Servir a Deus é imbuir-se de um inflamável espírito de triunfalismo que não admite derrotas e desilusões, como se o viver fosse a própria negação do sofrimento?
Servir a Deus é não questionar nada que vá de encontro às “verdades espirituais” preconizadas pela sua instituição religiosa?
Servir a Deus é estar diuturnamente preocupado em ganhar o mundo para Cristo, esquecendo os cuidados básicos com os seus, em seu próprio lar?
Servir a Deus é construir templos suntuosos e colocar líderes impecavelmente vestidos em seus ornamentados púlpitos “cristãos”, para serem vistos como intocáveis e irrepreensíveis oráculos do reino dos céus?
Servir a Deus é mostrar cada vez mais ostentação e riqueza à medida que a igreja cresce numericamente?
Servir a Deus é ter muita cautela para não estabelecer com o seu Pastor uma relação espontânea de amizade e afeto, para que ele não o reprove nem o censure?
Servir a Deus é se martirizar dia a dia, mascarando a sua própria individualidade, numa tentativa inócua de exteriormente, identificar-se com o seu líder?
Servir a Deus é infundir medo nos corações das pessoas, para que elas se rendam e fiquem passivamente aprisionadas entre as quatro paredes “sagradas” do templo?
Servir a Deus é vender planos pessoais de salvação em prestações suaves e módicas com juros supostamente menores que os de mercado?
Servir a Deus é dizer para a criança que se ela não se comportar decentemente na igreja, Jesus fica triste e o Diabo alegre?
Servir a Deus é trocar a estrutura familiar opressiva por um sistema religioso que desumaniza em vez de humanizar?
Servir a Deus é torcer pela igreja como quem torce por um time de futebol, onde o que mais interessa é a vitória, mesmo com gol roubado pelo juiz da partida?
Servir a Deus é abdicar da liberdade de discordar, a fim de manter uma relação de amizade aparente com o seu líder?
Servir a Deus é nunca tentar fugir dos padrões convencionais do culto evangélico pasteurizado?
Servir a Deus é ter todo o seu tempo dedicado ao cumprimento das obrigações eclesiásticas?
Servir a Deus é se imiscuir no meio de multidões ruidosas em passeatas para Cristo, sem atentar que o que elas mais almejam é demonstrar o “poder político” de suas instituições eclesiásticas?
Servir a Deus é buscar apaixonadamente a hegemonia de sua igreja, mesmo que para atingir este objetivo, tenha que falar mal das outras denominações?
Servir a Deus é um investimento que fazemos com muito suor e sacrifício, no intuito de lá na frente, recebermos uma grandiosa recompensa?
Servir a Deus é fazer amigos com as riquezas adquiridas de maneira suja, para depois de lavá-las, serem trazidas ao altar, com o rótulo falso de “dinheiro purificado?
Servir a Deus é fazer parte de uma engrenagem que para manter a coesão do grupo se faz necessário adiar por tempo indeterminado o amadurecimento pessoal?
Servir a Deus é deixar de desfrutar as delícias que Ele nos deixou aqui na terra, em troca de uma castradora e violenta religiosidade?
Servir a Deus é combater compulsivamente os erros dos outros, e fechar os olhos para os demônios que habitam dentro de nós?
Ao responder com um SIM as perguntas acima, o leitor estará simplesmente concordando que, SERVIR A DEUS é prendê-Lo nos limites estreitos de uma instituição, instituição essa, que à maneira de um asilo, oferece guarida a nossa loucura de pensar que podemos definir o indefinível, de pensar que podemos reduzir ou conceituar o indecifrável, de pensar que podemos mensurar ou fixar conceitos e regras sobre um Deus que é indizível e que está em pleno e puro movimento.
E assim, como doentes mentais que perderam a maravilhosa capacidade de pensar, vamos perecendo pela vida afora. Vamos perecendo, ao permitir que outros pensem por nós, guiando-nos aleatoriamente nas densas trevas da ignorância.
Há um ditado popular que expressa uma cruel realidade, ao afirmar que a Bíblia do protestante cheira a “sovaco” por estar sempre debaixo da axila direita; ao passo que a do católico cheira a “mofo”, por estar sempre posta num oratório, eternamente aberta em um dos capítulos do livro de Salmos.
