigado pelo comentário. A idéia era de fato fazer uma reflexão sobre as constantes mudanças nas manifestações dentro do movimento evangélico brasileiro. Um pequeno ensaio, a fim de fomentar a pesquisa de cada leitor.

    Analisar essa fenomenologia a partir de uma perspectiva sociológica também é muito pertinente e esclarecedora. Permite que nos situemos diante de tais ocorrências; possibilitando-nos visualizar previamente aonde a coisa vai desembocar.

    Fraternalmente.

  3. A paz seja convosco.
    Irmãos, a nomenclatura que se dá ao fenômeno, se sincretismo, protestantismo emocional, pouco importa.
    Vamos deixar este assunto aos estudiosos do assunto.
    O fato é que a experiência já comprovou que quem pratica esses excessos, como gritaria, repleplé("pulos e histeria dos crentes canela de fogo"), danças afro-indígenas, mais parecidas com o que ocorre no candomblé ou coisas que o valham, na maior parte, tratam-se de pessoas desequilibradas emocionalmente.
    São crentes despreparados, meninos na fé e com pouco ou nenhum conhecimento do evangelho verdadeiro, os quais possuem uma necessidade mórbida de aparecer, de querer que todos creiam que são mais abençoados por Deus que os demais, daí a necessidade de "aparecer", de cair e se estrebuchar, de sair marchando, ou andando de quatro nos corredores das igrejas, tudo isso com a conivência dos dirigentes e pastores. "Glória a Deus, Aleluia!"
    A experiência já nos mostrou também que citados "crentes" que demonstram esse "fogo estranho", também possuem o denominado "fogo de palha", mesmo porque, do mesmo modo como são inflamados ao extremo, dentro de pouco tempo eles se apagam e abandonam completamente a igreja e o evangelho.
    Digo-lhes com conhecimento de causa, inclusive tal fato ocorreu com uma sobrinha minha, que, infelizmente, hoje a vejo com trajes inadequados e com cigarro nos dedos, frequentando a "balada", onde pula a noite inteira.

  4. Concordo com o Higor temos de saber exatamente aonde ficam as fronteiras que separam, tradicionais, pentecostais e neopentecostais, caso contrário com a nobre intenção de extirpar o mal do meio de todos acaba-se por negar verdades há tempos já comprovadas.
    Porem gostei muito do texto, muito mesmo, texto que apenas engrandece o blog, ah devo dizer também que devemos ler este texto com um olhar critico, pois a verdade é que infelizmente muuuitas igrejas pentecostais e até algumas tradicionais tem aderido largamente a "conceitos" e atitudes oriundas do neopentecostalismo (me refiro aqui à práticas como as faladas no texto em questão), e isso é uma tragédia, pois acaba por desacreditar todo o evangelho.

  5. Sérgio Buarque de Holanda previu (em Raízes do Brasil, publicado há décadas) que o protestantismo neste país teria que se adaptar à cultura brasileira para progredir.

    Essa adpatação foi uma degeneração (não que antes o protestantismo fosse puro, mas no Brasil piorou muito).

    ___________________

    atos17.blogspot.com

    * * *

  6. Higor,

    Rapaz, por favor, não me venha defender conceitos de forma apaixonada esquecendo-se de abrir seus olhos para a realidade. Salada é o segundo nome do neopentecostalismo. Sobre pentecostalismo clássico, fui durante 22 anos da Igreja do Evangelho Quadrangular, que começou como pentecostalismo clássico (na segunda onda do pentecostalismo) e agora já transformou-se em neo (terceira onda do pentecostalismo).

    Sobre estudar mais acerca do movimento pentecostal, eu te pergunto: você já leu algum livro do Paulo Romeiro, um dos maiores especialistas no fenômeno neopentecostal? Quando ler, já te aviso: ele é pentecostal, ok? Por que se você continuar interpretando as coisas da forma que interpreta, vai pensar que ele é presbiteriano… rsrsrs

    Sobre curas, milagres, dons e outras cositas mais, não manifestei minha opinião teológica sobre o assunto neste texto. Se você, que é um cara tão espertalhão, desse a si mesmo o trabalho de verificar um texto e outro do meu blog, veria que acredito em milagres, curas e dons espirituais em geral.

    Leia novamente o texto considerando-o como uma análise sociológica.

    Por fim, manão, te digo que a preguiça e a falta de tempo não me permitiram citar fontes nem exemplos, mas sugiro que ligue sua TV de madrugada ou mesmo de manhã, bem cedo pra você verificar tudo o que escrevi aqui.

    Fica na paz, brother!

  7. Mais uma vez parece que Eu sou seu inimigo….rs
    Mas não é isso.

    Quando mencionei que Você precisa estudar sobre esse movimento, quis dizer que a maneira que Você falou sobre o Movimento Pentecostal foi muito superficial, dando a entender que todo Pentecostal é mergulhado no sincretismo.

    Você diz
    “Do lado protestante, o seguimento que mais se abriu ao sincretismo foi o movimento pentecostal. Propagando-se entre as camadas mais pobres da população, assim como o Catolicismo, absorveu certos elementos das religiões anteriormente seguidas pelos seus adeptos convertidos”

    Tudo que Você escreveu sobre o fenômeno neopentecostal é verdade, é impossível não concordar, mas que o texto afirma que os Pentecostais estão mergulhados no Sincretismo isso é difícil negar.

    Infelizmente igrejas como a Quadrangular estão abraçando a teologia Neopentecostal, então podemos dizer que não são mais Pentecostais, mas Neo.

    Vou procurar ler o livro que me indicou, E Você que está dizendo que Sou espertalhão, Eu não me considero, me acho um dos comentaristas mais sem conhecimento desse blog.

    Fica na Paz do Senhor

  8. Higor,

    De fato o pentecostalismo foi a ala do protestantismo que mais se abriu ao sincretismo e isso de forma mais explícita. Infelizmente, embora ele não esteja mergulhado no sincretismo, se tudo ocorrer como está ocorrendo, daqui uns tempos não falaremos mais em pentecostalismo – mas apenas em pós-pentecostalismo. Isto é, o que haverá sobrado do pentecostalismo clássico.

    Sobre você ser meu inimigo, não imaginei assim… E me alegro por poder dialogar tranquilamente com você.

    Desculpe-me pelo espertalhão, acho que guardei alguma mágoa referente aos comentários do texto anterior postado aqui no blog.

    Leia todos os livros do Paulo Romeiro, você vai gostar. Dá pra ter uma visão muito bacana de como tudo isso que vemos hoje começou.

    Graça e paz!

  9. gostei muito do seu blog e de agora em diante passarei a ser uma de suas seguidoras, ok? qdo puder , faça uma visitinha no meu tbm, espero que goste do conteúdo e deixe seu comentário, fique na paz!
    abraços!

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