O pregador e o palhaço

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Por Hermisten M. Pereira da Costa
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Kierkegaard (1813-1855) conta uma parábola que pode servir como ilustração para o que queremos dizer. Ele conta que um circo se instalou próximo de uma cidadezinha dinamarquesa. Este circo pegou fogo. O proprietário do circo vendo o perigo do fogo se alastrar e atingir a cidade, mandou o palhaço, que já estava vestido a caráter, pedir ajuda naquela cidade a fim de apagar o fogo, falando do perigo iminente. Inútil foi todo o esforço do palhaço para convencer os seus ouvintes. Os aldeões riam e aplaudiam o palhaço entendendo ser esta uma brilhante estratégia para fazê-los participar do espetáculo… Quanto mais o palhaço falava, gritava e chorava, insistindo em seu apelo, mais o povo ria e aplaudia… O fogo se propagou pelo campo seco, atingiu a cidade e esta foi destruída.
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De forma semelhante, temos nós, muitas vezes, apresentado uma mensagem incompreensível aos nossos ouvintes, talvez porque ela também seja incompreensível a nós. As pessoas se acostumaram a nos ouvir brincar tanto com as coisas sagradas, que não conseguem descobrir o sagrado em nossas brincadeiras. Subimos ao púlpito e pensamos que estamos no picadeiro. Por outro lado, nossos ouvintes, por não perceberem a diferença entre o palhaço e profeta, reforçam este comportamento mutante através de um aplauso até mesmo literal. Deste modo, a profecia (pregação) torna-se motivo de simples gostar ou não gostar e o circo perde um de seus talentosos componentes.
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Parece-me correto o comentário de Vincent quando diz que “A demanda gera o suprimento. Os ouvintes convidam e moldam os seus próprios pregadores. Se as pessoas desejam um bezerro para adorar, o ministro que fabrica bezerros logo é encontrado.” É preciso atenção redobrada para não cairmos nesta armadilha: a pregação deve ser avaliada pelo seu conteúdo; não pelos seus supostos resultados. Esse assunto está ligado ao “movimento de crescimento de igrejas”. Iain Murray está correto ao afirmar: “O crescimento espiritual na graça de Cristo vem em primeiro lugar. Onde esse crescimento é menosprezado em troca da busca de resultados, pode haver sucesso, mas será de pouca duração e, no final, diminuirá a eficácia genuína da Igreja. A dependência de número de membros ou a preocupação com números, freqüentemente tem se confirmado como uma armadilha para a igreja.”
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Devemos nos lembrar de que o pregador não “compartilha” opiniões nem dá suas “opiniões” sobre o texto bíblico, nem faz uma paráfrase irreverente do texto, antes, ele prega a Palavra. O seu objetivo é expressar o que Deus disse através de Seus servos. Pregar é explicar e aplicar a Palavra aos nossos ouvintes. O aval de Deus não é sobre nossas teorias e escolhas, muito menos sobre a “graça” de nossas piadas, mas sobre a Sua Palavra. Portanto, o pregador prega o texto, de onde provém a verdade de Deus para o Seu povo.
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O púlpito não é o lugar para se exercitar as opiniões pessoais e subjetivas mas sim, para pregar a Palavra, anunciando todo o desígnio de Deus, sob a iluminação do Espírito. Alexander R. Vinet (1797-1847) definiu bem a pregação, ao dizer ser ela “a explicação da Palavra de Deus, a exposição das verdades cristãs, e a aplicação dessas verdades ao nosso rebanho.” Sem a Palavra, o púlpito torna-se um lugar que no máximo serve como terapia para aliviar as tensões de um auditório cansado e ansioso em busca de alívio para as suas necessidades mais imediatamente percebidas. Ele pode conseguir o alívio do sintoma, mas não a cura para as suas reais necessidades.
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Albert Martin, apresenta uma crítica pertinente. Ele diz:
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“O esforço desnatural de certos pregadores para serem ‘contadores de piadas’, entre a nossa gente, constitui uma tendência que precisa acabar. A transição de um palhaço para um profeta, é uma metamorfose extremamente difícil.”
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Imaginem um jovem entre centenas de outros, ansiosamente procurando seu nome nas listas afixadas nas paredes na universidade a fim de saber se foi aprovado ou não no vestibular. De repente, surge um amigo com um sorriso largo e com os braços abertos, dizendo: “parabéns, você foi aprovado”. O jovem dá-lhe um abraço apertado, pula, grita, ri, chora, comemora… Depois de alguns minutos de euforia, aquele “amigo” diz: “É brincadeira; seu nome não consta entre os aprovados”. Se você fosse aquele vestibulando, como reagiria? Pense nisto: Se você corretamente não admite brincadeiras com coisas sérias, o Evangelho, que envolve vida e morte eternas seria passível de brincadeiras, de gracejos? A pregação é assunto para profeta, não para palhaço; o púlpito não é picadeiro. Pense nisso!
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Que Deus o abençoe.
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Fonte: Monergismo.com
Adaptado por Leonardo G. Silva
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5 COMENTÁRIOS

  1. Ótimo texto, …, excelente reflexão de Kierkegaard. Uma pena que a maioria dos escritos deste cristão são desconsiderados, porque alguns filósofos deturparam suas palavras a fim de criar o Exsitencialismo…, mas isto é outra história,…

  2. Pensador,

    O existencialismo, em sua vertente cristã, tem sua origem em Soren Kierkgaard, assim como a vertente ateísta tem como maior representante o Jean-Paul Sartre. Embora eu leia e goste de muito do que Kiergaard deixou escrito, sempre recomendo uma leitura atenciosa e crítica das suas obras.

    A analogia do palhaço é excelente. O palhaço jamais poderá substituir o pregador no pulpito, e como disse Albert Martin no texto supracitado: “a transição de um palhaço para um profeta, é uma metamorfose extremamente difícil”. Gosto da palavra metamorfose, porque ela expressa tranformação, mudança radical na essência humana. Aliás, é essa a palavra grega que aparece em Romanos 12.2.

    Seus comentários são sempre muito edificantes. Obrigado pela visita.

    Leonardo G. Silva

    MULHER CRISTÃ,

    Também me entristece saber que muitos tratam os pregadores como supostos palhaços. Contudo, será que isso não acontece porque alguns palhaços se infiltraram nas igrejas e tentam passar por pregadores? Na verdade, desconfio que foi isso que o Hermisten, autor do texto, tentou expressar para nós, muito embora sua colocação também seja inteligente e digna de consideração.

    Obrigado pela visita e comentário no blog,

    Em Cristo Jesus,

    Leonardo G. Silva.

  3. Fiz um ano de Filosofia e nunca entendi Kierkegaard, até comprei um livro dele e li, mas nada entendi.

    Quando o Senhor JESUS me encontrou, a pessoa que me discipulava disse que eu deveria queimar todos os meus livros, inclusive os de filosofia. Eu coloquei fogo em uma cidade.

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