Uma interessante passagem do livro de Isaias (730 a.C.) reflete com todas as letras o estágio em que nos encontramos hoje, senão vejamos:
Que pena! Depois de decorridos tantos anos, se faz necessário evocar uma frase emblemática dita pelo profeta Oseias (700 AC) cujo eco, ainda hoje, continua a bater forte nas paredes resistentes de muitos corações: “O meu povo padece por falta de conhecimento”.
***
Nota do editor: O título original é “Servir a Deus é isso?”, mas, ao ler o ensaio apaixonado do Levi, tentei resumir a idéia contida nele em uma só frase, e a primeira coisa que pensei foi “Religiosidade entorpecente, ópio dos homens e flagelo da fé!”. Daí o título posterior.




















Taí, um monte de perguntas – parece até Deus inquirindo a Jó – Mas diz pra nós Levi – O QUE É SERVIR A DEUS???????
Há muitas perguntas boas, mas algumas, sei não…
"Servir a Deus é sacrificar o seu lazer semanal do domingo para durante uma ou duas horas discutir o sexo dos anjos e outros assuntos afins?" – Ao se reunir aos domingos e outros dias com o povo de Deus – o que tens discutido é o sexo dos anjos e assuntos afins????? – A Bíblia diz que a Igreja é o Baluarte da Verdade. Talvez se nos reuníssemos mais para estudá-la – menos blogs para combater os sérios desvios do evangelho (Teologia da Prosperidade, Mestres da Fé… – que nos causam nojo) seriam necessários –
Mas se considerarmos as reuniões do povo de Deus para meditar na verdade que Deus nos ordena fazer de dia e de noite – algo banal como discutir o sexo dos anjos – ái não haverá esperança – Certamente a verdade é mais importante que o lazer do domingo.
"a Igreja é o Baluarte da Verdade"… Isso está se referindo a quê? A um prédio ou ao Corpo?
Servir a Deus é muito mais do que passar uma hora semanal sentando em um banco de madeira. Servir a Deus é uma vida de adoração e um serviço no mundo.
Abraço,
Leonardo.
Tomo sua pergunta como retórica – pois senão seria tolice. Não é um prédio, mas se tua explicação e o que entendes do texto então ela é deveras superficial – e este é um blog de apologética. O que Paulo quer dizer com "a igreja é o baluarte da Verdade?" – Esse texto está em 1Tm 3.15 "para que, no caso de eu tardar, saibas como se deve PROCEDER na casa de Deus, a qual é a igreja do Deus vivo, coluna e esteio da verdade". (nas PASTORAIS) – Está falando sobre a igreja, mas não simplesmente a igreja andando por aí. Sobre o que o texto fala? É a tua pergunta. João Calvino responde: "Ao ser denominada, COLUNA E FUNDAMENTO DA VERDADE, tal dignidade atribuída a Igreja não é algo ordinário. Ora, que termos mais sublimes poderia ele ter usado para descrevê-la? Em primeiro lugar, temos que examinar por que Paulo honra a Igreja com um título tão proeminente. Evidentemente, ele desejava, ao realçar aos pastores a grandeza de seu ofício, lembrá-los com que fidelidade, diligência e reverência devem desempenhá-lo, e ao mesmo tempo quão terrível é a retribuição que os aguarda, caso, por sua culpa, esta verdade, que é a imagem da glória de Deus, a luz do mundo, seja prejudicada. Certamente, esse pensamento deve imbuir os pastores da terribilidade de sua tarefa; não para desencorajá-los, mas para conpelí-los a uma vigilância mais intensa. Daqui se torna fácil deduzir o sentido que tinham as palavras de Paulo. A Igreja é a coluna da verdade porque , através do seu ministério, a verdade é preservada e difundida. Deus mesmo não desce do céu para nós… senão que usa as atividades dos pastores (por isso Paulo escreve a Timóteo), a quem destinou para esse propósito. SE não houver ensino PÚBLICO do evangelho, se não houver minsitros piedosos que, por sua pregação, resgatem a verdade das trevas e do olvido, as falsidades, os erros, as imposturas, as superstições e a corrupção de toda sorte assumirão imediatamente o controle" (CALVINO).
Taí Leonardo – banalizar o momento em que a igreja está reunida sendo equipada pela verdade – é o caminho oposto para vencer as heresias. Se é a isso que o teu e o meu blog se propõe, não vejo porque relativizar o que claramente o texto está dizendo pode nos ajudar na nossa tarefa
Um Grande Abraço – do seu irmão em Cristo
Josemar Bessa
Meu caro irmão Josemar Bessa
Se é na instituição que você espera obter segurança, me perdoe, mas eu receio que aí reside um grande equívoco, pois Jesus não nos disse que "ir a igreja" nos salvaria, mas que confiar Nele, sim.
