Timóteo: Um doente de fé não fingida

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Por Levi B. Santos

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Não acredito que a razão e a fé ou a Ciência e a Religião estejam fadadas a serem eternamente entidades antagônicas. Tem que haver um meio termo, temos que recriar um terreno propício para que estas duas irmãs (razão e fé) possam dialogar, sem que nenhuma delas venha perder a sua particularidade ou identidade.

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A Ciência, cujo trabalho de pesquisa tem como desiderato o fato de que para cada efeito existe uma causa determinante, tem como elemento sempre presente, a “dúvida”. Sendo assim, ela suspeita sempre daquilo que o homem intuitivamente denomina de “mistério”. O mistério revelado, explicado ─ deixa de ser mistério. Alguns religiosos acham que à medida que a Ciência desvenda mistérios, o campo da fé vai sendo minado, e o crente acostumado a acreditar que um determinado fato é intocável, perderá o estímulo, ao tomar consciência de que foi encontrada a “causa” daquilo que antes, para ele, era inexplicável. O Cientista, mesmo ao descobrir um medicamento para cura de determinado mal, não pára de trabalhar, pois é de sua própria natureza estar sempre pensando que no futuro uma outra substância mais potente deverá desbancar a que está na moda hoje.

Nos primórdios do Cristianismo em Alexandria, a primeira escola bíblica foi combatida com ferocidade, pois os partidários da fé e dos mistérios não admitiam em hipótese alguma a Santa Palavra ser objeto de estudo. O estudo, a investigação e o debate eram para eles coisas da vã filosofia, e não poderiam ser aplicadas às coisas “sagradas”. A História registra que Alexandria, sede da cultura da época, possuía o maior acervo de livros do mundo em sua majestosa biblioteca. Nos primeiros embates a razão foi à pique, pois os guerreiros da fé queimaram a quase totalidade dos livros ali existentes. Era para eles totalmente incompatível a convivência pacífica entre a fé e a razão.

A medicina do mundo antigo, muito rudimentar, estava a cargo dos feiticeiros, e as doenças eram em sua grande maioria consideradas como resultado de atuações demoníacas. Passados mais de dois mil anos do início da Era Cristã, os Psiquiatras e Psicanalistas que tratam as doenças da alma ou da mente, são ainda vistos como inimigos da religião. Tanto a religião como a Psiquiatria trabalham num mesmo campo, sendo os partidários da fé os mais renhidos e intolerantes guerreiros, os quais, não aceitam a análise científica das doenças da alma.

Dessa maneira foi criado um grande fosso que impediu, e ainda impede o intercâmbio entre as instâncias da Ciência e da Religião. O Apóstolo Paulo, falando sobre seu maior amigo e filho espiritual Timóteo, o definiu como sendo portador de uma Fé não fingida (II Timóteo 1: 05). Paulo não vacilou e nem se sentiu constrangido ou diminuído em sua fé, ao se fazer de médico, quando aconselhou Timóteo a não beber só água, mas, também um pouco de vinho devido as suas freqüentes enfermidades (I Timóteo 5: 23). Era assim que a Medicina daquela época tratava as doenças do Aparelho Digestivo, e Paulo vendo o sofrimento físico do seu mais amado amigo, não titubeou em ajudá-lo, fazendo-o da melhor maneira que estava a seu alcance naquele momento. É, portanto, inadmissível concluir que, só por esse fato, estes dois apóstolos tão dedicados na missão de expandir o Cristianismo tivessem fraquejado na fé, ao recorrer a este procedimento que para alguns era uma atitude pagã.

Na atualidade, deve soar estranho ao ouvido dos empedernidos defensores da fé, que o apóstolo da estirpe de Paulo tenha escrito essa parte do final da segunda carta a Timóteo: “[…] quanto a Trófimo deixei-o DOENTE em Mileto”. E a fé? ─ dirão os imediatistas dos espetaculosos milagres. Hoje, algumas seitas poderosas da mídia religiosa talvez diagnosticassem o caso de Timóteo, como de encostos ou maldições que deveriam ser urgentemente quebradas. Para estes, a fé não fingida que habitava em Timóteo não poderia ser a fé genuína que soluciona tudo num abrir e fechar de olhos ─ , de que se dizem autênticos representantes.

Parece-me que, o que falta para um frutífero diálogo entre Ciência e Religião é um pouco de bom senso e reflexão. Há pouco mais de setenta anos, dois grandes personagens da História faziam este intercâmbio de forma exemplar. Freud e o Pastor Pfister faziam parte do seleto grupo que fundou a Psicanálise. Trocaram maravilhosas correspondências durante trinta anos dentro de um clima de sincera amizade. As inúmeras cartas trocadas entre eles irradiavam um entusiasmo e um calor humano nunca visto entre um Pastor e um Cientista. O pastor Pfister assim descreveu sua passagem pela Psicanálise: “[…] Experimentei como a neurose altera a prática cristã do devoto. Os dogmas são monstruosamente ressaltados, transformando-se por vezes em fetichismo dogmático. Desta forma, de uma religião de amor, o Cristianismo transformou-se, talvez até na maioria das vezes em uma religião de angústia perante os dogmas”.

