Funk: apologia à pedofilia, incentivo à violência ou manifestação cultural?

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Por Ruth de Aquino

Mas se liga aí novinha, por favor tu não se engane. Abre as pernas e relaxa. Que esse é o Bonde do Inhame. Que esse é o Bonde do Inhame. Esse é o bonde dos cria que enfogueta as novinhas. Esse é o bonde dos cria que enfogueta as novinhas. Vai na treta do Nem que a Kátia tá também eeemmm. Larga o inhame na Silvinha.

Essa letra edificante é exemplo tosco de um funk – o ritmo oficializado como “manifestação cultural” no Rio de Janeiro. Na Assembleia Legislativa, o funk saiu enfim da “tutela da polícia” e passou para o campo da Cultura. Agora, é ilegal a repressão policial aos bailes.

Eu não conhecia o “Bonde do Inhame” até uma semana atrás. No engarrafamento do Túnel Rebouças, no Rio de Janeiro, um motorista sem camisa fazia ecoar o batidão pelas janelas escancaradas. O asfalto tremia. Quem tinha criança no carro despistava para não traduzir “enfoguetar as novinhas” ou “ir na treta do Nem” – chefe do tráfico da Rocinha. A letra fazia apologia do tráfico, das drogas e da pedofilia.

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Antes que os amigos do funk, os deputados, os acadêmicos e os jornalistas do funk digam que sou de elite e não gosto de “som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado” (“Som de preto”, de Amilcka e Chocolate), queria dizer que nada tenho contra o funk popular e inocente. Tocado sem encher o ouvido alheio.

Entendidos dizem que o funk nasceu do cruzamento da cultura pop e da música negra americana com o cancioneiro popular nacional. “Existe muito preconceito. Acham que funk é coisa de favelado e estimula violência e consumo de drogas”, diz a antropóloga Adriana Facina.

Minha manicure vive na Rocinha. É mãe de uma menina de 9 anos. Perguntei o que ela acha da lei que torna o funk um movimento cultural:

“Cultura? É obscenidade, isso sim. Aqui em casa meus filhos estão proibidos de escutar ou cantar funk. As letras são pornográficas. Fico impressionada com mãe que deixa a filha ir nos bailes, de shortinho, top, tudo de fora, sainha sem nada por baixo. No fim dos bailes, todo mundo doidão, porque tem droga livre, botam funks pesados. Tem baile de domingo pra segunda até 7 horas, como se ninguém trabalhasse.”

Quem vai reprimir, no Rio, os bailes que fazem apologia do tráfico e da pedofilia?

Queria ver os intelectuais do asfalto morando ao lado de uma quadra com o pancadão varando a madrugada. Se a elite tem direito à Lei do Silêncio, por que os pobres têm de ficar surdos?

Para proteger minha amiga, não posso publicar seu nome. Todos têm medo. Mas, não é cultural? Quem desvirtuou o funk foram os chefes dos morros, não a sociedade civil. Eles se apropriaram de um ritmo legítimo. Hoje, muitos favelados associam funk a bandidagem.

Injusto generalizar. Mas quem fala não é elite. É mãe, trabalhadora, sem coragem de apoiar publicamente a repressão aos bailes. Qual seria o resultado de um plebiscito anônimo nas favelas?

Algumas músicas, vendidas em CDs por camelôs ou tocadas nas ruas, me foram enviadas por moradores de favelas. As letras são chulas, baseadas em estribilhos. Aí vai um exemplo: “Ela vira de frente e vem assim,…Vem x…eca, vem x…eca, bem gostosinho. Ela vira de costas, ô, empina pra mim, ô e vem assim. Vem c…inho, vem… (voz de menina) Você quer meu c…? Você quer minha b…?” (repetida ad nauseam). O funk diz sofrer o preconceito que o samba já enfrentou. É sacrilégio comparar o samba com letras de mulher-fruta e créééu.

O lobby da periferia terá de recuperar a imagem do funk nas comunidades. Adianta só condenar no microfone quem incita a crimes? Os líderes do movimento precisam expurgar quem demoniza os bailes. Um dos autores da lei que tira o funk das sombras, o deputado Marcelo Freixo (PSOL) sugere que o ritmo seja “instrumento pedagógico nas escolas”. Propõe “oficinas profissionalizantes de DJs”.

Não faz sentido mesmo vetar um gosto musical. Ou fechar os olhos a um fenômeno que movimenta R$ 10 milhões por mês no Rio e gera milhares de empregos, segundo a Fundação Getúlio Vargas. Mas que se instalem banheiros químicos, câmeras e isolamento acústico, que se proíbam os proibidões. Que se controlem horários. E se fiscalize o consumo.

Eu queria que inhame fosse uma raiz. Que os bondes fossem aqueles sobre trilhos. Que as novinhas continuassem a ser meninas. E que Nem não passasse de um advérbio de negação.

***
Fonte: Época, via Como viveremos? Divulgação: Púlpito Cristão

– Título Original: O bonde do funk agora é cultura.

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6 COMENTÁRIOS

  1. É lamentavél, ver a moral e os valores dos nossos jovens serem destruídos e aniquilados formando assim uma geração de jovens profana e submissa ao pecado, musicas que fazem apologia a roubo, furto, violencia e a degradação e desvalorização da mulher, geração que tem tudo e ao mesmo tempo não tem nada.
    Tambem sei que a única forma de reverter este quadro é o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.
    Oremos para que Deus tenha misericordia e envie seu Santo espirito atraves da pregacao ou evangelizacao ou de alguma forma, a verdade é que temos anunciar as Boas Novas.

    "Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não crêem em mim; da justiça,
    porque vou para o Pai, e não me vereis mais; do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado."

  2. É diabólico estes tipos de expressões que alguns insultão em dizer que são culturais.

    É uma cultura que tem sido inserida na sociedade como um estupro.

    Lembro quando comecei a ministrar aulas na Rede Pública de Ensino no DF, no início da década de 90, e esse tipo de letra começou a surgir.

    Toda sexta-feira era dia de exploração de textos. A cada sexta um texto era apresentado. Um sexta eu trazia um texto, a letra de uma música do Chico Buarque, Adoniran Barbosa, Geraldo Vandré, Vinícius de Moraes, etc.

    Na outra sexta o texto era deles, eles escolhiam um música que eles gostavam de ouvir e traziam para ser explorada.

    Foi assim que eu mostrei a eles a pobreza das letras, o insulto cultural, o estupro moral e social e pasmem muitos pensavam igual a mim, pois já haviam observado as letras das músicas.

    Um exemplo, já parou para observar as letras das cantigas de roda?

  3. Foi a pior coisa que poderia surgir no Brasil em termos artisticos, é um estilo que ploriferou os partidos criminosos e incentiva a pedofilia. Isso tem que acabar, é uma vergonha nacional esse funk maldito.

  4. Tudo bem que o funk é uma expressão cultural (óbvio), mas aí a gente entra na questão de: até onde uma cultura é prejudicial? É fato que o funk faz apologia a fornicação, sexo, etc, etc, etc.

    Acho que é importante pesar os pontos negativos disso, usando sempre o bom senso e o discernimento. Não dá pra relativizar tudo.

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