É Ele (Cristo) que nos faz reagir quando certas expressões da organização eclesiástica(detentora de poder político)a que pertencemos se tornam impeditivas da obra de Jesus em nós.
As Escrituras nos ensinam a sermos devotados uns aos outros, independentemente de qualquer instituição. Jesus deu a entender que onde estiverem duas ou três pessoas reunidas em Seu nome, Ele estará entre elas. Isso é o que importa.
Me parece, caro Josemar, que certas pessoas acham que frequentar um culto tradicional com seus rituais e cantos, é o bastante para dizer que estão servindo a Deus, sem nunca atentar para o que estão fazendo, sem se abrir a respeito de sua própria vida, sem demonstrar interesse pela jornada dos outros.
Desculpe-me caro Josemar pela sinceridade de externar o que penso de uma forma, talvez, dura.
Mas não me leve a mal.
Levi B. Santos
São irmãos como esse que me mantém enclausurada dentro da minha própria casa, pelo menos aqui me sinto segura.
Não sou obrigada, forçada a participar de cultos sem Espírito, sem vida, sem Palavra e sem JESUS.
Como uma irmã que enche minha caixa de emails para me obrigar a pensar igual a ela sobre doutrinas bíblicas.
Eu não acredito em doutrinas, nunca acreditei, eu acredito em JESUS, que enlouquece todo doutrinalismo.
Li a minha vida inteira e convivi com pessoas que subordinavam, escravizavam outras através das palavras.
Eu percebo este tipo de palavra no discurso cheio de sabedoria, mas que não produz vida e sim morte, muita morte, por onde passa.
Josemar Bessa,
Me pegou para Judas agora? rs… Insisto que a igreja é um povo, uma comunidade, uma assembléia. A "casa" só é "casa de Deus" porque nela se reune o povo de Deus.
Admiro o trabalho apologético que você faz, editando um site que é referencial para quem, assim como eu, pesquisa textos sobre teologia reformada.
Não discordo de você, não discordo de Calvino, mas concordo com o Levi. Acho que o texto do Levi e o teu comentário não são excludentes, mas complementares. Realmente, se a igreja se reunisse para estudar a Palavra de Deus, haveriam menos blogs apologéticos. Temos batido nesta tecla há um ano! rs…
Porém, a eclesiologia atual (sobretudo na esfera do pentecostalismo e do neopentecostalismo) está muito distante do conceito reformado, e mesmo do puritanismo. Cada vez mais embota a imagem da igreja como militancia no mundo, enquanto prevalece a idéia de que ser cristão é participar de um culto semanal, e só. O culto cristão não está limitado por coordenada geográfica; ele é um ato contínuo… É um testemunho, um caráter, uma vida que glorifica a Deus.
Em suma (repetindo): Concordo com o texto do Levi, e concordo com seu comentário. Afirmações diferentes nem sempre são excludentes; elas podem ser complementares. (Só falta agora me chamar de relativista também, rs… #eu mereço!)
Um abraço do amigo,
Leonardo.
Leonardo, também gostei do texto do Levi – só quis fazer uma consideração ou outra para que não houvessem mal entendidos – nós estamos do mesmo lado da luta, não em lados opostos – quero caras como você na mesma trincheira que eu – e com bom humor, rirmos um pouco em meio a tão séria batalha.
Pastoreio uma igreja, durante a semana tenho que cuidar das feridas das ovelhas e mais cultos – pregar algumas vezes na semana, escrevo no blog,e passo horas e horas num estudio – se encontro tempo para vir aqui, é porque acho que realmente vale a pena.