Que os modernos guias espirituais de hoje, sem querer arrefecer a fé de muitos, possam ter a humildade de proceder como o Apóstolo Paulo, que usou a medicina alternativa para aliviar as dores do seu maior amigo do peito, o qual, apesar de ser um homem de fé não fingida, convivia com enfermidades de natureza possivelmente gastroenterológicas. Doenças estas, diga-se de passagem, nunca consideradas como de origem demoníaca pela igreja primitiva.
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Fonte: Blog do Levi Bronzeado

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3 COMENTÁRIOS

  1. Sou um destes que não tem nada contra a ciência e que crê fielmente que durante os anos de vida da igreja cristã, houveram muitos cientistas cristãos que entenderam que a fé e a ciência caminham sem que uma necessite atacar a outra.
    Contudo, não consigo entender como podemos usar a psicologia abdicando do aconselhamento cristão! Digo isso, porque tive uma forte formação em psicologia, e estudei bastante a respeito dela, antes e depois de me tornar cristão, também ouvi da boca de psicólogos o que também conclui, que a psicologia e a Bíblia são incompatíveis, pois as duas lutam pela primazia da resposta ao problema do sofrimento humano. Freud anula Deus e remete o problema humano a questões relacionadas nas mais diversas fases do crescimento e desenvolvimento humanos, as quais ele nomeou uma a uma. Geralmente, há grande discordância entre a resposta psicológica e o aconselhamento bíblico, enquanto a resposta psicológica prima por anular o superego, que para Freud era uma consciência formada pela sociedade que servia para impor limites e inibir os desejos do Ego, a consciência humana segundo a Bíblia não é formada pela sociedade, mas sim impressa por padrão divino e a resposta a reação não é seguir o ego, na pratica desenfreada do egoísmo, mas sim, negar a si mesmo, negar as atitudes do ego.
    O grande problema da psicologia é que ela diz resolver os problemas da psiquê, da alma, coisa que a Bíblia afirma que é a única capaz de prover a resposta correta.
    Pois bem, desculpe-me se fui inflexível demais neste ponto, sei que todos somos livres para adotar um posicionamento acerca de determinado assunto, mas penso que o posicionamento deva ser tomado após lermos tudo sobre o que chamamos de ferramenta de auxílio a pregação pós-moderna.
    Longe de mim, minhas palavras serem suficientes para qualquer posicionamento. A Bíblia não ensina isto, antes, ela ordena que cada um busque provar, …, todas as coisas, retenha o que for bom, analisar as escrituras, …, entre outras coisas, …, na realidade só teci um comentário, que pode ser apreciado a fim de promover e incitar a quem quer que se sinta incomodado a verificar se as coisas são de fato assim…

    Um abraço…

  2. A fé e a razão não são antagônicas, o homem sim, em sua divisão de pensamentos antagônicos, tentando justificar tudo aquilo que ele já acredita é que entra em antagonismo.

    Jó 33:12 Eis que nisso não tens razão; eu te respondo; porque maior é Deus do que o homem.

  3. Não consigo ver a psicologia como uma ciência, no sentido exato do termo, embora seja uma forma de conhecimento. Seus métodos, pela própria natureza do assunto de estudo, devem ser diferentes do método científico, embora haja temas, dentro da psicologia, que podem ser estudados de forma realmente científica.

    Isso não é um demérito para o estudo da psiquê, mas irrita-me um pouco essa mania de estudiosos de vários campos de querer chamar-se a si mesmos de cientistas, como que querendo obter para sí a mesma admiração que tem os estudiosos das ciencias "duras".

    Independentemente disso, as diversas psicologias (as escolas são tão dispares que chegam a ser incompatíveis em muitos dos seus postulados) apresentam problemas importantes, nos seus postulados, nos seus métodos de investigação, na sua coerência interna, na sua coerência com a realidade. Isso nos melhores países, que diremos então da nossa situação aqui em Banânia.

    Creio que, guardadas as devidas proporções, o estudo psicológico, se muito bem feito, talvez levaria muitas décadas para deixar de ser algo semi-racional (como a alguimia) para tornar-se algo mais firme, como a História ou a Arqueologia.

    Devo ressaltar que a própria dificuldade do tema do estudo, independentemente da qualidade de seus profissionais, fará com que os resultados sejam sempre um tanto incertos.

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