O velho Eduardo, meu pai e o museu Tallán

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Por Leonardo Gonçalves

As notícias chegam na hora que a gente não espera. E olha que eu sou um cara que de tão realista, as vezes até passa por pessimista aos olhos de alguns. Estou quase sempre preparado para tudo. Quase…

Ontem à tarde, enquanto preparava o almoço, dei-me com a triste notícia do falecimento do velho Eduardo, meu avô paterno. A maior tristeza, no entanto, era a de não estar presente para, de alguma forma, confortar meu pai. Nem que eu quisesse: Brasil só daqui a dois anos. É assim que funciona para os missionários padrão, que não recebem a unção da prosperidade de Abraão, nem possuem jatinhos particulares.

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Mas o pior é que nem mesmo consegui telefonar. As linhas estavam congestionadas. Ligação internacional é um pé! E quando, enfim, consegui ligar, meu pai já havia embarcado para o Rio, para o velório.

“A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida”

Vinícius de Moraes

Aquela notícia me abalou. Eu só queria dar um abraço no meu pai e dizer: “Vamos chorar juntos! Eu vou te ajudar a superar isso”. Mas não pude. Afim de arejar a mente, ou quem sabe fugir dos problemas, peguei a moto e sai sem destino, deixando em casa esposa e filho.

No caminho, passei em frente a estreita estrada que leva à Narihuala, onde existem algumas ruinas da cultura Tallán, de origem pré-colombiana – Uma espécie de museu natural. Mudei o rumo da viagem (como se ela tivesse rumo!), e dirigi até as ruínas. Dois meninos, o menor devia ter uns 7 anos, me serviram como guia na “expedição”.

Eles me levaram até o topo de um morro, onde havia uma espécie de coliseu. Ali, segundo eles informaram, os Tallanes sacrificavam seus filhos ao deus Tallán, que possuia apenas um olho, mas este único olho era tão poderoso que contemplava todas as ações do povo. Sacrificar os filhos era a única forma de aplacar a ira daquele deus. Conversei um pouco com eles sobre aquele falso deus, que segundo eles mesmo, era algo pior que o diabo. Foi a forma que achei de intruduzir o evangelho àquelas crianças.

Quanta tristeza há nesta vida! Só incerteza, só despedida

Vinícius de Moraes

Acima daquelas ruinas havia uma igreja, construída no século XIX, e no fundo um cemitério do início do século XX. Parei ali, sentei na soleira da igreja, tendo como vista o cemitério, e lá embaixo, no horizonte, uma vista panorâmica e privilegiada do baixo-Piura. Dispensei meus guias, e me pus a orar. Chorei inconsolavelmente aos pés do Senhor, enquanto me queixava: “Eu só queria abraçar meu pai neste momento, e dizer para ele que não está sozinho”.

Porém, foi quando disse estas palavras, que o Senhor começou a curar as minhas feridas. Rapidamente fui transportado até a cena da cruz, quando o Filho de Deus exclamou: Eli, Eli, lamá sabactani (Meu Deus! Meu Deus! Porque me desamparaste?). Pensei no abandono de Jesus na cruz… Aquele momento em que o pai lhe abandonara. Imaginei o quanto o Pai desejava abraçar o Filho e dizer: “Tu não estás só; eu estou contigo”, mas isso não era possível. O sacrifício que produziria a redenção de milhares de almas tinha como preço último a solidão da cruz.

Mas ele me respondeu: “A minha graça é tudo o que você precisa, pois o meu poder é mais forte quando você está fraco.”

Paulo de Tarso

Comigo acontecia o contrário: Era um filho querendo confortar o pai, mas o contexto era o mesmo: Redenção. A separação entre pai e filho era, naquele momento, necessária à redenção. Era o preço de missões. Solidão, separação, lágrimas… Meu calvário pessoal. Orei por meu pai por uns poucos, porém mui intensos minutos, até que meus guias minrins retornaram para me buscar.

Daí pra frente, meu dia assumiu outra perspectiva. O sacrifício era deveras grande, e eu tinha que fazer valer à pena. Gastei o resto do dia para visitar cidades e colônias rurais onde não existem igrejas, ou onde estas igrejas precisam de ajuda; repassei mentalmente as estratégias de evangelização para o próximo ano, que inclui o evangelismo pioneiro em cidades do baixo-Piura.

O velho Eduardo foi sepultado hoje, não sei a que horas. Ainda não consegui convesar com meu pai. Não pude abraçá-lo, e provavelmente não poderei. Não agora. Redenção tem como preço o sofrimento, a separação, a solidão. Contudo, assim como Pai e Filho se encontraram na glória, creio que eu e meu pai nos reuniremos em breve. Dois anos passam depressa, quando se tem muito trabalho a fazer.
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8 COMENTÁRIOS

  1. Meu querido irmão e amigo Leo, que o Espírito Santo o conforte nesse momento de adeus. Você não pôde abraçar o seu pai, mas com certeza, o Senhor o abraçou por você. Que o Senhor seque as suas lágrimas.
    Fique na Paz e com os meus sinceros sentimentos.
    Pr Silas

  2. Sinto pela sua dor meu irmão, sei que é difícil, já passei por isso…
    O Senhor vai confortar vc e sua família!!!
    Deus te abençoe querido, é isso.
    Meus sentimentos…A saudade de quem já não está entre nós é algo tão doloroso…E pior, nunca acaba, só a intensidade é que muda…
    Abraço fraterno!

  3. Meu irmão. Estaremos orando por vocês e por seu papai. Lindo texto. Acho que quando seu pai o ler amanha, sentira seu abraço e encontrará ainda mais corforto nas suas palavras e na Paz que o Senhor haverá de lhe dar.

    Do amigo, Danilo

    OBS: Cola este texto lá para nos dividirmos este seu lindo testemunho com os leitores do Genizah tambem.

  4. Meu mano Léo!

    Minhas orações pelo consolo divino em favor de seu Pai, sua família e em especial para você. Mais um aprendizado em momentos adversos, como é o feitio do Pai que nos ama, a ponto de transformar um momento de carência em uma fonte de consolo sobrenatural.

    Paz!

  5. É uma perda, que não se perde; o pior é a saudade.

    Minha mãe se foi em 1994, ela não nos criou, mas o pouco tempo que convivemos foi intenso.

    Dói muito, só o consolo do Senhor JESUS para nos confortar.

    Eu creio que é ele, JESUS, quem te pega no colo, Leonardo, te embala e te coloca no ombro, para chorar.

    Acredite, às vezes, é bom chorar, só as lágrimas nos fazem lembrar que ainda somos humanos.

    "Oh, pedaço de mim
    Oh, metade exilada de mim
    Leva os teus sinais
    Que a saudade dói como um barco
    Que aos poucos descreve um arco
    E evita atracar no cais"

  6. Excelente texto.
    Lindo e profundamente tocante.
    Da mesma maneira que vc "abraçou" seu pai neste momento de dor, nós, seus leitores, abraçamos vc agora.

    :´)

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