Continue seu bom trabalho, estarei orando por você – que Deus nos fortaleça para que tantas heresias, apóstolos, unções, pentencostalismo, neopentencostalismo… não esfrie a chama da paixão pela glória de Deus nos nossos corações
Um abraço fraterno – Josemar Bessa
Levi, tenho 40 anos e sou pastor há 22 anos – não se preocupe – desenvolvi pele dura e coração mole, não acho que estás sendo duro – Freqüentar cultos com seus, como você diz, "rituais" – creio que estás falando de oração, adoração e ministração da Palavra – (espero que não aches isso errado – pois são os meios de graça deixado para nós )- Não, não acho que simplesmente freqüentar lugares assim bastem: "Rogo-vos pois irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente…" (nossa vida é um culto a Deus, para sua glória – onde formos) – mas não me diga que achas isso dispensável (estarmos reunidos como corpo de Cristo) – é muitas vezes no momento de culto que demonstramos interesse pela jornada dos outros e os estimulamos – Por exemplo "Partiu, pois, Barnabé para Tarso, em busca de Saulo; e tendo-o achado, o levou para Antioquia. E durante UM ANO INTEIRO REUNIRAM-SE NAQUELA IGREJA muita gente; e em Antioquia os discípulos pela primeira vez foram chamados cristãos." – (At 11.25,26) – Apesar do momento de culto não perfazer tudo o que é ser cristão – não há cristianismo ensinado sem isso – A comunidade Cristã é o corpo de Cristo, e é fonte de graça para seus filhos "Da multidão dos que creram era um o coração e a alma do povo" – "Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união -porque ali o Senhor ordena a sua Benção". Davi dizia que os santos de Deus eram a sua grande alegria – e diz mais "alegrei-me quando me disseram, vamos a casa do Senhor!!!" – Não sei que espécie de experiência traumática sofrestes em alguma "igreja" – sei que muitos cultos hoje não passam de mero momento de entretenimento, heresia e misticismo – mas não jogue fora o bebê com a água suja, não é sábio. O Espírito através do autor de Hebreus é claro: "Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. NÃO DEIXEMOS DE NOS CONGREGAR, COMO É COSTUME DE ALGUNS…" – (Hb 10.24,25) "E ele mesmo concedeu uns para apóstolo… e outros para pastores e mestres, com vista ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para edificação do corpo de Cristo. Até que todos cheguemos a unidade de fé e do pleno conhecimento… para que não mais sejamos como meninos agitados de um lado para o outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro…" – Gostei muito da maioria das suas perguntas – mais temos que ter cuidado para que em meio a paixão – não nos esqueçamos DA VERDADE! Que o amor de Deus guarde nossos corações "tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima"
Abraços Fraternos e sonolentos
– Josemar Bessa
Conforme já comentado, há muitas questões boas, mas algumas merecem melhor análise.
"Servir a Deus é sacrificar o seu lazer semanal (…) para (…) discutir o sexo dos anjos (…)?".
Realmente a igreja são as pessoas e não o prédio e temos que estar em sintonia com Deus 24h/dia e em todos os lugares. Mas servir a Deus envolve sacrifícios de tempo e energia sim, incluindo o sacrifício para nos reunirmos regularmente, que é um mandamento bíblico e não mera tradição.
A expressão "discutir sexo dos anjos" se refere a "perder tempo discutindo um assunto inútil e impossível de ser comprovado enquanto há assuntos mais importantes". Não sei o que o autor viu nas reuniões que assistiu, mas com certeza essa expressão não se aplica ao estudo das Escrituras, mesmo que alguns pontos bíblicos possam parecer ter pouca importância prática.
"Servir a Deus é dizer para a criança que se ela não se comportar decentemente na igreja, Jesus fica triste e o Diabo alegre?".
Nossas ações podem alegrar a Jesus e desagradar o Diabo ou então fazer o oposto. Qual o problema de se ensinar essa verdade para criañças?
Caro Emerson Luís
A ironia empregada no texto é um recurso válido da literatura, que aqui foi usado num único objetivo: o de convidar o leitor a ativamente refletir sobre o tema. A ironia preenche o vácuo entre o que dizemos e aquilo que realmente pensamos.
Por exemplo: ameaçar uma criançinha com as posições extremadas (jesus e o diabo)para com isso forçá-la a passar duas horas na igreja sem se mexer em um banco duro, é no mínimo uma ameaça incabível. Ela vai incorporar na sua mente em formação, que ali é um lugar desagradável, mas que ela tem que se submeter, para não cair nas garras do dragão diabólico.
E ameaça não rima com "Servir a Deus".
Saudações cordiais
Levi B. Santos
Concordo com você, Levi.
Apenas ressalto que precisamos de equilíbrio e bom senso. Nossa tendência humana é nos empenharmos tanto para corrigir ou prevenir um erro que acabamos cometendo o erro oposto.
E precisamos diferenciar aquilo que é errado em si mesmo daquilo que se torna errado pela má compreensão e/ou má aplicação. Alguns leitores podem não saber diferenciar e jogar fora os dois.
Mas de modo geral o texto é ótimo!
Tudo de bom!